Polarização e voto útil
Dentre as várias expressões elitistas empregadas pela ciência política, pelo menos duas, intimamente ligadas, que vinham marcando e delineando o processo de sucessão presidencial brasileiro, esboçaram um curso de intensificação nos últimos dias. São elas a polarização e o voto útil. Mais precisamente, a progressiva evolução do candidato Jair Bolsonaro (PSL) e a disparada de Fernando Haddad (PT) – logo depois do anúncio oficial da mudança da condição de vice para titular da chapa, em substituição à Lula – nas sondagens de intenção de voto popular, conduziram a contenda para áreas populistas diametralmente opostas e enfraqueceram as alternativas colocadas ao centro do palco de arregimentação de votos.
De um lado conformou-se a vertente avaliada autoritária, inexperiente e despreparada, localizada na extrema direita e, de outro, perfilou-se o bloco conhecido como de esquerda, que fora atingido em cheio pelo impedimento da ex-presidente Dilma e a prisão de Lula, eventos que, de acordo com a hipótese capitaneada pelas principias peças políticas e os intelectuais orgânicos da corrente, resultariam de um “golpe de estado”, desferido em maio de 2016, sob o patrocínio do congresso nacional.
Ainda que a trajetória política de Haddad tenha exprimido perfil e comportamento mais moderado, o postulante petista encontra-se completamente afetado e/ou influenciado pelo não fechamento das feridas abertas, no front daquele partido, pelos episódios do mensalão e petrolão que, dentre outros embaraços, provocaram enormes estragos na gestão dos orçamentos públicos e no fluxo de caixa das companhias estatais.
Não obstante, as pesquisas demonstram a aceitação coletiva da supressão do diálogo e moldagem do embate nos termos “nós contra eles”. Isso porque se há três meses cerca de 1/3 do eleitorado manifestava o desejo de votar em branco ou nulo, em confronto de segundo turno travado entre o então reserva de Lula e Bolsonaro, presentemente a omissão teria declinado para 17,0%, o que demonstra que metade dos insatisfeitos teria feito a opção pela hospedagem em uma das duas bordas.
A produção de tal quadro pode ser imputada ao fracionamento, em duas grandes porções, dos interesses e aspirações sociais em ambiente de consolidação democrática, evidenciados pela valorização e esperança de regresso da multiplicação das iniciativas oficiais de transferência de renda, da época de Lula, e na crença da arregimentação e otimização das forças de sufoco da corrupção e da malversação de recursos públicos e das mazelas decorrentes, especialmente o alargamento da desordem.
Porém, não se deve perder de vista a interferência do aprofundamento do repúdio a (ou descrença em) retóricas e propostas conciliadoras e convergentes, formuladas e apresentadas insistentemente por uma espécie de terceira via, começando com a montagem de situações com João Dória (PSDB) e Luciano Huck, passando pelo namoro, mesmo raivoso e destemperado, com Ciro Gomes (PDT) e chegando a constituição de um elenco com velhas siglas que confeririam envergadura política e apreciável tempo de propaganda eleitoral gratuita ao presidenciável Geraldo Alckmin (PSDB).
Nas circunstâncias atuais, parece cada vez menos provável que a população votante venha a adotar posturas amparadas na escolha útil, centradas na abdicação da preferência e alinhamento ideológico original, em favor daquela com capacidade de derrubar a alternativa rotulada como “mal maior”.
Isso significa que a transferência de votos de Haddad para Ciro, no caso das esquerdas, notadamente na região nordeste, inclusive em detrimento da autenticidade de Marina Silva (Rede), e a migração dos eleitores de centro e direita, comprometidos com Álvaro Dias (Podemos) e Henrique Meirelles (MDB), na direção de Alckmin, afigura-se cada vez menos factível. A conferir.
O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço, que é economista, consultor, professor da FAE Business School e ex-diretor presidente do IPARDES.


