O enfraquecimento da economia no interior

Gilmar Mendes Lourenço.
Gilmar Mendes Lourenço.

Indiscutivelmente, o Brasil está muito bem servido de estatísticas relativas ao acompanhamento da evolução do mercado de trabalho. As abrangentes investigações domiciliares, feitas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e pela Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados (Seade), em parceria com o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), propiciam visões gerais e regionalizadas do curso das variáveis determinantes da dinâmica do panorama de ocupações nacional.

No caso do IBGE, o pulso da utilização de mão de obra é medido em duas frentes. A primeira, mais recente, que inclusive compensa a natureza de parcialidade regional contida nos esforços das demais pesquisas, corresponde à Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) Contínua – aquela mesma que os senadores Armando Monteiro Neto e Gleisi Hoffmann tentaram retardar o começo da divulgação, em 2014, por razões pouco convincentes -, de periodicidade mensal. Dela originam-se dados de desemprego e rendimento médio real (deduzida a inflação) do trabalho, retroativos a 2012 e fruto de coletas mensais em 211.344 domicílios particulares permanentes, em 16 mil localidades de 3.500 municípios, incluindo 20 regiões metropolitanas (Rms) e todas as capitais.

A segunda incursão, mais antiga, efetuada desde 1980, é representada pela Pesquisa Mensal de Emprego (PME), que mensura remunerações reais dos empregados e desemprego aberto (30 dias de procura, para população com mais de dez anos) em seis espaços metropolitanos (São Paulo, Rio de Janeiro, Recife, Salvador, Belo Horizonte e Porto Alegre).

A Pesquisa de Emprego e Desemprego (PED), levada a cabo pela Seade/Dieese, desde 1985, na região metropolitana de São Paulo, municípios do ABC paulista, em mais cinco áreas metropolitanas (Belo Horizonte, Fortaleza, Porto Alegre, Recife e Salvador) e Distrito Federal, apura, dentre outros itens, a renda média real do contingente empregado e o desemprego aberto, representado pelas pessoas desocupadas, com mais de 10 anos de idade, que buscaram trabalho nos trinta dias que antecederam o inquérito, além da desocupação oculta, caracterizada pelo exercício de função precária (bico) ou por desalento (desistência da ação de busca por trabalho).

Vale alertar que a determinação dos agregados para o conjunto das Rms ficou praticamente inviabilizada, a partir do segundo semestre de 2014, por conta da descontinuidade do levantamento das informações primárias para o DF e a área de Belo Horizonte.

Há também os registros administrativos do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), obtidos por meio de informações diretas, fornecidas pelas empresas, por determinação legal, que permitem avaliar a curva do emprego com carteira assinada, para o total do País, estados e algumas Rms, com desagregação setorial.

Um exame atento dos indicadores recentes possibilita apreender, pela PNAD Contínua, a subida do desemprego de 6,5% da população economicamente ativa (PEA), no último trimestre de 2014, para 8,1% da PEA, no trimestre compreendido entre março e maio de 2015. Embora tenha permanecido estável, na mesma base de cotejo, a remuneração média do trabalho declinou -0,7%, entre janeiro-março e março-maio de 2015, passando de R$ 1.877/mês para R$ 1.863/mês.

Na mesma linha, a Pesquisa Mensal de Emprego (PME), também do IBGE, captura, na média dos redutos metropolitanos de Salvador, Recife, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, São Paulo e Porto Alegre, uma trajetória de impulsão do desemprego e queda dos rendimentos. A taxa de desocupação saltou de 4,8% da PEA, em 2014, para 6,1% da PEA, entre janeiro e junho de 2015. Enquanto isso, a renda real do pessoal ocupado, ao atingir 2.149,00, em junho de 2015, expõe decréscimo de -2,9% frente ao mesmo mês de 2014.

Considerando que a PNAD Contínua possui envergadura nacional e a PME reflete parte da dinâmica metropolitana, o confronto entre os resultados de ambas oportuniza a formulação da pressuposição de que o quadro de instabilidade, vivido presentemente pela economia nacional, vem atingindo de maneira mais contundente as bases econômicas operantes no interior do País, fenômeno reproduzido em desemprego maior e renda menor.

Por certo, a rota cadente do ciclo de negócios é generalizada, praticamente não poupando ramos de atividades ou localidades. Aliás, é interessante assinalar que estágios de instabilidade do capitalismo reservam reduzidas frações para o funcionamento de “ilhas de prosperidade” em meio a fortes tempestades oceânicas.

Nessa perspectiva, a metrópole vem acusando, de maneira direta, a perda de embalo dos eixos de crescimento, sustentados no consumo privado e movidos à disponibilidade de crédito, geração de empregos com registro em carteira e acréscimo da massa de salários, esta referenciada aos ganhos reais do salário mínimo.

Prova disso é o fechamento líquido de 345,4 mil postos de trabalho formais, nas nove Rms (Belém, Fortaleza, Recife, Salvador, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, São Paulo, Curitiba e Porto Alegre), observadas pelo Caged, no primeiro semestre de 2015, equivalendo a 84,0% dos desligamentos líquidos experimentados pela nação. Os segmentos mais afetados pela radical reversão da direção de pleno emprego, verificada a partir do segundo trimestre de 2014, foram fabricação de bens de capital e de consumo duráveis, construção civil, comércio e serviços.

De seu turno, os centros econômicos mais afastados da atmosfera metropolitana também sentiram a rápida conformação e intensificação dessas condições adversas, agravadas por dois grupos de elementos específicos, sintetizados na diminuição da corrente de renda da cadeia produtiva articulada ao agronegócio e na retração dos investimentos, notadamente em infraestrutura.

A performance menos animadora do complexo rural, apesar do acréscimo de 6,7% do volume de produção das lavouras temporárias e permanentes, projetado pelo IBGE para 2015, pode ser imputada essencialmente ao recuo das cotações internacionais das commodities agrícolas, estimado em -16%, em relação a 2014, pelo Deagro, da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), com as diminuições mais acentuadas experimentadas por soja (-22,2%), trigo (-16,4%) e milho (-10,0%).

A par disso, a compressão do vetor infraestrutural está intimamente atrelada ao expressivo decréscimo das obras destinadas à ampliação da capacidade e melhoria da eficiência da oferta de energia, comunicações, armazenagem e logística de transportes, subordinadas, em grande medida, às iniciativas e disponibilidade de verbas do setor público e de uma teia de construtoras e empreiteiras a ele vinculada, envolvida em incontáveis episódios de corrupção, em criteriosa apuração pela Polícia Federal e outras instâncias institucionais. Sem contar os efeitos da ingerência governamental no setor elétrico e a interferência negativa do ajuste recessivo, em implementação pelo Ministério da Fazenda.

O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço, Economista, Professor e Editor da Revista Vitrine da Conjuntura da FAE Business School.

Mirian Gasparin

Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná. Profissional com experiência de 50 anos na área de jornalismo, sendo 48 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social. Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Também é professora titular nos cursos de Jornalismo e Ciências Contábeis da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas paranaenses, de São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos. Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 16 anos de blog, mais de 35 mil matérias foram postadas. Ao longo de sua carreira recebeu 20 prêmios, com destaque para o VII Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º e 3º lugar na categoria webjornalismo em 2023); Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005). Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.

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