O que esperar do mercado para 2015?
Um ano de incertezas. Com essa sensação o último mês de 2014 se inicia. O cenário político preocupou muitos investidores e o índice Bovespa ao final de novembro andou próximo à poupança, com 6,1%. No mesmo período, as carteiras das corretoras Ágora e Bradesco atingiram os dois dígitos: a arrojada liderando, com 19% de alta; seguida pela carteira de dividendos, com 17,5%; e pela TOP 10, com 10,4%.
De olho em 2015, o economista Aloísio Lemos esteve esta semana em Curitiba a convite da TORO Investimentos para a palestra “Cenário Econômico e Perspectivas para 2015”. Pós-graduado em Engenharia Econômica pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), com 20 anos de experiência em importantes instituições financeiras no estado de São Paulo, Lemos desde 2008 é estrategista nas Corretoras Ágora e Bradesco, parceiras da TORO Investimentos.
Relembrando fala do iatista Torben Grael, Lemos abriu o evento destacando: “o pessimista está sempre reclamando do vento. O otimista está sempre achando que o vento vai virar, mesmo que não haja nenhum indicativo de que isso irá acontecer. E o realista ajusta as velas.” Para o estrategista, o quadro que se apresenta não só para 2015, mas para os próximos 3 anos é desafiador, tanto para o Brasil quanto para o mundo. E mesmo assim houve esse ano – e certamente haverá nos próximos dois – empresas performando bem. “Nosso papel é encontrá-las”, explica o estrategista.
Para isso, confira a seguir a visão macroeconômica da Ágora e da Bradesco, seguindo pelos setores e empresas que estão no radar das corretoras para o próximo ano.
Os últimos dados divulgados pela Alemanha levaram uma parte mais pessimista do mercado a falar em nova recessão. Lemos discorda. Ele destaca que a situação na Europa ainda não está equilibrada, mas observa sinais de que o banco central europeu possa promover estímulos semelhantes ao que os EUA realizaram recentemente. Caminho semelhante sinalizam China e Japão.
Para os Estados Unidos, em contrapartida, o mercado já aposta na redução dos estímulos, com a melhora nos indicadores, em especial nos índices de emprego e de consumo, comprovada pelo livro bege divulgado esta semana. O mercado, que a tudo costuma antecipar, já apresenta movimentos esperando essa diminuição dos estímulos.
Para 2015, duas claras tendências já aparecem: dólar e juros em alta. Como este costuma ser um cenário mais desanimador para a bolsa de valores, mesmo quem tem alta tolerância a risco não deve focar 100% em ação. Há boas opções em renda fixa, como as Letras de Crédito Imobiliário (LCI), as Letras de Crédito Agronegócio (LCA) e alguns títulos públicos. A orientação é diversificar os investimentos.
Uma maior pressão da inflação também está sendo aguardada no Brasil para o ano que vem. A escolha por Joaquim Levy e Nelson Barbosa para compor a equipe econômica, “dois ortodoxos adeptos de instrumentos clássicos da política monetária”, conforme enfatiza Lemos, animou o mercado, mas sinaliza maior austeridade fiscal. “A curto prazo, a palavra-chave será credibilidade.
Esperamos medidas acertadas, mas duras. Não haverá moleza para os próximos 3 anos”, acredita o estrategista.
A estimativa da área macroeconômica de Ágora/Bradesco é de 0,1% de crescimento para 2014 e de 0,5% para 2015. Já para a taxa Selic, a expectativa atual é de 12,5% – e Aloísio Lemos já antecipa que a considera superconservadora.
Se o momento pede investimentos em renda fixa, tampouco se faz necessário zerar as posições em renda variável. Convém destacar que embora seja o principal índice da bolsa brasileira, o Ibovespa não representa a totalidade do mercado acionário no Brasil. Há ativos interessantes que pouco influenciam o índice e até mesmo não compõem o Ibovespa.
Hoje Petrobras e Vale têm peso muito grande no índice e ambas não vivem bom momento. Suas principais commodities estão derretendo. O petróleo apresenta 35% de queda no ano, enquanto o minério de ferro ultrapassa 40% de baixa. Enquanto Vale sofre por situações conjunturais do mercado, Petrobras tem ainda o agravante dos escândalos de corrupção envolvendo a empresa. E mesmo assim o índice Bovespa está operando no positivo. Ou seja, tem empresas mais do que compensando tais baixas.
Maior exportadora do país, a Vale envia próximo a 50% de seu principal produto, o minério de ferro, para a China. “Por isso, não precisa nem dizer o peso que os dados divulgados por este país têm para as ações dela e, por consequência, para os dados do Ibovespa”, afirma Lemos. E embora a China continue apresentando robusto crescimento, a desaceleração desse crescimento preocupa.
“A China se endividou muito, está alavancada. A relação crédito/PIB saiu de 130% em 2008, para os atuais 207%”, explica Lemos. Para se ter uma ideia da importância chinesa, convém destacar que a Vale produz atualmente 320 milhões de toneladas de minério de ferro por ano. Maior consumidora da commodity no mundo, a China consome, no mesmo período, 700 milhões de toneladas. Motivos que fazem cada dado chinês repercutir imediatamente nas ações da mineradora brasileira.
De olho em grandes oportunidades, há sempre investidores querendo comprar empresas que caíram fortemente apostando que elas irão reverter a queda. E a bola da vez está sendo a Petrobras, que acumula mais de 20% de baixa no ano. “Não tente buscar o fundo do poço, ele é muito difícil de acertar”, enfatiza Lemos. Ao invés disso, ele aconselha analisar e só comprar empresas com bons fundamentos, ou seja, cujos indicadores mostram possibilidades reais de melhora. O que não é o caso dessa companhia no curto prazo.
Outro setor que vem sofrendo e não tem perspectiva de melhora a curto prazo é o de siderurgia. A situação fica ainda pior para a Usiminas, que além de números complicados ainda vive momento tenso, por conta de desentendimento entre os controladores.
O setor de educação, em contrapartida, vai muito bem, obrigado. Alguns papéis do segmento já estão um pouco esticados, mas o setor performou bem esse ano e ainda anima para 2015.


