Agenda econômica: o principal erro do presidente

Reconhecidamente, o presidente da república, Jair Bolsonaro, vem desperdiçando o enorme estoque de capital político, acumulado a partir do desfecho do episódio eleitoral de 2018 que, dentre outros méritos, propiciou a restauração da marcha de crescimento da confiança dos atores sociais no futuro do país.

Decerto, o repúdio ao modelo tradicional de estruturação de governos prevalecente no Brasil, apelidado de presidencialismo de coalização que, na prática, funciona nos moldes de cooptação, e a subordinação aos pensamentos e orientações do astrólogo revestido de “filósofo produzido a facão” – com todo o respeito aquela ferramenta – conduziu à formação de uma equipe de gestão governamental e de articulação política multifacetada, desconexa, inexperiente e incompetente, que poderia ser rotulada, sem exageros, de quarta categoria.

Trata-se de dura constatação que encontra respaldo na atuação (ou ausência dela) das pastas da casa civil; relações exteriores, educação; mulher, família e direitos humanos; e das lideranças do executivo no congresso nacional. As exceções, consideradas ilhas de excelência e/ou de equilíbrio, repousam na conduta dos militares, liderados pelo vice-presidente, e iniciativas da infraestrutura que, mesmo em um cenário de pauperização orçamentária, tem buscado a redenção de alguns planos de investimentos, evidenciadas pelo êxito de leilões de privatizações e concessões no segmento de transportes, desenhados ainda pela equipe de Michel Temer.

Porém, a percepção coletiva é de múltiplas falhas de comunicação e carência de autoridade governamental. Isso porque, é fácil perceber a recusa permanente de realização da imprescindível descida dos palanques eleitorais e desmanche do revanchismo e agressões nas redes sociais; observação de conspiração ideológica em qualquer esquina, supostamente disseminada por meios de comunicação e impregnada nas universidades públicas; e anúncio de decisões e desmentidos quase que diários, incluindo desqualificações do chefe de estado por membros do staff, parlamentares e, o que é pior, pela realidade.

Os casos mais grotescos correspondem aos ensaios intervencionistas na Petrobrás e no Banco do Brasil, menção de atualização da tabela de incidência do imposto de renda e divulgação de cortes ou contingenciamento dos recursos previstos nos orçamentos para custeio da educação pública de terceiro grau e outras políticas sociais.

Mais do que isso, a combinação entre despreparo e arrogância do novo grupo palaciano, recheada pela presença e participação ativa de uma espécie de “filhocracia”, inspirada no guru portador de raciocínio raivoso, residente em terras estrangeiras, em um ambiente de maturação do esfacelamento das oposições – em face, primordialmente, do envolvimento explícito, em maior ou menor grau, nos diversos assaltos ao caixa das companhias estatais e aos fluxos orçamentários, ocorrido nos tempos recentes -, serviram apenas para a montagem do palco de encenação da peça: “sou governo, mas também faço oposição”.

Apesar da relevância desses distúrbios de natureza política, o sabor amargo do remédio provado pelo mandatário neste principio de administração é fruto dos equívocos de compreensão acerca dos requisitos essenciais ao resgate de um clima propício à rápida retomada do ciclo de negócios no Brasil, engatilhada sob Michel Temer, ancorada na curva benigna da inflação e dos juros e da instauração do teto de gastos, e interrompida em maio de 2017, com o vazamento dos áudios que associaram o presidente a crimes de corrupção passiva.

Em outras palavras, a carência de uma plataforma ou programa consistente de nação, amparada em nova aliança hegemônica democrática de poder, com a designação dos perdedores e ganhadores diretos, levou Bolsonaro à condição de refém, de um lado, de um “bando de loucos” simpáticos à repressão do pluralismo de ideias e confronto de opiniões.

De outro extremo, o presidente foi aprisionado pela retórica apresentada por Paulo Guedes, e defendida “a ferro e fogo” pelos mercados, apoiada na aprovação da reforma da previdência, portadora de potência fiscal estimada em R$ 1,2 trilhão em dez anos, como condição essencial à viabilização do regime de capitalização e reconquista do otimismo empresarial e, por extensão, deflagração do circuito de retomada sustenta do crescimento.

De fato, a lacuna no raciocínio de Guedes reside na constatação de que as necessárias modificações no aparato de regulação das aposentadorias e pensões dos trabalhadores privados e dos servidores públicos conseguirão, no melhor dos mundos, evitar a falência do Estado, nas várias esferas (união, estados, municípios, legislativo e judiciário).

Paradoxalmente, houve desprezo à existência de forte correlação entre as circunstâncias de operação do aparelho econômico, sobretudo o destrave do crescimento, e o encaminhamento e tramitação das reformas institucionais requeridas para a devolução do equilíbrio duradouro das finanças públicas e da competitividade sistêmica da microeconomia.

Somente a título de ilustração, depois de escapar da mais prolongada e profunda recessão da história, que produziu decréscimo de 8,5% do produto interno bruto (PIB), entre abril de 2014 e dezembro de 2016, a economia do país deve contabilizar variação de 3,3%, no triênio 2017-2019, caracterizando a mais vagarosa recuperação da era republicana, corroborando o estágio rotulado como de estagnação.

Em sentido complementar, estudo preparado pelo Instituto Brasileiro de Economia (IBGE), da Fundação Getúlio Vargas (FGV), revela que o coeficiente de Gini (indicador de concentração de renda, que varia entre zero e um, denotando alargamento da desigualdade ao aproximar-se da unidade) acusou, entre janeiro e março de 2019, o maior nível da série iniciada em 2012, depois de subir ininterruptamente desde 2015 e chegar a 0,6257, neste trimestre. A investigação mostra que, entre 2012 e 2019, enquanto o rendimento médio dos 10% mais ricos da população cresceu 8,5%, o auferido pelos 40,0% mais pobres encolheu 14,0%.

A reversão desse panorama caótico exigiria, em condições de inflação controlada, menos obsessão pela pauta das alterações previdenciárias e mais atenção à definição e cumprimento da agenda de desencadeamento de novas rodadas de diminuição dos juros e lançamento de ações de ampliação da concorrência interbancária e simplificação do regime tributário, cujos conteúdos de proposições, factíveis e atualizados, encontram-se disponíveis, por sinal, nos escaninhos do legislativo.

Em sendo isso feito, a subsequente diminuição dos elevados patamares de desocupação e subutilização dos fatores de produção poderia ensejar a constituição de um embrião de reativação dos níveis de atividade e desanuviar as negociações das outras transformações de base.

Cumpre recordar que como o presidente Itamar Franco empreendeu esforço semelhante em 1992-1993, o país colheu os frutos bons da desinflação e primeira geração de reformas que, ao lado do bônus internacional, possibilitaram, especificamente entre 2003 e 2010, no governo Lula, a subida do patamar expansivo nacional.

A diferença fundamental é que Itamar portou-se, ao longo de pouco mais de dois anos de mandato, como autêntico “estadista”, portador de habilidades e empenho requeridos para o desmanche das resistências à efetivação de aprimoramentos nas condições gerais do tecido social brasileiro.

Contudo, enquanto a atual atmosfera inóspita não desaparecer, a chama da exacerbação das expectativas negativas deverá continuar acesa. Tanto que, o índice de confiança do empresário industrial, estimado mensalmente por pesquisa da Confederação Nacional da Indústria (CNI), declinou pelo quarto mês seguido, em maio de 2019, chegando a 56,5 pontos (varia entre zero e cem pontos), depois de registrar 64,7 pontos, em janeiro do corrente ano. Ainda assim, o indicador situa-se acima do verificado em maio do exercício anterior (55,5 pontos) e da média histórica (54,5 pontos).

O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço (foto), que é economista, consultor, professor da FAE Business School e ex-presidente do Ipardes.

Mirian Gasparin

Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná.Profissional com experiência de 50 anos na área de jornalismo, sendo 48 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social.Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Também é professora titular nos cursos de Jornalismo e Ciências Contábeis da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas paranaenses, de São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos.Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 16 anos de blog, mais de 35 mil matérias foram postadas.Ao longo de sua carreira recebeu 20 prêmios, com destaque para o VII Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º e 3º lugar na categoria webjornalismo em 2023); Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005).Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.

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