O inferno de Michel Temer

Gilmar Mendes Lourenço.

Com a denúncia encaminhada pelo Procurador-Geral da República, Rodrigo Janot, ao Congresso Nacional, em 27 de junho de 2017, baseada nos diálogos gravados pelo bandido, e empresário nas horas vagas, Joesley Batista, Michel Temer, transformou-se no primeiro chefe de estado da história brasileira a ser acusado formalmente por corrupção passiva durante o exercício do mandato.

Porém, em caráter de antecipação, a sociedade abdicou de justificativas, requisitos e trâmites judiciais para determinar a condenação do mandatário, atestada por pesquisa do Datafolha, divulgada em 24 de junho de 2017. A sondagem identificou uma trincheira de defensores da renúncia de Temer, formada por 76% dos brasileiros consultados, com 83% enxergando a participação direta do presidente em marchas de corrupção.

O mesmo inquérito mostrou que apenas 7% das pessoas atribuem os conceitos bom e ótimo, referências de aprovação, à sua gestão, contra 14% em julho de 2016, o que representa a menor popularidade de um chefe do País desde setembro de 1989. Naquela época, as tentativas frustradas, capitaneadas por José Sarney, de abrandar o descrédito político e combater a hiperinflação inercial indexada de quase 40% ao mês, renderam-lhe popularidade de 5%.

Na verdade, desde as manifestações acontecidas em junho de 2013, é fácil notar a acentuação da disparidade entre os anseios e interesses da população – demandas por maior transparência decisória e na gestão dos recursos provenientes da arrecadação de impostos, taxas e contribuições – e a postura, normalmente negligente e cínica, das instituições públicas, hospedadas nos poderes constituídos, com raras e louváveis exceções, o que demonstra o apodrecimento das conexões entre representantes e representados.

Não por acaso, 64% das pessoas ouvidas pelo Datafolha reprovam o comportamento generoso da PGR, nos acertos de delação do dirigente do grupo JBS, e 81% advogam a prisão do meliante. Mais que isso, 47% afirmam estar mais envergonhados do que orgulhosos da condição de brasileiros, a maior frequência constatada desde 2000, quando o quesito foi incorporado ao elenco de perguntas das entrevistas.

Por certo, há chances de Temer resistir e sobreviver à inédita investida do ministério público, particularmente se conseguir preservar o apoio da câmara dos deputados e do senado, dominadas por uma espécie de banda podre, detentora de múltiplos envolvimentos, diretos e indiretos, em eventos de corrupção. A derrubada das incursões de retirada do comandante do poder executivo, ou ao menos O engavetamento ou a morosidade na tramitação dos expedientes de retirada, depende, crucialmente, do controle dos votos da base aliada, indefinida quanto ao quadro sucessório de 2018, e do arrefecimento dos protestos populares.

No entanto, como a capacidade de resistência de um governo (se é que ele existe) destituído de sustentação social é diminuta, pode vir a ocasionar novos danos ao cambaleante sistema econômico – que, por sinal, começava a emitir sinais de incipiente recuperação – e reproduzir situações vividas nos períodos Collor e Dilma, objetos de ações de impedimento legal.

É interessante sublinhar que o espetáculo de imbróglio político, institucional, moral, econômico e social não constitui peça recente. A instabilidade possui raízes nos primórdios dos anos 2000, quando o time comandado por Lula promoveu o aparelhamento partidário do governo federal e adjacências e o aprofundamento da privatização, às avessas, do orçamento da união e do fluxo de caixa das principais companhias estatais.

Dilma e Temer integravam o banco de reservas na maioria das partidas dos diversos campeonatos de jogos ilícitos. A queda de Dilma, ensejada primordialmente pela negação de apoio a Eduardo Cunha, presidente da câmara dos deputados, no conselho de ética daquela casa, abriu flancos para Temer pavimentar um caminho independente de seus mentores e tentar viabilizar a aplicação do programa “Ponte para o Futuro”, registrado pelo PMDB, em outubro de 2015, considerado pelos mais críticos apenas uma pinguela eleitoral.

Mais precisamente, a travessia para 2019 repousaria no convencimento dos atores sociais a respeito da natureza imprescindível da criação de circunstâncias favoráveis à restauração dos pilares capazes de edificar um ciclo econômico virtuoso, amparadas na adoção de uma orientação macroeconômica conservadora e previsível, suficiente para engendrar a reversão dos crescentes desequilíbrios das contas públicas, a contenção das pressões inflacionárias e o declínio dos juros.

A aprovação da proposta de emenda constitucional de fixação de teto para a variação dos gastos primários da união, atrelado à inflação, o avanço das reformas estruturais no legislativo, o choque de alimentos e a intensificação da recessão oportunizaram o abrandamento da vulnerabilidade externa, a repressão dos focos inflacionários, a diminuição dos juros e a gradativa recuperação da confiança.

A obra desmoronou com o episódio Joesley, em 17 de maio de 2017. Desde então, aquele que, em pouco mais de um ano, por ocasião da cerimônia de posse no cargo de presidente da república, explicitou a intenção e missão de pacificar e unificar a nação constitui o cerne das incertezas e a unanimidade por desocupação do palácio do planalto.

O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço, que é economista, consultor, professor da FAE Business School, ex-presidente do IPARDES.

Mirian Gasparin

Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná. Profissional com experiência de 50 anos na área de jornalismo, sendo 48 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social. Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Também é professora titular nos cursos de Jornalismo e Ciências Contábeis da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas paranaenses, de São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos. Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 16 anos de blog, mais de 35 mil matérias foram postadas. Ao longo de sua carreira recebeu 20 prêmios, com destaque para o VII Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º e 3º lugar na categoria webjornalismo em 2023); Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005). Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.

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