Do pré-IPO ao sino da Bolsa: como investidores estão buscando acessar o crescimento das gigantes americanas antes da abertura de capital

Enquanto o IPO marca a chegada ao mercado público, é no pré-IPO que muitas das empresas mais valiosas do mundo concentram parte relevante de sua valorização
O sonho de investir em grandes empresas norte-americanas antes que elas se tornem gigantes listadas em Bolsa deixou de ser exclusividade de fundos de venture capital e investidores institucionais. O mercado de pré-IPO, que reúne negociações de participações em empresas privadas antes da abertura de capital, começa a ganhar espaço entre investidores globais em busca dos chamados ganhos de maturação.
A estratégia se baseia em uma lógica simples: participar da fase em que boa parte da valorização ainda acontece dentro do mercado privado, antes que a companhia realize sua oferta pública inicial de ações (IPO) e passe a ser negociada em Bolsa.
A diferença entre os dois momentos é significativa. No pré-IPO, a empresa ainda é privada e suas ações circulam entre investidores qualificados, fundos e plataformas especializadas em mercado secundário. Já no IPO, as ações passam a ser negociadas livremente em Bolsa e ficam acessíveis ao público em geral.
“O IPO costuma representar a chegada da empresa ao grande público, mas em muitos casos a maior parte da criação de valor já aconteceu durante os anos anteriores, quando a companhia ainda estava no mercado privado”, explica Fábio Guerra, diretor de novos negócios e estruturação da Hurst Capital.
Nos Estados Unidos, essa dinâmica ficou ainda mais evidente nos últimos anos, à medida que empresas passaram a permanecer privadas por períodos mais longos, captando bilhões de dólares antes de considerar a abertura de capital.
A OpenAI, uma das empresas mais valiosas do setor de inteligência artificial, alcançou avaliações privadas superiores a US$ 900 bilhões enquanto ainda permanece fora das bolsas americanas. A companhia já iniciou movimentos preparatórios para uma eventual abertura de capital, mas ainda não definiu oficialmente um cronograma para o IPO. A expectativa é que ocorra em 2027, depois que a empresa alcançar o valor de mercado de US$ 1 trilhão.
Enquanto o IPO não vem, a plataforma de investimentos alternativos Hurst Capital captou todas as cotas do lote complementar destinado ao investimento na OpenAI. A disponibilização deste segundo lote ocorreu em decorrência do encerramento da rodada inicial, realizada no início de maio, cujas cotas disponibilizadas foram integralmente subscritas em um período de 48 horas.
O sucesso na comercialização mostra que os brasileiros estão de olho em investimentos que possibilitam acessar o mercado de equity privado da companhia tecnológica antes da realização de sua oferta pública inicial de ações (IPO).
A estrutura jurídica e financeira do investimento é constituída por meio de um Certificado de Recebíveis (CR), emitido no mercado brasileiro sob a regulação direta da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), em estrita conformidade com as normas previstas na Resolução 88. Este instrumento financeiro local é lastreado em direitos creditórios derivados de um contrato de cessão firmado com a OurCrowd (Investment in G-new OpenAI) L.P., uma plataforma global de capital de risco.
Outro exemplo é a SpaceX, fundada por Elon Musk, que durante anos figurou entre as empresas privadas mais desejadas do mundo antes de avançar em seu processo de abertura de capital, após sucessivas rodadas de valorização no mercado privado.
A Hurst Capital protagonizou um movimento histórico no mercado brasileiro ao estruturar a única operação que possibilitou o acesso de investidores brasileiros ao pré-IPO da SpaceX. A oportunidade, inédita e altamente restrita globalmente, teve 100% das cotas esgotadas em menos de 24 horas, evidenciando o forte apetite por ativos de tecnologia de ponta e o posicionamento diferenciado da Hurst na originação de oportunidades exclusivas.
Já a Kalshi, plataforma americana de mercados de previsão regulados, tornou-se um dos casos mais emblemáticos do novo ciclo tecnológico americano. A companhia multiplicou sua avaliação em poucos anos e passou a ser apontada pelo mercado como potencial candidata a uma oferta pública nos próximos anos.
A Kalshi concluiu uma rodada de financiamento Séries F, elevando seu valuation para US$ 22 bilhões. “O montante representa o dobro do valor de mercado de US$ 11 bilhões registrado pela companhia em novembro de 2025, no fechamento da Séries E”, explica o executivo. A rodada de captação contou com a participação de fundos de capital de risco e plataformas institucionais como Coatue, Sequoia, Paradigm, CapitalG, Razor Capital e Tradeweb Markets.
O crescimento do mercado secundário privado nos Estados Unidos está permitindo que investidores tenham acesso a empresas inovadoras antes da abertura de capital, especialmente nos setores de inteligência artificial, tecnologia espacial, infraestrutura digital e fintechs.
“O investidor não está apenas comprando uma ação antes do IPO. Ele está buscando exposição ao ciclo de criação de valor que acontece entre as últimas rodadas privadas e a entrada efetiva na bolsa”, explica o COO da Hurst Capital, Breno Reis.
Apesar do potencial de valorização, especialistas alertam que o investimento em pré-IPO envolve riscos superiores aos observados no mercado tradicional, incluindo menor liquidez, incertezas regulatórias e a possibilidade de adiamento ou até cancelamento da oferta pública.
Por isso, a recomendação é que a estratégia faça parte de uma carteira diversificada e esteja alinhada a investidores com horizonte de longo prazo e maior tolerância ao risco.
Com a nova geração de empresas americanas permanecendo privadas por mais tempo e alcançando avaliações bilionárias antes de chegar à bolsa, o mercado de pré-IPO passa a ser visto não apenas como uma alternativa de investimento, mas como uma forma de capturar parte do crescimento que, historicamente, ocorria apenas após a abertura de capital.








