Nem eles: nem ele
Por influência de múltiplos fatores, o destaque do atual ciclo eleitoral brasileiro repousa na diminuta qualidade dos postulantes aos diferentes cargos, com destaque para aqueles que pleiteiam ocupar a cadeira de presidente da república a partir de 1º de janeiro de 2019. Não há como negar a frustração e desencanto coletivo com a atual safra de políticos plantada nos tempos de radicalização da corrupção institucionalizada.
Ainda assim, os embaraços provocados pela reforma política postiça, adotada para o evento do corrente ano, e a postura conservadora do eleitorado, a despeito do fervor das frequentes manifestações públicas dos últimos cinco anos, representam barreiras nada desprezíveis ao desencadeamento de um processo de renovação.
Nessa perspectiva, se as sondagens de opinião realizadas pelos institutos de pesquisas estiverem corretas, um provável segundo turno na corrida presidencial deverá ensejar o cotejo de plataformas hospedadas em dois extremos: o regresso do lulismo e a implantação do bolsonarismo.
A decisão pela primeira alternativa representa essencialmente a chancela a ações de governo concebidas no interior de uma sala, transformada em cela, na sede da Polícia Federal, em Curitiba, que hospeda o ex-mandatário Lula que, no meio da multidão, usa o disfarce de Fernando Haddad.
Mais que isso, tal vertente representaria a ressurreição de posturas que, amparadas nos pilares de transferência de renda, fincados na Constituição de 1988 e ativados nos anos 1990, nas reformas institucionais implantadas naquela década e no bônus internacional, produzido pela fase de mais intenso crescimento da economia global desde a segunda guerra, entre 2003 e 2008, apostaram no caráter infinito dos recursos públicos.
Esse comportamento, reforçado pelo aparelhamento partidário da gestão do orçamento da união e o controle do fluxo de caixa das companhias estatais, em favor de grupos econômicos “amigos do rei”, com participação e aval de peças do poder legislativo, serviu para quebrar o estado e precipitar a economia nacional na mais profunda e longa recessão da história, praticamente anulando os avanços sociais contabilizados entre 1994 e 2011, especialmente quanto à inclusão e mobilidade.
Frise-se que a mensagem da campanha prega a negação veemente dessas evidências e, o que, é pior, reitera e necessidade de utilização da (fracassada) terapia de gastança de haveres públicos para a diminuição do desemprego e a retomada da expansão sustentada. Em outras palavras, a retórica sublinha a premência de emprego de posições e medidas do século passado, absolutamente desconectadas do funcionamento do mundo no limiar da quarta revolução industrial.
A segunda possibilidade de preferência é capitaneada pelo deputado federal Jair Bolsonaro, oficial da reserva do exército brasileiro, cuja atuação parlamentar perseguiu, conforme demonstrou recentemente o jornalista Fernando Gabeira, a ocupação de uma espécie de vazio nas áreas de segurança e educação, tirando proveito, dentre outros pontos, do despreparo demonstrado por alguns colegas radicais, entrincheirados no levantamento espetaculoso de bandeiras confusas de direitos humanos e da sintonia fina entre a eclosão do movimento LGBT e o ensino fundamental.
A viabilização da transformação do legislador em candidato com chances reais de vitória exigiu esforços de comunicação sintetizados no permanente confronto com adversários em temas polêmicos e na defesa, quase que intransigente, da violência, e apelo ao espirito belicoso da população.
Ademais, o postulante vem tentado enquadrar a economia em uma aventura liberal, tratando-a como um brinquedo, disponível para venda nas lojas de conveniência da rede de Postos Ipiranga, que pode ser manuseado ao sabor dos anseios, interesses e humores explicitados pelo mercado.
A principal proposição fundamenta-se na hipótese de factibilidade de zeragem déficit público em um ano, amparada na feitura de um vultoso programa de privatizações. Nesse particular, a própria ciência econômica ensina que, em intervalo tão curto, um executivo bastante eficiente consegue empreender, no melhor dos cenários, a montagem do marco regulatório.
O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço é economista, consultor, professor da FAE Business School e ex-diretor presidente do IPARDES.








