Pré-governo Bolsonaro: falhas iniciais

Ainda é cedo para a feitura de um exercício de avaliação do arcabouço do futuro governo Bolsonaro com base exclusivamente em seus primeiros passos, marcados pela montagem da equipe de transição, escolha dos principais ministros e, principalmente, esforço de transformação da reconhecidamente estreita, confusa e, por vezes contraditória, plataforma de campanha, em ensaios de providências a serem adotadas a partir de 01 de janeiro de 2019.

Ainda assim, parece lícito argumentar que as iniciativas pontuais, até aqui anunciadas, representam apenas uma espécie de sintonia fina entre atores e plateia do espetáculo de formação da matriz de ações a serem executadas pelo novo poder executivo, desprovidas de articulação e, notadamente, de encaixe no que se desejaria como um projeto consistente para a retirada do país da crise e a retomada do crescimento.

Dentre os já não poucos pontos carentes de solidez, destaca-se a manifestação de desejo de aprovação de uma “meia sola” de reforma da previdência, viabilizada por governo e congresso em fim de mandato e detentores de credibilidade “mais suja que pau de galinheiro”. Muito mais correto seria o detalhamento da ideia de equiparação dos regimes público e privado, em dez anos, que resultaria em diminuição de R$ 1,3 trilhão das despesas públicas.
Igualmente deficitária de racionalidade é a intenção de acomodar os legítimos pleitos de uma eventual reforma administrativa, com a mera redução do número de ministérios e, por extensão, a eliminação de determinadas estruturas comissionadas, desprezando a premência em atacar o gigantismo do estado brasileiro e, por extensão, fechar os ralos que favorecem o escoamento de substanciais cifras de haveres públicos, inclusive por vias tortas.

Nessa perspectiva, chama atenção a exposição de fusão dos ministérios da agricultura e meio ambiente, consubstanciando a aglutinação de interesses e demandas diametralmente opostas e, o que é pior, na maioria dos caos, de situações e problemas que não possuem qualquer relação.

Na mesma linha, emerge o intuito de conferir supervalorização ao “posto Ipiranga” do candidato, o economista Paulo Guedes, por meio da criação da superpasta dedicada aos assuntos econômicos, formada pela junção dos ministérios do planejamento, fazenda e indústria e comércio, inspirada em múltiplas alegações, sendo a principal a necessidade de reerguimento do setor fabril, amparado na inserção competitiva no front global e no desmanche dos cartórios escorados em subsídios e outras benesses protecionistas, supostamente impregnados na dinâmica do Ministério da indústria, Comércio Exterior e Serviços.

Nesse caso, trata-se recomendação equivocada. Isso porque, esse tipo de experiência já foi tentado no passado e não deu certo. A administração de Fernando Collor (1990-1992), de triste lembrança, constitui exemplo patético e prático da estratégica submissão dos anseios desenvolvimentistas aos ditames dos objetivos de caixa da fazenda, essencialmente de curto prazo.

Na configuração presente, os clamores da indústria serão facilmente anulados pela combinação entre a macroeconomia do déficit zero e as pressões políticas e burocráticas subjacentes na elaboração e execução dos orçamentos, pelo que sobrar de trabalho de planejamento, depois de este ser digerido pela fazenda.
Aparentemente, o staff econômico de Bolsonaro negligencia o definhamento estrutural da indústria nacional, ao condená-la à prisão dos fluxos de caixa. Conforme o IBGE, o peso dos ramos de transformação no produto interno bruto (PIB) brasileiro declinou de 17,4%, em 2005, para 11,8%, em 2017. Além disso, a participação do parque fabril do país no produto mundial declinou de 3,2%, em 1990, para menos de 2,0%, em 2017, segundo inferências do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi). E, a Confederação Nacional da Indústria (CNI) aponta que a contribuição das exportações de manufaturados brasileiros no total planetário retrocedeu de 1,0%, em 1984, para 0,6%, em 2017.

De seu turno, o clima conjuntural também é bastante inóspito. A produção industrial brasileira, acompanhada pelo IBGE, amargou, em setembro de 2018, recuo de 1,8%, o terceiro consecutivo, implicando retração de 2,7% no intervalo julho-setembro. A aferição do desempenho em confronto com o mesmo trimestre do ano anterior oportuniza verificar flagrante e generalizada desaceleração em 2018 – com aumentos de 5,0%, entre outubro e dezembro de 2017, 2,8% entre janeiro e março, 1,7% entre abril e junho, e 1,2% entre julho e setembro -, sendo mais intensa em bens de consumo não duráveis e semiduráveis, cuja demanda é movida prioritariamente à massa de salários.

O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço, que é economista, consultor, professor da FAE Business School e ex-diretor presidente do IPARDES.

Mirian Gasparin

Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná.Profissional com experiência de 50 anos na área de jornalismo, sendo 48 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social.Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Também é professora titular nos cursos de Jornalismo e Ciências Contábeis da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas paranaenses, de São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos.Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 16 anos de blog, mais de 35 mil matérias foram postadas.Ao longo de sua carreira recebeu 20 prêmios, com destaque para o VII Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º e 3º lugar na categoria webjornalismo em 2023); Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005).Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.

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