A complicada superação da depressão brasileira

O relatório “Panorama Econômico Mundial”, divulgado neste mês de abril de 2020, pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), apresenta, de forma geral, um ambiente de expectativas menos desfavoráveis para a economia global, diante dos danos atuais e potenciais provocados pelo alastramento da pandemia do Novo Coronavírus em regiões e países.

De fato, na tentativa de fuga da qualificação de espalhadora de histeria e pânico, a agência multilateral de crédito projetou encolhimento de -3% do produto interno bruto (PIB) mundial, no corrente ano, e expansão de 5,8%, em 2012. As inferências não incorporaram a diminuição de -6,8% do PIB chinês, entre janeiro e março de 2010, em confronto com idêntico lapso de 2019, a 1ª desde 1992, quando tem início a série histórica de levantamentos trimestrais no país.

As previsões estão ancoradas nas premissas de que as quarentenas, isolamentos parciais e distanciamentos sociais, adotados em larga escala, tenham encerramento no 2º trimestre de 2020, e os megapacotes fiscais e monetários, acionados por quase todas as nações, forneçam oxigênio aos negócios. Ao mesmo tempo, a entidade incorporou nas prospecções as chances de avanços expressivos na descoberta de remédios e vacinas destinados ao combate e estancamento da Covid-19.

Em não se confirmando, de modo parcial ou pleno, esse cenário não tão desconfortável, a recessão curta, embora profunda, que nasceu em meio ao movimento de desaceleração cíclica, experimentado entre o 2º semestre de 2018 e fevereiro de 2020, se transformará na mais intensa e longa contração dos níveis de atividade da história, com dramáticos desdobramentos sociais.

A propósito disso, o próprio Fundo argumenta que pelo menos 90% das nações do planeta deverá amargar declínio de renda per capita e parte substancial dos dispêndios públicos alocados na luta contra a doença e auxílio às famílias e firmas conduzirá a pronunciada subida do endividamento privado (com base apreciada ex ante) e ampliação da carga tributária.

Convém reter que a pandemia provocou a maior catástrofe financeira de que se tem notícia, ilustrada pelo recuo inédito de 20% do valor das ações negociadas no mercado de capitais americano (S&P 500), em dezesseis pregões consecutivos, que se irradiou para as praças emergentes.

De acordo com o FMI, estas últimas foram vitimadas pela chamada “tempestade perfeita”, contabilizando forte desvalorização cambial, disparada dos spreads cobrados pelas instituições financeiras na rolagem dos papéis dos passivos soberanos e a mais abrupta e acentuada alteração da corrente de haveres em carteira já observada, marcada por evasão líquida de recursos de aproximadamente US$ 100 bilhões, entre 21 de janeiro e 09 de abril de 2020.

Não bastassem os constrangimentos na órbita financeira, no front real, aqueles estados foram afetados pela drástica contração da demanda e cotações dos produtos dominantes de suas pautas de vendas externas, mais precisamente as commodities minerais, metálicas e alimentares. Os técnicos do Fundo estimam que os preços médios de petróleo, metais e alimentos devem situar-se, em 2020, em patamares de 42%, 15% e 2,6%, respectivamente, inferiores aos registrados em 2019.

No Brasil, o terremoto simplesmente ameaça engolir um organismo econômico debilitado, destituído de capacidade de crescimento desde os primórdios de 2014, fruto especialmente da persistente realização de fracassados experimentos macroeconômicos populistas, pela dupla Lula/Dilma, que contribuiu para a construção de uma “crise de endividamento”, público e privado, sem precedentes, como defende o ex-ministro da Fazenda do governo Sarney, professor Luiz Carlos Bresser Pereira, curiosamente convertido ao dogma intervencionista.

Ademais, o vazio de propostas, programas e projetos consistentes e articulados, voltados à superação da estagnação crônica, neste mais de ¼ de mandato do governo Bolsonaro, agravado pelo despreparo e desinteresse no estreitamento de laços políticos centrados na negociação legislativa das reformas estruturais requeridas para devolução da funcionalidade do Estado e restauração da eficiência da microeconomia, comprovam a escassez de munição fiscal para a guerra que se inicia.

Na falta de feitura das complexas tarefas de casa, os esforços sincronizados nas áreas orçamentária e monetária, envolvendo minimização de sofrimentos e preservação de vidas, empresas e empregos, deverão resultar em emissão de fatura proporcionalmente mais vultosa quando cotejada com a dos países ricos e em desenvolvimento.

Não por acaso, cálculos do Fundo denotam salto na dívida bruta (Governo Federal, INSS e governos estaduais e municipais) brasileira de 75,8% do PIB, em 2019, para 98,2% do PIB, em 2020, superando, em grande medida, a dos emergentes (63,3% do PIB) e, inclusive, a da Zona do Euro (97,4% do PIB).

Por isso, afigura-se crucial o empenho de atores políticos e sociais na adequada compreensão da gravidade do evento e complexidade e lentidão do processo depurativo, em uma conjuntura econômica, antecedente e presente, mais inóspita do que a do restante do mundo.

Aliás, tal situação contraria frontalmente a retórica do chefe de estado, explicitada por ocasião da cerimônia de substituição do ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, de que a “economia estava voando” antes da pandemia. Ledo engano. Na realidade, não era possível enxergar nem o costumeiro “voo de galinha”.  

O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço, que é economista, consultor, foi diretor presidente do IPARDES entre 2011 e 2014.

Mirian Gasparin

Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná.Profissional com experiência de 50 anos na área de jornalismo, sendo 48 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social.Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Também é professora titular nos cursos de Jornalismo e Ciências Contábeis da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas paranaenses, de São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos.Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 16 anos de blog, mais de 35 mil matérias foram postadas.Ao longo de sua carreira recebeu 20 prêmios, com destaque para o VII Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º e 3º lugar na categoria webjornalismo em 2023); Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005).Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.

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