SARS-COV-2 importado e recessão made in Brazil

O arcabouço da análise econômica deve exprimir solidez renovada em tempos de propagação multiplicada de elementos de catástrofe, associados a eventos que, por diferentes motivos, escaparam dos radares instalados em vários modelos de interpretação prospectiva, dedicados essencialmente ao fornecimento de referências futuras às escolhas estratégicas dos agentes sociais.

Isso é particularmente importante porque os profundos estragos e fatores de perturbação derivados do surgimento e rápido alastramento da pandemia provocada pela Covid-19, em escala global, abalaram sensivelmente a eficácia dos instrumentos empregados tradicionalmente nos exercícios de avaliação do curso da conjuntura e feitura das previsões.

Decerto que algumas correções e adaptações vêm sendo introduzidas nos parâmetros de observação do comportamento das variáveis explicativas dos sinais vitais e da formação do quadro, geral e pormenorizado, das expectativas, que, aliás, se tornaram absolutamente sombrias a partir da maximização das incertezas ocasionadas pela escalada do Coronavírus e produção de um choque de oferta e demanda sem precedentes na economia internacional.

Nessas circunstâncias, parece prudente a intensificação de esforços de natureza científica na identificação das principais tendências das informações, preferencialmente destituídos de ranços provenientes de posições ideológicas extremadas. O preço da negação da recomendação de cautela e suporte técnico pode se traduzir na inserção de premissas equivocadas no trabalho preditivo e, por extensão, na produção de ruídos no suprimento de elementos úteis para as tomadas de decisões públicas e privadas, em um clima tão inóspito como o atual.

A situação brasileira é exemplar a esse respeito. É impossível ignorar os incontáveis tropeços e lambanças do governo Bolsonaro, e especificamente de sua equipe econômica, por ocasião da gestão (ou falta dela) da enorme crise sanitária, econômica e social que assola o país.

O chefe de estado, endossado pelo time titular, tem passado a imagem de habitação em outro mundo, em função de manifestações de ferrenho apego e defesa da adoção de medidas capazes de assegurar a conquista do ajuste fiscal na “boca do caixa”, mesmo diante da elevação dos danos atrelados ao maior colapso econômico da história, ocasionado por raízes fortes, venenosas e de difícil extermínio.

Se, em caráter paliativo, o isolamento social representa a melhor conduta para a contenção da acentuada evolução dos números de contágio e mortes provocados pelo surto, enquanto se espera os progressos na descoberta de remédios e vacinas, a mitigação das substanciais perdas de emprego e renda, decorrentes da descontinuidade dos fluxos de produção e negócios, exige despojamento da prática liberal e mergulho no intervencionismo estatal clássico, amparado em vultosos suportes orçamentários, viabilizados com emissão de dívida pública.

Por essa perspectiva, em paralelo à inação do ministro Paulo Guedes, recheada de divagações e terrorismo retóricos, enaltecendo a ideia de que o Brasil surpreenderia o planeta no enfrentamento e saída da crise, e ainda preso ao sonho reformista, o pragmatismo do Congresso Nacional propiciou a criação de um programa de renda mínima emergencial de R$ 600, por três meses, que beneficiou mais de 50 milhões de pessoas, instituiu o Orçamento de Guerra – uma permissão constitucional para dispêndios públicos incrementais destinados a ações de combate direto e indireto à pandemia, até o final de 2020 – e aprovou o pacote de socorro a estados e municípios, voltado à compensação de perdas de arrecadação e despesas com saúde ligadas ao episódio sanitário.

De seu ângulo, o poder executivo tem demonstrado significativo déficit de percepção e reconhecimento, ainda que de forma tática, do ambiente político, institucional e econômico nacional pouco virtuoso, prevalecente já na etapa que antecedeu a eclosão do surto epidêmico, em consequência da não formulação, explicitação e negociação de um projeto de desenvolvimento de longo prazo, definidor dos ganhadores e perdedores diretos de um ciclo de retomada expansiva.

Pela ótica da sociedade houve a percepção acerca da insuficiência de comando, coordenação, articulação e capacidade de organização do palácio do planalto na montagem de retaguarda parlamentar, imprescindível, em regimes democráticos, à tramitação e aprovação do bloco de propostas de modificações estruturais, considerado fundamental ao resgate da solvência do estado e da produtividade microeconômica.

Por absurdo, decorrido mais de ¼ do mandato da nova administração, o Coronavírus atingiu o país, no último terço de março de 2020, com economia estagnada há mais de três anos, e, o que é pior, desprovida de componentes de reversão. Ao contrário, indústria, comércio e serviços, que já definhavam, foram empurrados para dentro do poço, em março e abril do corrente ano. É claro que o Sars-CoV-2 é importado, mas a nova onda recessiva é Made in Brazil.

O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço, que é economista, consultor, foi diretor presidente do IPARDES entre 2011 e 2014.

Mirian Gasparin

Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná.Profissional com experiência de 50 anos na área de jornalismo, sendo 48 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social.Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Também é professora titular nos cursos de Jornalismo e Ciências Contábeis da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas paranaenses, de São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos.Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 16 anos de blog, mais de 35 mil matérias foram postadas.Ao longo de sua carreira recebeu 20 prêmios, com destaque para o VII Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º e 3º lugar na categoria webjornalismo em 2023); Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005).Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.

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