Covid-19 compromete transição para energia limpa se não existir uma ação urgente dos stakeholders

Covid-19 compromete transição para energia limpa se não existir uma ação urgente dos stakeholders

A pandemia do coronavírus arrisca cancelar o progresso recente na transição para energia limpa, com quedas sem precedentes na procura, volatilidade de preços e pressão para mitigar rapidamente os custos socioeconômicos colocando em dúvida uma trajetória que estava perto do final.

As políticas, os roteiros e os quadros de governança para a transição energética a nível nacional, regional e global têm de ser mais robustos e resilientes contra choques externos, de acordo com a última edição do relatório Fostering Effective Energy Transition 2020 do Fórum Econômico Mundial, publicado nesta sexta-feira (15).

A Covid-19 obrigou empresas de todas as indústrias a se adaptarem à interrupção operacional, a mudanças na procura e a novas formas de trabalho, e os governos introduziram pacotes de recuperação econômica para ajudar a mitigar esses efeitos. Se implementados com estratégias de longo prazo em mente, também poderiam acelerar a transição para a energia limpa, ajudando os países a escalar os seus esforços para sistemas de energia sustentáveis e inclusivos.

“A pandemia do coronavírus oferece uma oportunidade de considerar a intervenção pouco ortodoxa nos mercados de energia e a colaboração global para apoiar uma recuperação que acelere a transição energética quando a crise aguda diminuir”, disse Roberto Bocca, diretor de Energia e Materiais do Fórum Econômico Mundial.

Estratégias agressivas

 
“Esta crise sem precedente dá-nos a opção de lançar estratégias agressivas, visionárias e de longo prazo, levando a um sistema de energia diversificado, seguro e fiável que, em última análise, apoiará o crescimento futuro da economia mundial de forma sustentável e equitativa.”

O relatório baseia-se em percepções do Índice de Transição Energética (ETI) 2020, que avalia 115 economias sobre o desempenho atual dos seus sistemas de energia – em desenvolvimento econômico e crescimento, sustentabilidade ambiental e indicadores de segurança energética e acesso – e a sua preparação para a transição para sistemas de energia seguros, sustentáveis, acessíveis e inclusivos.

Os resultados de 2020 mostram que 75% dos países melhoraram a sua sustentabilidade ambiental, mesmo que a pontuação média global para essa dimensão continue a ser a mais baixa das três categorias avaliadas. Esse progresso é o resultado de abordagens multifacetadas e incrementais, incluindo preços de carvão, retirada de fábricas de carvão antes do previsto e redesenho dos mercados de eletricidade para integrar fontes de energia renováveis.

No entanto, este progresso conseguido com esforço destaca as limitações de depender de ganhos incrementais a partir de políticas e tecnologias existentes para concluir a transição para energia limpa. O maior progresso global é observado entre as economias emergentes, com a pontuação média do ETI para os países no top 10% permanecendo constante desde 2015, sinalizando uma necessidade urgente de soluções inovadoras – ameaçada pela COVID-19.

Índice de Transição Energética 2020

A Suécia (1) lidera o ETI pelo terceiro ano consecutivo, seguida da Suíça (2) e da Finlândia (3). A França (8) e o Reino Unido (7) são os únicos países do G20 no top 10. No entanto, partilham atributos comuns, como limitar subsídios energéticos, reduzir a dependência das importações (melhorando assim a segurança emergente), obtendo ganhos na intensidade energética do PIB e aumentando os compromissos políticos para perseguir metas ambiciosas de transição energética e alterações climáticas.

O desempenho é misto no resto do G20. Os centros emergentes de procura como a Índia (74) e a China (78) têm feito esforços consistentes para melhorar o ambiente de capacitação, que se refere a compromissos políticos, envolvimento e investimento do consumidor, inovação e infraestrutura, entre outros.

No caso da China, problemas de poluição do ar resultaram em políticas para controlar as emissões, eletrificar veículos e desenvolver a maior capacidade mundial de centrais solares fotovoltaicas e eólicas terrestres. Para a Índia, os ganhos vieram de um programa de expansão de energias renováveis implementado pelo governo, agora prolongado para 275 GW até 2027. A Índia também fez avanços significativos na eficiência energética através da aquisição em massa de lâmpadas LED, medidores inteligentes e programas de rotulagem de aparelhos. Medidas semelhantes estão a ser experimentadas para reduzir os custos dos veículos elétricos.

No entanto, a tendência foi moderadamente positiva na Alemanha (20), no Japão (22), na Coreia do Sul (48) e na Rússia (80). A Alemanha tem demonstrado um forte compromisso na eliminação do carvão e descarbonização da indústria através de hidrogénio limpo porém, a viabilidade dos serviços energéticos tem sido um desafio. O Japão e a Coreia enfrentam desvantagens naturais enquanto importadores de energia líquida.
 

Sustentabilidade ambiental

 
No entanto, o ambiente de negócios inovador, o desenvolvimento de infraestruturas e o compromisso político continuam a ser os principais facilitadores em ambos os países. Na Rússia, o setor energético continua a ser um forte pilar da economia e continua a liderar globalmente na segurança energética, embora o progresso na sustentabilidade ambiental tenha sido moderado.

Por outro lado, os resultados de ETI para os Estados Unidos (32), Canadá (28), Brasil (47) e Austrália (36) estão estagnados ou em declínio. Os desafios confirmam a complexidade das contrapartidas inerentes à transição energética. Nos Estados Unidos, os ventos contrários têm estado principalmente relacionados com o ambiente político, enquanto para o Canadá e a Austrália os desafios residem no equilíbrio da transição energética com o crescimento econômico, dado o papel do setor energético na sua economia.

O fato de apenas 10 dos 115 países terem registado melhorias constantes nas pontuações do ETI desde 2015 mostra a complexidade da transição energética. A Argentina (56), a China (78), a Índia (74) e a Itália (26) estão entre os maiores países com melhorias anuais consistentes. Outros, como o Bangladesh (87), a Bulgária (61), a Chéquia (42), a Hungria (31), o Quênia (79) e Omã (73) também tiveram ganhos significativos ao longo do tempo.

Por outro lado, os resultados do Canadá, Chile (29), Líbano (114), Malásia (38), Nigéria (113), e Turquia (67) desceram desde 2015. Os Estados Unidos estão fora do top 25 pela primeira vez, principalmente devido à perspetiva regulatória incerta para a transição energética.

Desafio

 
Mais de 80% dos países melhoraram o desempenho no acesso à energia e segurança desde 2015, mas o progresso nos países em desenvolvimento na Ásia e na África continua a ser um desafio. Os programas de acesso à energia nestas regiões precisam dar prioridade a serviços comunitários, como iluminação pública, aquecimento e arrefecimento urbano, armazenamento a frio para preservação de alimentos e medicamentos, saneamento urbano e gestão do tráfego.

Em economias avançadas, o “acesso” é definido pela viabilidade. As contas de serviços energéticos representam uma parcela crescente das despesas das famílias, um desafio que pode ser agravado pelas incertezas econômicas criadas pela Covid-19. Para além disso, a segurança energética está cada vez mais vulnerável a eventos climáticos extremos, como furacões, inundações e incêndios florestais – que têm aumentado em frequência e intensidade – e ataques cibernéticos.

Embora as lacunas entre o que é necessário, o que é prometido e o que provavelmente será alcançado permaneçam grandes, as interrupções combinadas da Covid-19 desestabilizaram o sistema energético global com potenciais contratempos de curto prazo. Em última análise, serão necessários maiores esforços para garantir que o momento recente não seja apenas preservado, mas acelerado para alcançar as metas ambiciosas necessárias.

Mirian Gasparin

Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná.Profissional com experiência de 52 anos na área de jornalismo, sendo 50 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social.Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Há 25 anos é professora titular do curso de Jornalismo da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas do Paraná, São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos.Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 19 anos de blog, mais de 50 mil matérias foram postadas.Ao longo de sua carreira recebeu 21 prêmios, com destaque para Embrapa Floresta (Menção Honrosa em 2025); VII Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º e 3º lugar na categoria webjornalismo em 2023); Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005).Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.

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