Gerência da tríplice crise e desgaste de Bolsonaro
Os indicadores econômicos quantitativos e qualitativos, correntes e antecedentes, disponíveis para os meses de abril e maio de 2020, permitem a avaliação dos enormes estragos ocasionados pela gestão de entrada, avanço e disseminação heterogênea da pandemia de Covid-19 no território brasileiro e o delineamento de perspectivas pouco amimadoras.
Pesquisa da Confederação Nacional da Indústria (CNI) apurou queda de -4,8%, -1,8% e -0,7%, respectivamente, no faturamento real, nas horas tralhadas e no emprego do setor, em abril de 2020, em confronto com março que, por sinal, já havia exibido resultados ruins, afetados por menos de duas semanas de quase completa parada das atividades econômicas, em razão de medidas de isolamento e distanciamento social, definidas ou estimuladas pelo Ministério da Saúde e adotadas por praticamente todos os governadores e vários prefeitos, no afã de amenização da curva de evolução exponencial da contaminação pelo vírus.
Enquanto isso, a arrecadação federal encolheu -28,95%, em abril, a pior performance em quatorze anos, e -3,2% no quadrimestre, em consequência do panorama depressivo, incluindo autorização oficial de atraso no pagamento ou postergação de recolhimento de alguns tributos, além da redução do imposto sobre operações financeiras (IOF).
Outra investigação da CNI aponta que o índice de variação da utilização da capacidade instalada industrial – que oscila entre zero e cem pontos, tendo nos cinquenta pontos a linha divisória entre crescimento e queda – recuou de 68 pontos, em fevereiro, para 58 pontos, em março, e 49 pontos, em abril, o que representa o menor nível da série histórica de levantamentos.
Diga-se de passagem, que, na falta de formulação e execução da tão esperada estratégia de abertura, modernização e recuperação industrial, prometida pelo presidente Bolsonaro, por ocasião dos episódios de convencimento dos empresários, no ciclo eleitoral de 2018, o segmento fabril manteve a trajetória de definhamento, iniciada logo após o pleito, contabilizando seis trimestres seguidos de retração de produção, até março de 2020.
No terreno das expectativas, o índice de confiança empresarial, estimado por meio de inquérito realizado pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), desceu de 99 pontos, em fevereiro, para 90,3 pontos, em março, e 57,5 pontos, em abril, igualmente o menor patamar já constatado pela consulta, aplicada em mais de 3.600 empresas da indústria, comércio, serviços e construção, o que oportuniza prospectar um clima de larga descrença corporativa.
De seu turno, o índice de confiança do empresário industrial, calculado pela CNI, com difusão entre zero e cem pontos, declinou de 65,3 pontos, em janeiro, para 64,8 pontos, em fevereiro, quando ingressou em rota cadente, chegando ao vale histórico de 34,5 pontos e 34,7 pontos, em abril e maio de 2020, respectivamente.
Outra sondagem da CNI constatou que a indústria construção funcionava, em março deste ano, com apenas 25,5% do potencial efetivo de produção e ocupava 52% da capacidade operacional, em face da combinação entre contração de demanda e deterioração das condições financeiras.
Com isso, a confiança dos empresários do ramo decresceu para 34,8 pontos (faixa entre zero e cem), suplantando, em graduação da mistura de apatia com pânico, o então recorde observado em meados de 2016 (35,5 pontos), época de implantação do rito e instauração do processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff.
O mais gritante, porém, é que a condução instável, descoordenada e desprovida de comando, da grave crise sanitária, econômica e social, introduzida pelo vírus, vem gerando preocupante fragilização da popularidade do governo, que demonstra empenho na intensificação de posturas de negação da gravidade da pandemia, em contraposição aos argumentos da comunidade científica internacional e doméstica, e na promoção de incontáveis atritos com imprensa e governadores, além da efetivação de apologia e/ou manifestação de apoio a movimentos e atos organizados em favor da ruptura, ou ao menos abalo, das instituições democráticas.
Não por acaso, o chefe de estado vem convivendo com contínuo e apreciável desgaste popular. De acordo com pesquisa de opinião, efetuada pela XP Ipespe, a aprovação da administração Bolsonaro, obtida pela soma dos conceitos ótimo e bom, caiu de 40%, no começo do mandato, para 30% no aparecimento do surto de Coronavírus, para 25%, em 20 de maio de 2020.
Em contrapartida, o contingente que reprova as condutas palacianas (qualificação péssima e ruim) subiu de 17%, em fevereiro de 2019, para 36%, quando da identificação dos primeiros casos de contágio por aqui, e para 50%, em maio, o que traduz a nota conferida pela sociedade ao comportamento prepotente, andarilho, perdido e insensível do presidente.
É curioso notar que, ao indagar os entrevistados a respeito da responsabilidade direta pela crise econômica atual, a XP verificou que 9% deles mencionaram o ex-presidente Temer, 12%, lembraram Dilma, 14% apontaram os fatores externos (doença e depressão econômica), 23% cravaram Bolsonaro, e 25% destacaram a obra de Lula, ainda bastante presente na memória da população, embora na percepção negativa.
O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço, que é economista, consultor, foi diretor presidente do IPARDES entre 2011 e 2014.








