O IBGE e o métier de Paulo Guedes

A história econômica da república brasileira propicia a identificação de um número razoável de titulares das pastas da Economia, Fazenda e Planejamento, de diferentes governos, democráticos ou autoritários, que combinavam competência técnica, traquejo político, discrição e elegância no trato e relacionamento com os agentes econômicos e políticos.

Bastaria lembrar figuras como Otávio Gouveia de Bulhões (governo Costa e Silva, entre 1968 e 1973), Mario Henrique Simonsen (administração Geisel, 1974-1979), Rubens Ricupero (1994, mandato de Itamar Franco) e Pedro Malan (1995-2002, gerência de Fernando Henrique Cardoso), para perceber comportamentos impregnados de talento e lisura, ainda que, em não poucas situações, as respectivas estratégias econômicas tenham esbarrado em incontáveis resistências políticas e/ou corporativas.

Não há necessidade de ser um atento observador do cotidiano econômico, ou especialista em apreciação de eventos políticos pretéritos, para apreender que o atual superministro da Economia, Paulo Guedes, não é portador daquelas qualidades, absolutamente imprescindíveis para alguém que conquistou a tarefa de comandante da batalha campal na direção da retomada do crescimento de longo prazo da nação.

Não bastasse os atritos com representantes de segmentos produtivos, durante a fase de transição entre os governos Temer e Bolsonaro, em fins de fevereiro de 2019, o capataz da fazenda, em vez de empenhar-se na interlocução técnica entre executivo e legislativo para facilitar a tramitação da proposta de reforma da previdência, preferiu dedicar-se ao trabalho de multiplicação de bobagens orais a respeito de assuntos alheios ao seu métier, preso a incursões nas bancas financeiras.

Mais precisamente, na solenidade de posse da presidente do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Susana Cordeiro Guerra, que enfatizou a prioridade da entidade na arregimentação dos recursos orçamentários necessários à realização do Censo 2020, principal pesquisa demográfica do país, Guedes condicionou, de forma impositiva, a viabilização financeira da pesquisa decenal à venda de parte do patrimônio da entidade, formado por três sedes e seis prédios, pulverizados pela cidade do Rio de Janeiro, que, em sua visão, representariam um enigma não decifrado por vários economistas que ocuparam a direção do organismo de investigação.

Pior, o ministro apelou para o espírito espartano dos profissionais do IBGE ao argumentar que o encaixe do Censo aos recursos aportados passaria por drástica diminuição do tamanho do questionário aplicado que, segundo ele, estaria em dissonância com o estado da arte nas nações avançadas, contendo cerca de 150 itens contra 10. E insinuou que “se perguntar demais vai descobrir coisas que nem queria saber”.

A despeito de a premência de execução de uma reforma administrativa no sentido da restauração da eficiência do serviço público, exigir, dentre outros avanços, rigorosa aferição dos custos envolvidos no funcionamento das distintas instituições, focada na desmobilização de ativos tangíveis, a experiência brasileira recente desabona o estabelecimento de uma sintonia fina entre venda de imóveis e melhora do caixa dos órgãos governamentais ou, no limite, concretização do ajuste fiscal, por meio do emprego dos haveres entrantes para reforço da troca dos regimes previdenciários.

A propósito, estatísticas da Caixa Econômica Federal (CEF) apontam que apenas 56 (9,2%) das 608 unidades pertencentes ao governo, alienadas no triênio 2016-2018, foram comercializadas, perfazendo ingressos de R$ 150,3 milhões, provavelmente em decorrência das precárias condições de manutenção das propriedades ofertadas.

No que se refere às considerações a respeito do Censo, Guedes revelou enorme despreparo e desconhecimento das peculiaridades de um inquérito voltado à mensuração da dinâmica demográfica de um país em desenvolvimento, de dimensões continentais, marcado por acentuado grau de heterogeneidade regional e social, ao contrário das nações ricas que, por exemplo, conseguiram atingir estágios avançados de progresso, aproveitando a janela demográfica para promover vultosas inversões em educação e inovação.

O ministro parece negligenciar o fato de que a mutilação do Censo representaria a abdicação da coleta, tratamento e sistematização de dados e informações essenciais para a produção de indicadores capazes de balizar o planejamento e as escolhas de longa maturação de governo, empresários e trabalhadores atuantes no território nacional.

Sem isso, a tarefa de fixação de referências futuras para as decisões presentes ficará irremediavelmente prejudicada. A não percepção dessa anomalia está intimamente atrelada à ignorância, inadmissível para ocupantes de funções públicas de relevo, ou ao arrojado esforço em beneficiar aqueles poucos que costumam maximizar ganhos e colaborar para a perpetuação da desigualdade na apropriação do produto social, amparados na insuficiência e/ou falta de informações.

O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço (foto), que é economista, consultor, professor da FAE Business School e ex-diretor presidente do Ipardes.

Mirian Gasparin

Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná.Profissional com experiência de 50 anos na área de jornalismo, sendo 48 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social.Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Também é professora titular nos cursos de Jornalismo e Ciências Contábeis da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas paranaenses, de São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos.Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 16 anos de blog, mais de 35 mil matérias foram postadas.Ao longo de sua carreira recebeu 20 prêmios, com destaque para o VII Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º e 3º lugar na categoria webjornalismo em 2023); Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005).Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.

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