Deterioração política e estagnação econômica no Brasil
Projeções realizadas pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) denotam moderada desaceleração da velocidade de expansão da economia mundial em 2019, evidenciada pela variação de 3,3% do produto interno bruto (PIB) global, contra 3,6% em 2018, explicada pela ameaça de guerra comercial entre Estados Unidos (EUA) e China, valorização do dólar e oscilações nas cotações do petróleo.
O desempenho deve recuar de 2,6% para 2,3%, nos EUA, de 6,6% para 6,3%, na China, de 1,8% para 1,3%, na Zona do Euro, de 2,3% para 1,6%, na Rússia, e de 4,5% para 4,4%, no conjunto dos emergentes ou em desenvolvimento. Em contrapartida, o Fundo prevê subida de 0,8% para 1,0% do PIB, no Japão, e 7,1% para 7,3% do agregado, na Índia. Ademais, a taxa de desemprego norte-americana desceu, em abril de 2019, a 3,6% da população economicamente ativa (PEA), o menor patamar registrado desde 1969.
Enquanto isso, prognósticos realizados por aproximadamente 140 entidades – entre bancos, gestores de recursos, empresas do setor real, distribuidoras, corretoras e consultorias, inquiridas semanalmente por pesquisa do Banco Central (BC) – sinalizam incremento de menos de 1,5% do PIB brasileiro em 2019, versus 2,6%, inferido no começo do ano.
Tal indicação serve para conformar acentuada reversão das expectativas otimistas surgidas depois da vitória de Jair Bolsonaro, nas eleições presidenciais de outubro de 2018, e da confirmação de execução de uma política econômica ortodoxa, centrada na feitura de profundo ajuste fiscal como condição essencial à estruturação da retomada sustentada do crescimento.
Sem dúvida, trata-se de um elenco de episódios adversos que afetaram as bases de operação de praticamente todos os segmentos produtivos, especificamente no primeiro trimestre do ano, constituindo exemplo patético e prático da mudança, para pior, do ambiente econômico.
O retrato mais dramático pode ser observado na indústria que, de acordo com pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), acusou contração de 2,2% na produção, entre janeiro e março de 2019, em comparação com o mesmo período de 2018. O declínio foi generalizado, atingindo 21 dos 26 ramos, 55 dos 79 grupos e 56,9% dos 805 produtos acompanhados, sintetizado em decréscimos de 4,3%, em bens de capital, 3,4%, em bens de consumo duráveis, 2,0%, em bens intermediários, e 1,4%, em bens de consumo não duráveis e semiduráveis.
Por uma ótica estritamente técnica, o setor fabril estaria, de novo, em situação recessiva. Isso porque, a retração verificada no principio de 2019 vem na sequência (e aprofunda) da redução de 1,2%, apurada entre outubro de dezembro de 2018, e rigorosamente interrompe sete trimestres consecutivos de recuperação observados a partir de janeiro de 2017, depois de três anos de depressão.
A argumentação é corroborada pelo curso das variáveis determinantes do comportamento global da indústria, mensuradas mensamente pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), que exibiram números desfavoráveis no primeiro trimestre, com diminuição de 5,1%, no faturamento real, 2,5%, no rendimento médio real e 2,4%, na massa salarial real. Já o nível de emprego permaneceu estagnado e as horas trabalhadas cresceram apenas 0,2%.
A CNI também estimou grau de utilização da capacidade instalada de 76,5%, em março de 2019, contra 78,3%, em março de 2018, sendo o menor patamar constatado desde maio de 2018. Na ocasião, o funcionamento do aparelho de produção nacional foi grandemente prejudicado pela paralisação do transporte rodoviário de cargas, ocorrido na última semana daquele mês.
O fator determinante do retorno da marcha cadente para as estatísticas relativas ao nível de atividade repousa na brutal frustração das esperanças de melhoria do clima de negócios. Essa anomalia poderia ser atribuída à perda de ímpeto do bônus externo, ocasionada pela descida dos preços internacionais dos produtos básicos e semielaborados exportados pelo Brasil.
No entanto, o elemento chave da resistência do quadro de estagnação econômica compreende a deterioração do clima político doméstico, provocada por inações e inúmeras ações confusas e autoritárias e outras equivocadas, tomadas pelo novo governo, formado por múltiplas e, por vezes, antagônicas correntes, desprovido de discernimento, tenacidade e, notadamente, apoio consistente no parlamento; preso a futricas produzidas pela “filhocracia”; e afetado por um tipo de vírus conhecido como “miopia ideológica”, introduzido por seguidores de um ex-astrólogo brasileiro, residente na Virginia (EUA), guru do chefe de estado.
A aplicação dos princípios defendidos por esse grupo, carente de um mínimo de bom senso e desvinculado do mundo real, tende a conduzir a nação ao alinhamento incondicional aos norte-americanos, afastamento das entidades multilaterais e menosprezo à mola propulsora do desenvolvimento, configurada na educação, supostamente impregnada de marxismo cultural e alocada simplesmente como rubrica de gasto na peça orçamentária.
A propósito disso, estudo elaborado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), revela que o Brasil ocupa a última posição em dispêndios com um dos grandes inimigos da atual aliança hegemônica de poder, o ensino superior, num painel de 39 países. Mais especificamente, a nação gasta US$ 3,7 mil por aluno/ano, num universo liderado por Luxemburgo (US$ 48,9 mil), EUA (US$ 30 mil) e Reino Unido US$ (26,3 mil), no qual Chile (US$ 8,4 mil), México (US$ 8,2 mil) e Colômbia (US$ 6,4 mil) formam o pódio na América Latina.
O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço, que é economista, consultor, professor da FAE Business School e ex-presidente do Ipardes.









Ótima análise prof. Gilmar, parabéns. Acrescente-se a estes dados a inoportuna inflação de preços dos alimentos, voltando a patamares preocupantes numa fase em que há desemprego e queda na renda média do trabalho.