Novo Pibão e miopia de curto prazo

Novo Pibão e miopia de curto prazo
Gilmar Mendes Lourenço.

Cálculos do Sistema de Contas Nacionais Trimestrais (SCNT), do IBGE, denotam expansão de 1,1% do produto interno bruto (PIB) brasileiro, no primeiro trimestre de 2026, em confronto com o intervalo de tempo compreendido entre outubro e dezembro de 2025, quando experimentou ampliação de 0,3%.

Ao exibir o 6º maior crescimento em um ranking das quarenta e cinco (45) mais importantes economias do planeta, acompanhado pela Austin Rating, atrás de Hong Kong (2,9%), Taiwan (2,8%), Dinamarca (1,9%), Coreia do Sul (1,7%) e China (1,3%), o Brasil retornou ao top 10 do mundo em geração de renda, depois de ter figurado no 11º posto, em 2025, pela metodologia do Fundo Monetário Internacional (FMI).

Esse resultado precipitou o aparecimento de não poucas interpretações eufóricas, manifestadas por integrantes da comunidade especializada e do governo Lula 3, que enxergaram a retomada de vigor da produção e negócios, ou ao menos a amenização do panorama de desaceleração, vivenciado desde o segundo com delta de 0,3%, e o terceiro trimestre (0,1%), do ano passado.

No entanto, parece recomendável a utilização de doses redobradas de prudência no exame dos sinais favoráveis sob pena de confundi-los com a formação de um processo de eliminação do cenário de estagnação cíclica, que vem marcando o ambiente econômico, em razão de circunstâncias negativas vindas de fora ou fabricadas internamente.

De fato, observa-se que, pela ótica setorial, o acréscimo foi puxado pela agropecuária (2,0%) – influenciada pela safra recorde de soja e o satisfatório desempenho da pecuária, apesar da retração da quantidade produzida de milho e arroz – e indústria (1,0%), sendo que os serviços cresceram apenas 0,5%, como reflexo da menor intensidade das transações.

A diminuição do embalo dos serviços, mesmo diante da continuidade da vitalidade do mercado de ocupações (com emprego e rendimentos contabilizando patamares recordes, ainda que com quase 40% de informalidade), deriva notadamente do salto no endividamento e inadimplência das famílias, fruto da asfixia orçamentária provocada pelos juros elevados.

Já a performance industrial foi sustentada pela classe extrativa (3,6%), particularmente petróleo e gás, e construção (2,9%), esta última fortemente ligada ao adensamento das operações de financiamento do programa habitacional Minha Casa Minha Vida, enquanto que o segmento nobre de transformação variou apenas 0,1%.

No que se refere à transformação, vislumbram-se possibilidades concretas de reação, ao longo do restante do ano, em função dos incentivos financeiros do Programa BNDES Move Brasil, dirigidos à renovação da frota de caminhões, táxis e veículos de aplicativos.

Na divisão de serviços, os destaques couberam a informação e comunicação (2,4%), atividades imobiliárias (1,2%), outras atividades (0,8%) e comércio (0,6%), o que compensaram, em parte, o encolhimento de transportes (-0,7%) e atividades financeiras (-0,6%),

Na aferição pelo ângulo da demanda agregada, constatou-se incremento dos gastos do governo (0,4%), consumo das famílias (1,0%), formação bruta de capital fixo (FBCF, 3,5%) e importações (4,4%), com recuo de -1,7% nas exportações, em consequência da guerra no Oriente Médio.

A praticamente interrupção dos fluxos comerciais pelo Estreito de Ormuz, responsável pela passagem de fração expressiva de petróleo, fertilizantes e outros insumos e componentes de inúmeras cadeias produtivas mundiais, foi a grande responsável pela redução do empuxe das vendas externas.

A combinação virtuosa entre aumento de importações e FBCF, incorporando a construção civil, revelou-se insuficiente para alavancar a taxa de investimento, que ficou em 16,5% do PIB, contra 17,6% do PIB, em igual período de 2025, em decorrência da exacerbação das incertezas geopolíticas globais, da instabilidade institucional doméstica e da perversa conjuntura de juros draconianos.

Tanto é assim que sondagem realizada pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) verificou, em maio de 2026, inversão da tendência ascendente do confiança do empresário do comércio, contabilizada desde novembro de 2025.

Na mesma linha, os índices de confiança e de expectativas dos empresários industriais, mensurados pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), permaneceram, em maio de 2026, abaixo da linha considerada de satisfação com o momento atual e otimismo com o futuro.

Ademais, as desculpas para as celebrações com os números do PIB enfraquecem quando apurada a subida de apenas 2,0% no indicador acumulado em doze meses, grandemente influenciado pela impulsão sazonal de 7,5% da agropecuária, com evolução de somente 1,3% na indústria (sendo 11,5%, na extrativa, e -0,9%, na transformação) e 1,8% em serviços, sugerindo o quase que inevitável desenho de estagnação dos níveis de atividade.

Portanto, a respiração do PIB trimestral repousa em elementos episódicos e efêmeros, caso da agropecuária, e nos impactos multiplicadores da dobradinha constituída por dispêndios públicos destinados à proteção social e gastos das famílias – também alavancados pela isenção do imposto de renda pessoa física para rendimentos mensais de até R$ 5 mil e o prosseguimento da política de valorização do salário mínimo – que, inclusive, estaria em regime de engorda fiscal para atendimento das demandas do calendário eleitoral.

Não por acidente, conforme pesquisa efetuada pela Nexus/BTG Pactual – junto a 2.045 pessoas com mais de 16 anos, entre 22 e 24 de maio de 2026, em 26 estados e no Distrito Federal – 49% da população entrevistada será afetada positivamente pelo novo Programa Desenrola, do governo federal, visando à regularização dos consumidores com renda mensal de até cinco salários mínimos, e 73% consideram correta a extinção da taxa das blusinhas.

Só que o prematuro diagnóstico de estado de saúde satisfatório do PIB pode estar ocultando a obscura agenda de componentes estruturais, ou de longa permanência, que, por sinal, tem sido solenemente ignorada pelas plataformas das principais candidaturas à presidência da república, avessas à edificação de diálogos, entendimentos e estabelecimento de consensos mínimos.

De qualquer forma, não obstante a vontade coletiva de construção de um estágio de avanço econômico mais balanceado e, preponderantemente, sincronizado, entre o fortalecimento da demanda interna e a inserção externa competitiva, vale a “celebração com discrição” do curso do PIB, no começo de 2026, principalmente com os patamares de juros nas alturas.

Isso porque, o suporte da ascensão da grandeza macroeconômica foi aquilo que os economistas categorizam como “absorção endógena”, composta pela ativação do mercado laboral, consumo das famílias, despesas governamentais e investimentos públicos e privados, o que é inegavelmente aceitável.

Enquanto o crescimento dos sonhos não chega, garimpando algumas pedras, ou pérolas, da economia política das eleições, nota-se, de um lado, que o empreendimento de reeleição carrega a preferência de desfraldar a bandeira do arranjo populista, focado na concessão de benesses à população vulnerável, partindo da equivocada premissa de infinitude dos recursos públicos.

De outro, apreende-se que as lideranças das oposições, acéfalas de proposições consistentes para o equacionamento das mazelas sociais, empunham a irresponsável e veemente defesa da administração da soberania nacional de fora para dentro, em uma espécie de patriotismo às avessas.

Adicionalmente, em flagrante ignorância a respeito da consolidação de uma nova geografia mundial, de padrão multipolar, os fingidos guardiões da pátria se arvoram em demonstrar rendição às vontades de dominação do atual chefe da Casa Branca, acrescentando, ao cardápio servil de ofertas e presentes, a incondicional exploração de minerais críticos e terras raras, o que transformaria o Brasil no quintal tanto esperado e desejado pelo Departamento de Estado dos EUA.

Paradoxalmente, em sendo portador de diminuta sensatez e, por extensão, reprovação popular recorde, o autocrata americano possui 90% de probabilidade de perder o comando da Câmara dos Deputados, no pleito deste ano, segundo a revista britânica The Economist.

Ambas as pretensões (preservação versus volta ao poder) no Brasil – tecnicamente empatadas nas pesquisas de intenções de voto, em uma comprovação de, no mínimo, complacência dos eleitores com a corrupção e a mentira – não incitam debates, ou até fogem deles “como o diabo da cruz”, de questões nevrálgicas e de longo prazo, como tamanho, solvência e eficiência do estado para enfrentamento do desafio de provisão de capital social básico, em um país com acentuada disparidade na apropriação da renda.

Também está fora do radar das alianças que reivindicam o poder a inadiável discussão sobre a bomba relógio previdenciária, com o aumento da longevidade, a necessidade de ampliação, modernização e diversificação da infraestrutura, a intensificação da transição energética e da descarbonização, e os esforços em direção ao salto científico e tecnológico, em fase com a quarta revolução industrial em andamento no mundo, amparada em maciças inversões em capital humano e inovação.

O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço, que é economista, consultor, Mestre em Engenharia da Produção, ex-presidente do Instituto Paranaense de Desenvolvimento econômico (Ipardes), ex-conselheiro da Copel e autor de vários livros de Economia.

Mirian Gasparin

Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná.Profissional com experiência de 50 anos na área de jornalismo, sendo 48 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social.Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Também é professora titular nos cursos de Jornalismo e Ciências Contábeis da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas paranaenses, de São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos.Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 16 anos de blog, mais de 35 mil matérias foram postadas.Ao longo de sua carreira recebeu 20 prêmios, com destaque para o VII Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º e 3º lugar na categoria webjornalismo em 2023); Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005).Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.

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