Sucessão deve ser encarada como processo natural na gestão de empresas familiares

A Escola de Gestão da Indústria, do Sistema Fiep, abriu nesta sexta-feira (25) a primeira turma do curso de Governança e Sucessão para Empresas de Controle Familiar. Realizado em parceria com a Fundação Instituto de Administração (FIA), ligada à Universidade de São Paulo, e com a empresa de consultoria SBA Associados, a capacitação é voltada para industriais e seus herdeiros, com o objetivo de debater os desafios do processo de transição de comando em organizações familiares. Para especialistas que ministram o primeiro módulo do curso, o assunto ainda é tratado como uma espécie de tabu, mas deveria ser item obrigatório na gestão das empresas.
O presidente do Sistema Fiep, Edson Campagnolo, que abriu oficialmente a programação, afirmou que a ideia do curso surgiu da preocupação de empresários integrantes da diretoria da entidade e de presidentes de sindicatos industriais em relação à sucessão em suas empresas. “As empresas familiares são aproximadamente 90% das empresas brasileiras e, na grande maioria delas, não existe nenhum processo para preparar a sucessão”, disse. “Por isso a Escola de Gestão buscou parceiros com experiência no tema e oferece agora esse curso às indústrias do Paraná. Na questão da sucessão não existe uma receita de sucesso que possa valer para todas as empresas, mas podemos aprender com inúmeros cases bem ou mal sucedidos que serão apresentados ao longo do curso”, acrescentou.
O curso de Governança e Sucessão para Empresas de Controle Familiar é dividido em seis módulos e terá carga horária total de 80 horas. Nos módulos, serão abordados temas como a importância da governança para as empresas de controle familiar; o processo sucessório, envolvendo a mediação de conflitos, o preparo dos herdeiros e relações interpessoais; a gestão financeira das empresas; a importância do planejamento estratégico em empresas familiares; Direito Societário; e gestão tributária e contábil. Ao final do curso, previsto para agosto, será realizado ainda um workshop.
A primeira turma foi aberta para integrantes da diretoria da Fiep e seus familiares. Mas, segundo o presidente da entidade, novas turmas serão abertas posteriormente para atender o maior número possível de indústrias paranaenses. “O Sistema Fiep está disposto a investir recursos para que empresas do Paraná se perpetuem e continuem gerando riqueza, renda e esperança para as pessoas”, declarou.
A aula inaugural do curso foi marcada por uma palestra do fundador e presidente do Conselho Deliberativo do Instituto Ethos, Sérgio Mindlin, que é engenheiro, mestre em psicologia social e doutor em administração. Entre 1993 e 1996, Mindlin presidiu a Metal Leve, indústria de componentes automotivos que teve seu pai, o advogado José Mindlin, como um dos seis fundadores. Criada em 1950, a empresa passou por um forte processo de expansão até o início dos anos 1990, quando chegou a ter 7 mil colaboradores em quatro unidades no Brasil e três nos Estados Unidos, além de dois centros de pesquisa tecnológica. Nessa época, a empresa passou por sérias dificuldades devido à abertura de mercado implantada pelo governo Fernando Collor.
Também começaram a surgir divergências na gestão da companhia, que já contava com a presença de herdeiros dos fundadores em cargos executivos ou no conselho administrativo. “A Metal Leve foi uma empresa inovadora e aguerrida mas, em 1996, fundadores e herdeiros chegaram à conclusão de que não dava para continuar e a venderam para um grupo alemão”, contou Mindlin. Para ele, a falta de uma política clara de sucessão envolvendo as famílias dos fundadores pesou para o destino da Metal Leve. “A cultura de preparar a sucessão familiar, com uma discussão aberta sobre o tema, não aconteceu na Metal Leve. Dentro de cada família podia haver conversas, mas não havia um processo estruturado, que explicasse a diferença entre o papel de sócio e de gestor. Em uma análise de quase 20 anos depois, foi o que impediu que as famílias continuassem como sócias”, declarou.
Para Sérgio Mindlin, o curso lançado pela Escola de Gestão da Indústria, FIA e SBA Associados é uma boa oportunidade para que as empresas coloquem a questão da sucessão familiar em sua pauta. “As empresas precisam tratar claramente as questões de comando, como se compõe um conselho de administração, a necessidade de ter conselheiros independentes que tragam visão de fora, não familiar, a preparação de sucessão e de carreiras familiares. Esse deve ser um processo natural e que funciona, desde que tratado objetivamente”, disse.
O professor doutor Cláudio Antonio Pinheiro Machado Filho, da FIA, que ministra até este sábado (26) o primeiro módulo do curso, concorda com Mindlin sobre a dificuldade que as empresas familiares têm para encarar seriamente a questão da sucessão. “Muitas vezes este tema é um tabu e as pessoas envolvidas até evitam abordá-lo para não criar constrangimentos familiares. Mas o processo sucessório deveria ser tratado como um ponto natural da gestão das empresas de controle familiar”, afirmou. “A sucessão é o tipo de tema que não é urgência urgentíssima das empresas, que talvez tenham outras prioridades, mas é um tema gravíssimo. É de nossa natureza que a gente vá postergando essas questões. Por isso, o primeiro desafio é parar para refletir, ter a oportunidade de imersão e de troca de experiências. É isso que teremos neste curso”, completou.
Crédito da foto: Mauro Frasson/Fiep








