Tarifaço leva relação Brasil-EUA ao pior momento em 200 anos

Conta já chega a R$ 76 bilhões, segundo estudo da Ibevar-FIA Business School
Não é mais uma crise comercial mostram os dados da pesquisa Ibevar-FIA Business School. Depois da confirmação da nova rodada de tarifas americanas — 25% somados a mais 12,5% de sobretaxa por suspeita de trabalho forçado, num total de até 37,5% sobre parte da pauta exportadora —, diplomatas ouvidos pelo projeto Memórias da Diplomacia Brasileira classificam o momento atual como o mais grave da relação bilateral em mais de dois séculos, superando até a ruptura de 1977 entre Ernesto Geisel e Jimmy Carter. A diferença desta vez é que o termômetro não é só diplomático, é fiscal, setorial e regional, e já tem preço.
A conta setorial: US$ 11 bilhões, um quarto do crescimento do ano
Estima-se que US$ 11 bilhões em exportações brasileiras estão diretamente atingidos pela nova tarifa — o equivalente a 0,5 a 0,6 ponto percentual do PIB de 2026, ou R$ 76 bilhões retirados da atividade econômica. Com o mercado projetando crescimento de apenas 1,99% a 2,0% para o ano, o tarifaço sozinho compromete entre um quarto e um terço de todo o resultado esperado — a diferença entre o Brasil “crescer na média” ou “crescer capengando” em um particularmente difícil.
O setor madeireiro é o mais exposto do país: 83% de suas exportações estão na lista tarifada, à frente de minerais não-metálicos (56,3%), químicos (51,8%) e alimentos (38,1%). Calçados, têxteis, móveis e máquinas somam-se à lista dos mais afetados — sem falar na Embraer, que estima um custo adicional de R$ 50 milhões por avião vendido aos EUA, com impacto acumulado de R$ 20 bilhões até 2030.
Geografia da crise: dois estados concentram mais da metade do golpe
O tarifaço não bate igual em todo o território nacional. São Paulo e Santa Catarina concentram 52% de todo o impacto da tarifa mais recente — SP sozinho responde por US$ 3 bilhões, ou 41,6% do total afetado. Em termos relativos, porém, é Santa Catarina quem sofre mais: 68% de tudo que o estado exporta aos EUA está na lista tarifada. No Nordeste, o Ceará é o caso mais crítico de dependência — 96,5% de suas exportações ao mercado americano vêm da indústria, com o polo metalúrgico de Pecém respondendo sozinho por US$ 441,3 milhões em risco.
Diante do estrago, o governo federal ampliou o Plano Brasil Soberano, somando R$ 55 bilhões em linhas de crédito via BNDES (R$ 40 bilhões na primeira fase, mais R$ 15 bilhões na segunda, via MP 1.345/2026). A demanda das empresas, porém, já soma R$ 18,4 bilhões em pedidos protocolados — perto do limite disponível —, levando o BNDES a solicitar um reforço extra de R$ 7,25 bilhões ao Tesouro Nacional.
É crédito garantido, não gasto a fundo perdido — mas o custo fiscal indireto é o que preocupa: menos exportação significa menos câmbio entrando, menos atividade e, no fim da cadeia, menos arrecadação de impostos, pressionando um déficit primário já projetado em torno de 0,50% do PIB para 2026. Esse efeito se soma, não se compensa, ao pacote de estímulos de ano eleitoral — entre R$ 187 bilhões e R$ 227 bilhões, dos quais 94% correm fora das regras do arcabouço fiscal.
Dívida em alta, paciência do mercado em teste
A dívida bruta do governo geral (DBGG) é projetada em 83% do PIB para 2026, com trajetória de alta para 86% a 87% em 2027. O termômetro de confiança do mercado não é opinião pública — é prêmio de risco-país (CDS, EMBI+) e perspectiva de rating de crédito junto a agências como S&P, Moody’s e Fitch. Quanto mais a dívida sobe sem contrapartida de ajuste fiscal, maior o risco de revisão de perspectiva — o que eleva o custo de rolagem da própria dívida, num ciclo que se autoalimenta.
O pano de fundo: guerra e eleição
O tarifaço não age sozinho. A escalada do conflito no Golfo Pérsico — com o Estreito de Ormuz voltando a operar sob risco após o colapso do cessar-fogo — elevou o Brent para a faixa de US$ 81 a 87 o barril, com possibilidades de chegar até US$ 130 caso a interrupção se estenda pelo segundo semestre. Para o Brasil, exportador líquido de petróleo, o efeito direto sobre o PIB é levemente positivo mas anulado, na prática, pela inflação mais alta que o próprio choque de petróleo gera, mantendo a Selic pressionada para cima.
Some-se a isso o calendário eleitoral: 2026 é ano de disputa presidencial, e o histórico mostra que ciclos eleitorais tendem a atrasar decisões do Banco Central e a ampliar o apetite fiscal do governo — exatamente o oposto do que a conjuntura exigiria.
Para Claudio Felisoni, presidente do Ibevar e professor da FIA Business School, “o tarifaço não é apenas uma disputa comercial entre dois países. É um evento que atravessa geografia (concentrado em poucos estados), fiscal (mais crédito emergencial, menos arrecadação), monetário (Selic represada) e diplomático (o pior momento em dois séculos de relação) ao mesmo tempo — e cada uma dessas frentes já está em movimento, mensurável, e mais cara do que a manchete de hoje sugere”.








