Empuxe recessivo do Covid-19
A economia global esboçava, desde fins de 2018, sinais bastante nítidos de desaceleração do ciclo expansivo vivido a partir de 2010, depois da superação do pronunciado constrangimento provocado pela falência do segmento hipotecário de segunda linha dos Estados Unidos (EUA), conhecido como subprime, em 2008-2009, que se propagou, de forma rápida e plena, na direção dos sistemas imobiliário e financeiro, e alcançou também o aparelho de produção e transações.
Na época, de pronto, a promoção de ações sincronizadas tomadas pelas autoridades monetárias dos principais países avançados e alguns emergentes – centrada especialmente no desempoçamento da liquidez, por meio de forte diminuição de juros, ampliação da disponibilização de crédito e socorro às instituições mais atingidas pelo default -, permitiu a formação de um ambiente propício à gradativa recomposição dos negócios e retorno à normalidade.
A continuidade sustentada do revigoramento resultou no alcance do quase pleno emprego em alguns mercados, acompanhado do controle da inflação, em um período de transição para a 4ª revolução industrial, baseada essencialmente em processos digitais e inteligência artificial.
O esgotamento da recuperação sincrônica e generalizada do organismo econômico mundial e subsequente interrupção do estágio de crescimento surgiram com a deflagração da guerra comercial entre EUA e China, as duas maiores potências do planeta, embaraços de natureza geopolítica, que desembocaram em embargos comerciais à Rússia e Irã, vitórias de pautas conservadoras e protecionistas em algumas eleições presidenciais de nações de apreciável envergadura, além da multiplicação das pressões oriundas da agenda ambiental.
Naquelas circunstâncias, a paralisação da esmagadora maioria das complexas linhas de produção e cadeias internacionais de valor, acrescidas do fechamento de fronteiras, imposição de quarentenas e isolamento social, precipitadas pelo aparecimento e alarmante alastramento do Corona Vírus, deve constituir o maior choque de oferta da história, aplicado à economia mundial.
Na verdade será o primeiro de grande amplitude dos templos de globalização, suplantando os eventos de quadruplicação e duplicação das cotações do petróleo, acontecidos, respectivamente, em 1973 e 1979, e que deve, inevitavelmente, gerar uma recessão de proporções ainda não mensuradas pelo Fundo Monetário Nacional (FMI) e Banco Mundial.
Apenas como exemplo, de acordo com o National Bureau of Statistics of China, produção industrial e vendas no varejo caíram -13,5% e -20,5%, respectivamente, no 1º bimestre de 2020, em comparação com o mesmo período de 2019, consubstanciando as piores performances em três decênios.
O clima de exacerbação das incertezas quanto à dimensão e duração da pandemia e a eclosão de posturas afoitas e iniciativas tímidas e/ou insuficientes assumidas pelo comando econômico das principais nações tem ensejado fortes movimentos especulativos, atrelados à desesperada busca de rearranjos de portfólios e, por extensão, ocasionando acentuada depreciação dos ativos corporativos.
Nesse sentido, a decisão de repetição de receitas prescritas para eliminação da turbulência acontecida no final da década de 2000, amparadas em remédios monetários, revela-se pouco eficaz por não tratar-se aqui de apenas encolhimento de demanda. Presentemente, o que se apreende é o delineamento de um curso cadente provocado pela maximização da insegurança dos atores acerca do tamanho e tempo do cenário de retração da oferta de bens e serviços e das margens de rentabilidade.
O Federal Reserve (Fed), banco central dos EUA, cortou de modo extraordinário, em 15.03.2020, a taxa de juros básica do país, da faixa entre 1% ao ano e 1,25% a.a., para 0% a.a. e 0,25% a.a., o que representa o maior estímulo monetário desde 2008, contra inflação anual ao consumidor de 2,3%. Frise-se que, no princípio de março, o Fed já havia realizado redução de 0,50 ponto percentual. Adicionalmente, também autorizou a injeção de US$ 700 bilhões na aquisição de bônus do tesouro e hipotecas em curto termo.
Houve ainda acordo com os bancos centrais de Canadá, Inglaterra, Japão, Suíça e Banco Central Europeu (BCE) visando à diminuição dos juros das operações de swap, que incorporam oscilações dos contratos.
A despeito da natureza dramática do evento depressivo decorrente do COVID-19, o sistema financeiro mundial encontra-se menos vulnerável, mais conservador e regulado do que em 2008, quando houve quebra do Lehman Brothers, Citibank e Bank of America e mais de mil pequenas e médias instituições, em razão da aquisição desenfreada, pelas famílias, de imóveis superavaliados, que lastreavam papéis ruins negociados em diferentes mercados.
Em 2020, o perigo reside na contaminação do segmento bancário pelas corporações não financeiras, que possuem passivo estimado em US$ 13,5 trilhões, com vencimento de 1/3 em cerca de três anos, ancorado em enorme emissão de títulos estimulada pela abundância e reduzido preço do dinheiro no mundo.
Por tudo isso, em vez da negação da globalização, o enfrentamento e tratamento do problema exigirá abrangente e sofisticada concatenação de estratégias entre governos, Tesouros, bancos centrais e entidades multilaterais, reconhecendo o limitado alcance, ou até impotência, das intervenções monetárias, e a premência de implementação de políticas fiscais ativas, preponderantemente nos espaços avançados dos EUA, Alemanha e França.
É relevante lembrar que, em momentos de pânico, taxas de juros na lona pode não ser o instrumento mais adequado para o restabelecimento da posição original dos portfólios e o bloqueio da fuga de capitais e, o que é pior, incitar a elevação do endividamento privado e, por consequência, o risco de crédito, que costuma disparar em condições de choque de oferta.
A reprodução ampliada do colapso mundial no Brasil, com economia estagnada há mais de três anos, pode ser atribuída à conjugação entre quatro fatores: i) marcha de apreciação das Bolsas desatrelada dos fundamentos, em 2019; ii) interferência do abrupto declínio dos preços das commodities, com a contração da China, e do medo, no comportamento da taxa de câmbio; iii) debilidade das contas públicas e vacilante compromisso oficial com as reformas; e iv) escassez de equilíbrio do executivo e correspondente déficit de articulação com os demais poderes, elementos cruciais para a resolução do enorme problema de saúde e humanitário sem abdicação dos ainda pífios êxitos no front fiscal.
Ainda assim, não há saída dissociada da flexibilização da meta fiscal, cobertura financeira para alongamento dos prazos de quitação das dívidas de empresas e famílias e de recolhimento de tributos, cujo volume, por sinal, deve diminuir com a drástica compressão das atividades.
A propósito da possibilidade de dispensa de cumprimento da meta fiscal, o governo encaminhou solicitação ao Congresso para reconhecimento e decretação de estado de calamidade pública no país, válido até 31 de dezembro de 2020, o que referendaria a necessidade de elevação dos dispêndios com saúde e a revisão da intenção de superávit primário.
O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço, que é economista, consultor, foi diretor presidente do IPARDES entre 2011 e 2014.








