Brasil: confiança e crescimento econômico
Não há a menor dúvida de que a definição do episódio eleitoral brasileiro de 2018, em favor de uma candidatura por suposto menos propensa a incursões aventureiras ou a repetição de condutas populistas reconhecidamente fracassadas no passado recente, e o respectivo aceno preliminar de adoção de providências não traumáticas a partir de janeiro de 2019, promoveu acentuada renovação do entusiasmo dos agentes econômicos.
Mais especificamente, no plano corporativo, o índice de confiança empresarial (ICE), estimado por meio de pesquisa da Fundação Getúlio Vargas (FGV), saltou de 91,7 pontos, em outubro, para 95,0 pontos, em novembro de 2018, praticamente regressando aos patamares verificados antes da greve dos caminhoneiros, acontecida em fins de maio do corrente ano. O indicador possui difusão entre zero e 200 pontos, denotando otimismo quando suplanta 100 pontos.
Na mesma linha, o índice de confiança do empresário industrial (ICEI), apurado pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), subiu de 53,7 pontos para 63,2 pontos, em idêntico intervalo, alcançando o maior nível desde setembro de 2010 (63,3 pontos), por ocasião do apagar das luzes do governo Lula, quando a economia nacional cresceu 7,5% em um ano, e situando-se bastante acima da média histórica de 54,2 pontos. Este parâmetro varia entre zero e 100 pontos, indicando otimismo a partir de 50 pontos.
Pela ótica das famílias, o índice nacional de confiança do consumidor (INEC), também levantado pela CNI, somou 113,6 pontos (oscila entre zero e 200 pontos, apontando disposição às compras quando superior a 100 pontos) em novembro de 2018, sendo a quinta elevação mensal seguida e a maior dimensão experimentada desde janeiro de 2014, acima da média histórica de 107,8 pontos.
Porém, as expectativas reinantes repousam na contaminação da economia real pelo ânimo aferido nos humores dos atores sociais (empresas e famílias), pois o comportamento das variáveis relacionadas aos níveis de atividade ainda vem sendo fortemente afetado pelas enormes margens de capacidade ociosa, acumuladas predominantemente pelas cadeias industriais no transcorrer de três anos de recessão e mais de um ano de apatia dos negócios.
Tanto é assim que a produção industrial, acompanhada pelo IBGE, cresceu apenas 4,0% no biênio 2017-2018, recuperando pouco mais de ¼ da retração de 18,5% amargada entre 2014 e 2016. O pior é que os segmentos básicos fabricantes de bens intermediários e os ramos leves da ponta de consumo não duráveis e semiduráveis revelam sintomas de estagnação, resultado da perversa conjugação entre falência do estado, contração dos investimentos em infraestrutura, deterioração da gestão financeira e, por extensão, do desempenho das companhias públicas, enorme contingente de desempregados, declínio da renda dos trabalhadores e expressivo grau de endividamento e inadimplência dos consumidores.
Até no terreno das remunerações consideradas mais nobres, que abarca o parque fabril, o cenário permanece desolador. De acordo com sondagem da CNI, a massa de salários reais (já descontada a inflação) vem caindo ininterruptamente desde 2015, acumulando decréscimo de 19,6% em quatro anos. Já o rendimento médio do pessoal ocupado no setor industrial diminuiu 2,3% no mesmo período.
Não por acaso, a Síntese dos Indicadores Sociais, do IBGE, apurou o retorno da marcha de acréscimo da pobreza e da desigualdade de renda no país entre 2016 e 2017, conforme metodologia de aferição sugerida pelo Banco Mundial (rendimento de até US$ 5,5 por dia, ou R$ 406 por mês).
Por tal critério, o contingente de pessoas pobres passou de 25,7% da população, em 2016, para 26,5%, em 2017, totalizando 54,8 milhões de pessoas. Enquanto isso, a população com renda inferior a US$ 1,90 por dia (R$ 140 por mês), integrante do grupo de extrema pobreza, ascendeu de 6,6% do total, em 2016, para 7,4% em 2017, equivalendo a 15,2 milhões de brasileiros.
Ademais, os 10,0% mais ricos (que se apropriam de 43,1% do montante de rendimentos) auferem 17,6 vezes mais renda que os 40,0% mais pobres, que detêm apenas 12,3% do total.
A virada desse jogo dramático requer firme edificação e implantação de um novo projeto de nação que priorize o encaminhamento de um conjunto nada desprezível de reformas institucionais, capazes de assegurar a estabilização conjuntural e resgatar a funcionalidade, o equilíbrio financeiro e o poder de fogo do estado, na direção da impulsão da eficiência microeconômica e da revolução quantitativa e qualitativa da educação
O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço (foto), que é economista, consultor, professor da FAE Business School, foi diretor-presidente do IPARDES.








