Está mais do que na hora das empresas começarem a preparação para garantir a longevidade do trabalhador

Máquinas e equipamentos são trocados pelas indústrias quando sua vida útil está se esgotando ou quando podem ser substituídos por outros mais modernos, produtivos e econômicos. Aliás, as indústrias fazem um planejamento financeiro e operacional para a troca do seu maquinário. Hoje, em média, as máquinas e equipamentos utilizados pelas indústrias brasileiras têm uma vida útil de dez anos. Trabalhar com maquinário além da sua vida útil gera queda de produtividade, atrasos e falhas nos processos.
Mas, em relação a seus colaboradores, que terão pelas novas regras da aposentadoria que trabalhar até 65 anos de idade no caso dos homens e 62 anos em se tratando de mulheres, como as empresas estão se preparando para criar condições para que os profissionais seniores possam ser produtivos e saudáveis por mais tempo?
Segundo a coordenadora de negócios do Centro de Inovação Sesi de Produtividade e Longevidade, Noélly Mercer, as empresas precisam desmistificar a ideia de que longevidade é uma preocupação para pessoas de mais idade. Pelo contrário, é preciso cuidar-se desde a juventude para garantir uma vida ativa por muito mais tempo.

Para o presidente e fundador do Centro Internacional da Longevidade Brasil e pioneiro no estudo das questões do envelhecimento, com mais de 40 anos de atividades dedicadas ao tema, Alexandre Kalache, ao contrário do que muitos pregam, é possível ser bastante ativo e produtivo na idade avançada. Na sua avaliação, esse processo está sustentado em dois pilares: conhecimento e saúde.
No entanto, Kalache destaca que é necessário que as empresas façam adaptações no ambiente de trabalho para essa mão de obra. “Adaptar o ambiente de trabalho será necessário a longo prazo, pois a população brasileira está envelhecendo e essa visão fará com que a produtividade não caia”, alerta.
Questionado sobre como as empresas brasileiras devem se preparar para o envelhecimento da população, Alexandre Kalache afirma que é preciso, ao longo do tempo, mostrar como a influência de pessoas mais idosas no ambiente de trabalho cria mais harmonia.
“Os trabalhadores seniores acabam sendo aquela figura mais paterna ou materna no local de trabalho, que dá conselho aos gerentes e também aos operários mais jovens e busca conciliar os relacionamentos entre todos. A presença de pessoas mais idosas nas empresas também reduz as faltas ao trabalho, porque eles acabam servindo de exemplo aos demais. O idoso com mais de 60 anos valoriza trabalhar e não quer ficar à toa. Isso acaba servindo de modelo para os mais jovens”, justifica Kalache
Noélly Mercer
“O envelhecimento ainda é um estigma, mas as indústrias estão começando a enxergar o potencial que as pessoas mais velhas possuem e estão estudando formas de melhor utilizar essa força de trabalho, que possui muito conhecimento acumulado”.
A coordenadora do Centro de Inovação Sesi de Produtividade e Longevidade chama a atenção para o fato de que desde que nascemos já começamos a envelhecer. Portanto, na sua opinião, o envelhecimento deve ocorrer da melhor forma possível e de maneira saudável. Então, está mais do que na hora de começar toda essa preparação visando garantir a longevidade do trabalhador brasileiro.
Trabalhadores estão envelhecendo
Os países mais ricos e desenvolvidos como Europa, Estados Unidos, Canadá e Japão levaram aproximadamente 100 anos para enfrentar a transição de envelhecimento populacional. Assim, estas nações tiveram mais tempo para adaptar suas políticas públicas para a terceira idade, dando real assistência, que se reflete numa cultura de respeito e de aceitação dos direitos das pessoas mais idosas.
Na Europa que envelhece rapidamente, os empregadores estão encontrando formas de ter funcionários mais velhos trabalhando, mantendo-os por mais tempo ou mesmo como novas contratações. Na zona do euro, os trabalhadores entre 55 e 74 anos de idade apresentaram crescimento de 85% no emprego, no período de 2012 a 2018, segundo a Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE). Ainda segundo a OCDE, nos Estados Unidos, a taxa de emprego entre os trabalhadores com idades entre 55 e 64 anos é de 65%.
Cientes do rápido envelhecimento da força de trabalho, os executivos da montadora alemã BMW AG iniciaram uma experiência numa fábrica na Baviera já há alguns anos. Eles colocaram numa linha de montagem exclusivamente trabalhadores mais velhos, com uma idade média de 50 anos. Com pequenos ajustes e um desembolso total de 40 mil euros foram colocados no local cadeiras ergonômicas, pisos de madeira menos rígidos e lentes para ampliar peças menores. Com esses pequenos detalhes a linha tornou-se uma das mais eficientes da BMW.
Já nos países menos desenvolvidos e pobres, o fenômeno do envelhecimento populacional é um fato recente, ocorrendo somente nos últimos 30 anos, porém se deu numa velocidade espantosa de transição. Dessa forma, houve pouco tempo para assimilar e aprender a conviver com o envelhecimento do povo.

Brasil é o quinto país com a população mais velha do mundo
Segundo dados do Ministério da Saúde, o Brasil, desde 2016 tem a quinta maior população idosa do mundo, e, em 2030, o número de idosos ultrapassará o total de crianças entre zero e 14 anos.
Pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostra que a população brasileira está envelhecendo e tem, hoje, 16 milhões de pessoas com mais de 65 anos, devendo saltar para 66,5 milhões em 2040, o que representa um aumento de 315%.

A pesquisa “Política Nacional do Idoso, velhas e novas questões”, elaborada pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), também apresenta dados preocupantes sobre o envelhecimento da população brasileira ao apontar que dentro de 21 anos, metade da força de trabalho no Brasil terá mais de 50 anos.
No caso do Paraná, segundo o IBGE, em 2036, haverá mais idosos do que crianças e adolescentes.
Com relação à idade da mão de obra brasileira, 67% dos trabalhadores têm, atualmente, entre 25 e 49 anos; 21% têm entre 50 e 59 anos; 3% mais de 60 anos e 9% têm menos de 25 anos, de acordo com a Relação Anual dos Empregados (Rais).
Quando se fala em contratação de profissionais maduros, pesquisa da Fundação Getúlio Vargas (FVG) intitulada “Envelhecimento nas organizações e a gestão da idade” aponta que apenas 11% das empresas que atuam no mercado brasileiro mantêm programas voltados a trabalhadores idosos. E aí há um contrassenso, uma vez que embora 9 entre 10 empresas no Brasil acreditem que os profissionais acima de 50 anos demonstram mais equilíbrio emocional se comparados aos mais jovens, no momento da contratação, a opção acaba ficando com os mais jovens.

Sesi do Paraná sai na frente e cria Centro de Longevidade e Produtividade
Com a missão de investir na saúde dos trabalhadores para que eles possam se manter ativos no mercado e consigam fazer todas as contribuições necessárias para conseguir a aposentadoria integral o Sistema Fiep criou o Centro de Inovação Sesi em Longevidade e Produtividade.
Coordenado por Noélly Mercer, o trabalho do Centro partiu de uma demanda identificada pela própria indústria. Isso porque ainda há um estereótipo sobre a longevidade, mas a temática é bem mais ampla e contempla todas as fases da vida profissional, desde o início da carreira. “Nosso objetivo é clarificar este conceito e estimular as empresas a valorizarem o capital humano em todas as suas gerações. Estimulamos o pensamento voltado à capacidade para o trabalho, e não à idade do trabalhador”, explica Noélly.
O Centro de Inovação Sesi Longevidade e Produtividade, desenvolve estudos e pesquisas com o objetivo de assegurar a capacidade para o trabalho em todas as fases da vida dos trabalhadores, por meio do autocuidado, cuidados com a saúde e segurança no ambiente de trabalho.

Essas pesquisas resultaram em metodologias e consultorias inovadoras, voltadas aos trabalhadores e gestores dos setores industriais, personalizadas de acordo com as necessidades das indústrias, sob os pilares da saúde, segurança, diversidade e tecnologias para a saúde.
Como o conceito de longevidade é aplicado nas indústrias?
O conceito de longevidade pode ser aplicado nas indústrias através de ações de prevenção e conscientização, que partem de diversas soluções oferecidas pelo Sesi Paraná.
A primeira é a consultoria para longevidade produtiva, que desenvolve competências pessoais e profissionais do trabalhador para alcançar maior produtividade saudável.
Essa consultoria visa capacitar as lideranças e os profissionais de Recursos Humanos para atuarem na gestão da longevidade e envelhecimento ativo de seus trabalhadores. O foco está na ampliação da capacidade para o trabalho e manutenção dos índices de produtividade. Além disso, identifica os problemas no ambiente industrial que estejam relacionados às questões de idade e transição demográfica.
A segunda solução é a consultoria em trabalho e equilíbrio, focada na prevenção de transtornos de ansiedade e depressão, que podem ser responsáveis por um número maior de afastamentos dentro das indústrias nos próximos anos. Esta consultoria trabalha a gestão dos riscos sociais aplicados à longevidade produtiva.
A terceira solução oferecida pelo Centro de Inovação Sesi Longevidade e Produtividade é a consultoria sobre gerações de trabalho. Este projeto faz uma análise do perfil demográfico da indústria e traz informações e práticas para desenvolver o relacionamento entre diferentes faixas etárias dentro do setor produtivo, facilitando o convívio em busca de produtividade.
A quarta solução à disposição das empresas é a consultoria Vida e Trabalho. Um número cada vez maior de desafios na vida profissional e mudanças na vida pessoal mostram que é preciso fortalecer os recursos individuais de cada trabalhador. Com esse objetivo, a consultoria visa desenvolver competências pessoais e profissionais do trabalhador para a longevidade produtiva e a melhoria dos resultados da organização.
De acordo com Noélly Mercer, essa consultoria é baseada na metodologia Towards Sucessful Seniority, desenvolvida pelo Instituto Finlandes de Saúde Ocupacional e adaptado a realidade do Brasil, e descreve, em termos gerais, habilidades importantes que cada trabalhador pode desenvolver com o objetivo de conquistar a longevidade saudável e produtiva. É oferecida para grupos de até 20 participantes e aborda assuntos relacionados à gestão de carreira e à promoção da saúde, de forma interdisciplinar e interativa, conduzida por dois profissionais que atuam como agentes mediadores do processo.
A quinta solução é a consultoria em Relações Intergeracionais, que visa capacitar os trabalhadores sobre a longevidade no ambiente de trabalho e para o trabalho em equipe com foco no relacionamento intergeracional. Este trabalho promove um ambiente para inovação organizacional com valorização e retenção das competências intergeracionais na indústria e é realizado em quatro módulos, a partir da realização de uma pesquisa para apresentação do perfil demográfico da indústria, com a definição de ações em conjunto com foco em inovação, retenção e valorização das competências intergeracionais.
A sexta solução oferecida pelo Centro de Inovação Sesi em Longevidade e Produtividade é a consultoria em Reinvenção do Trabalho 60+, voltada para pessoas com mais de 50 anos, e tem dois objetivos principais: apoiar para um segundo ciclo de vida e carreira e auxiliar as indústrias para oportunidades e desafios relacionados à longevidade e à intergeracionalidade.
O ponto de partida desse projeto é uma autoavaliação pelos participantes, a partir de sete dimensões: identidade, trabalho, tempo livre, relacionamentos, finanças, saúde, sentido da vida. Essa etapa prepara para outras partes onde são tratados temas e atividades como mudança e transição, com as possibilidades e limitações do envelhecer humano e a construção de uma nova identidade, com base na identificação dos ativos tangíveis e intangíveis adquiridos ao longo da vida; construção do propósito para a segunda metade da vida, com a análise das competências de futuro necessárias para seu alcance e o entendimento dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), a nova agenda mundial de desenvolvimento e construção do novo portfólio pessoal.
Nos encontros, os participantes recebem informações sobre as variáveis do envelhecer humano, em especial, sobre as possibilidades que – dependendo de cada um – permitirão “reinaugurar” um novo ciclo de vida produtivo nas organizações, na sociedade e também na vida pessoal.
Noélly Mercer destaca que as soluções ofertadas pelo Centro de Inovação Sesi em Longevidade e Produtividade trazem benefícios a longo prazo para todo o cenário macro: indústrias, trabalhadores e a comunidade do entorno. “Os temas são trabalhados de forma interdisciplinar, lúdica e interativa. Isso facilita a capacitação de funcionários, lideranças e indústrias em geral sobre um tema tão importante para a saúde de pessoas e negócios”, explica.
As indústrias interessadas podem consultar o site longevidade.ind.br para saber mais sobre os serviços oferecidos.
Mundo tem mais avós do que netos
A população com mais de 50 anos está crescendo a passos largos. De acordo com dados da Organização das Nações Unidas (ONU) são 705 milhões de pessoas acima de 65 anos contra 680 milhões entre zero e quatro anos. Estes números significam que pela primeira vez o mundo tem mais avós do que netos.
Segundo a embaixadora do Instituto LAB 60+ em Curitiba, Maritza Pinto Ribeiro, a chegada dos 50 anos de idade traz um repensar sobre a vida e a carreira de cada pessoa. “Normalmente, nesta etapa, a carreira está em alta e definida, a pessoa já possui um certo patrimônio construído e existe uma busca maior por qualidade de vida, realização pessoal e o desejo de contribuir com a sociedade e deixar um legado”, afirma.

O Lab 60 + é um movimento de inclusão, descoberta e criação da “nova longevidade” brasileira. Nasceu em São Paulo em 2014 e está se espalhando pelo Brasil com conexões internacionais. “Nós realizamos reuniões mensais gratuitas e abertas a participação de todos. O intuito é despertar para a longevidade ativa, protagonismo do idoso, impactos em nossas famílias e relações, foco em chegar à idade avançada com propósito e planos”, informa Maritza.
Maritza é psicóloga e trabalhou muitos anos como headhunter no setor financeiro, através de sua empresa, a Agire. Hoje trabalha com a ressignificação da carreira de pessoas com mais de 50 anos, que têm background e know how acumulados e um saber que não pode ser desperdiçado.
A consultora de carreira afirma que hoje está vivendo a fase da envelhecência, que é o período de preparação do adulto para a velhice. Cansada de passar horas no trânsito congestionado, Martiza Ribeiro está se reinventando, abriu mão do escritório físico e hoje atende seus clientes em cafés, em empresas e até em parques de Curitiba. “Hoje me considero uma apaixonada pela causa da longevidade, quando todos podem viver mais e melhor”.
Confira no video abaixo como Maritza Pinto Ribeiro está se reinventando.








