Tamanho e feição da recessão global

O escritório de estatísticas econômicas (US Bureau of Economics Analysis-BEA) americano, atrelado ao Departamento de Comércio, lançou o indicador mais aguardado pelos meios especializados para a preparação de um melhor arcabouço interpretativo dos efeitos econômicos arrasadores da pandemia do Novo Coronavírus, nos principais espaços geográficos do planeta.

Trata-se do produto interno bruto (PIB) dos Estados Unidos (EUA) que, de acordo com aquele organismo, encolheu -4,8% no primeiro trimestre de 2020, em confronto com o mesmo período de 2019, representando a 1ª queda desde 2014, a maior desde o derradeiro trimestre de 2009 (-8,5%) e o primeiro empurrão na base produtiva na direção do abismo.

O retrato negativo deriva do cancelamento de operações no mercado doméstico e declínio das exportações e receitas de turismo, em face das medidas de confinamento pessoal e fechamento de comércio e serviços, estipuladas por vários governadores, diante da premência de contenção do surto epidêmico.

Ademais, o recuo de -1,2%, em relação ao intervalo de tempo compreendido entre outubro e dezembro de 2019, quando ocorreu incremento de 2,1%, praticamente decretou o encerramento da etapa de crescimento ininterrupto, registrada por cerca de uma década, a mais prolongada da história, que veio na sequência da superação do contágio internacional decorrente do colapso do segmento hipotecário de 2ª linha norte-americano.

Considerando que na China, 2ª maior economia do mundo, que identificou os primeiros casos de Covid-19 em dezembro de 2019, decretou expressivo isolamento de pessoas e interrupção dos fluxos de produção e distribuição, ainda em janeiro de 2020, o PIB decresceu -6,8%, entre janeiro e março do corrente ano, parece lícito supor que o pior ainda esteja para chegar aos EUA. Aliás, por lá, o chefe de estado, de início, minimizou o potencial destrutivo da doença.

Na verdade, é preciso entender que o tombo trimestral reproduz quase que exclusivamente o comportamento verificado na a 2ª quinzena de março, quando mais de 10 milhões de trabalhadores protocolaram solicitação de seguro desemprego. Mas, até o final de abril de 2020, o número de pedidos do benefício superava mais de 26 milhões de americanos. Isso sinaliza, em caráter preliminar, a dimensão da retração dos patamares de produção e negócios, ainda não captada por mensurações oficiais nem calculada por entidades privadas.

Ademais, um panorama marcado por rota cadente dos rendimentos oriundos do fator mão de obra e acentuação das incertezas quando ao abrandamento da quarentena e autorização de abertura fábricas e serviços não essenciais, como restaurantes, permite o delineamento de aprofundamento do buraco recessivo, em consequência, fundamentalmente, de substancial compressão do consumo das famílias.

Convém lembrar que essa variável constituiu a vedete do boom expansivo observado no último decênio e é responsável por 70% da renda agregada. Só a título de ilustração, as vendas reais do comércio varejista dos EUA, que absorvem 25% dos orçamentos familiares, diminuíram -8,7%, no mês de março de 2020, a pior performance desde 1992. De seu turno, as exportações despencaram -6,7%, o pior resultado desde a crise de 2008.

Acrescente-se a interferência da multiplicação de pleitos de recuperação judicial e falências de empresas de pequeno e médio porte e drástica retração da produtividade, associada à proliferação dos trabalhos em regime remoto, que exige complexa conjugação entre rotinas de produção laboral e tarefas domésticas, como educação dos filhos.

Por tudo isso, é generalizado entre os experts o diagnóstico de que o 2º trimestre deverá traduzir plenamente os desdobramentos danosos do enfraquecimento dos vetores econômicos (produção, emprego, consumo e exportações) e contabilizar evento descendente semelhante ao amargado durante a Grande Depressão, acontecida entre 1929 e 1933.

Até aqui, afigura-se bastante complicada a projeção dos impactos do pacote de socorro de US$ 2,2 trilhões, disponibilizado pelo governo americano á empresas, trabalhadores e famílias. Houve transferência direta de US$ 1.200 para famílias com renda anual de até US$ 75 mil e ampliação do contingente populacional coberto por seguro desemprego, incorporando informais de aplicativos, como motoristas e entregadores.

Logo, mesmo supondo o alcance do pico de contaminação no mês de abril, nos EUA, a decisão não homogênea e a natureza gradual de retorno das atividades, nos diferentes estados, a partir de maio, o esforço de prospecção do regresso à normalidade revela-se extremamente complicado.

Isso porque, se se levar com conta que, na ausência de descoberta de remédio e/ou vacina, não se deve descartar as chances de ocorrência de alternância entre fases de bloqueio, parcial ou pleno, e afrouxamentos e, por extensão a colheita de resultados econômicos pouco robustos.

Para finalizar, o PIB das 19 nações que formam a Zona do Euro sofreu redução de -3,8% no primeiro trimestre de 2020, configurando a maior baixa da série histórica, levantada desde 1995 pela Agência de Estatísticas da União Europeia (Eurostat).

O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço, que é economista, consultor, foi diretor presidente do IPARDES entre 2011 e 2014.

Mirian Gasparin

Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná.Profissional com experiência de 50 anos na área de jornalismo, sendo 48 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social.Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Também é professora titular nos cursos de Jornalismo e Ciências Contábeis da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas paranaenses, de São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos.Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 16 anos de blog, mais de 35 mil matérias foram postadas.Ao longo de sua carreira recebeu 20 prêmios, com destaque para o VII Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º e 3º lugar na categoria webjornalismo em 2023); Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005).Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.

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