Falta de planejamento e baixa taxa de reciclagem são entraves para o manejo de entulhos da construção
Falou em obra – que seja uma simples reforma em casa – e já se pensa em cimento, gente de um lado para o outro, restos de material de construção. Resumindo: bagunça, sujeira e entulho. Muito entulho. Agora multiplique isso por milhares de residências em Curitiba e Região Metropolitana. O resultado é 1.900.579 toneladas de resíduos gerados pela construção civil todos os anos. Os dados levam em consideração o índice do Ministério do Meio Ambiente, de 520 kg de RCC (resíduos da construção civil) por habitante/ano, e a população estimada pelo IBGE em 2019 para a capital e os outros 28 municípios da RMC.
Cerca de 98% desse material (principalmente entulho e madeira) poderiam ser reciclados, dentro do próprio canteiro ou em centrais externas especializadas. Porém, o Caderno Técnico sobre Resíduos Sólidos publicado pelo Crea-PR aponta que a atividade ainda é insipiente, pouco debatida, tanto que um dos principais problemas do segmento é exatamente a falta de dados confiáveis.
Só 21% dos resíduos são aproveitados
De acordo com o vice-presidente da Associação Paranaense dos Engenheiros Ambientais (APEAM), Luiz Guilherme Grein Vieira, que é também responsável pela atualização do Caderno Técnico do Crea-PR, o cálculo do setor é de que o Brasil reaproveita 21% dos resíduos da construção civil. Na Alemanha, por exemplo, o índice chega a 90%. Um verdadeiro 7 a 1 no canteiro de obras. “No Brasil, esse material é muito utilizado para fazer terraplanegem e aterramento de áreas úmidas, como encostas e fundos de vale, para imóveis que têm baixo valor. E boa parte desses aterramentos é feita de forma irregular. Além disso, para levar o resíduo de uma construção para uma usina de reciclagem, você tem um custo. Para levar a um local inadequado e aterrar, não é cobrado nada. Esses são os principais entraves”, avalia.
Segundo Vieira,o Plano Estadual de Resíduos Sólidos do Paraná (PERS/PR), de 2017, mostrou que, dos 81 municípios que responderam à pesquisa, 92% destinavam os RCCs em locais inadequados, ou seja, sem a devida licença ambiental. “Além disso, parte dos resíduos de construção é composta por materiais perigosos, como tinta, solvente, EPIs contaminados, que, destinados de forma inadequada, podem contaminar o solo, a água subterrânea e a água superficial, causando impactos ambientais. Você pode contaminar o solo, a água subterrânea, a água superficial, causando vários problemas de saúde. O entulho também é um atrativo grande de vetores, como ratos e moscas, que podem causar doenças para a população”, acrescenta.
Desafios para as cidades
Se, por um lado, a geração de resíduos é um desafio para pequenas e grandes cidades, por outro, o caminho está pronto para ser desbravado. A própria reciclagem é uma maneira de aumentar a eficiência do setor, com redução de custos e impactos ambientais. Além da extração de areia e brita, as Nações Unidas estimam que somente a produção de concreto responda por 8% da emissão dos gases do efeito estufa no planeta. Alternativas como contêineres, chapas de madeira e blocos pré-fabricados já começam a ser vistas como uma oportunidade promissora de negócio.
Criada em 2009 e voltada a sistemas de construção sustentáveis, a startup curitibana Tecverde trabalha com chapas pré-fabricadas de madeira reflorestada. Cerca de 70% do processo é concluído dentro da fábrica, ou seja, a casa já sai praticamente pronta da indústria. A tecnologia reduz custos e o tempo de entrega da obra, e já foi utilizada em projetos como o “Minha Casa, Minha Vida” do Governo Federal.
“A obra gera 80% menos de CO2 (gás carbônico) em seu processo de produção e 85% menos resíduos, principalmente quando ela é feita de forma industrializada, com planejamento prévio dos materiais, de engenharia e um bom planejamento da cadeia de fornecedores. Ela consome 90% menos água na produção e é eficiente energeticamente e acusticamente. Isso é bem relevante, inclusive para o conforto das famílias de baixa renda”, comenta o CEO da Tecverde, Caio Bonatto.
Atualmente, a empresa entrega até 3 mil unidades em todo o país, mas o potencial de crescimento é grande. No Paraná, líder nacional em florestas plantadas de acordo com o IBGE, matéria-prima é o que não falta. “Acreditamos num crescimento exponencial, conforme o custo da tecnologia cair e o mercado voltar a aquecer, principalmente no segmento de baixa renda”, avalia Bonatto. “Temos florestas muito bem manejadas, certificadas. Elas poderiam suprir todo o déficit habitacional se fosse o caso, sem ter que plantar uma árvore a mais. Temos matéria-prima abundante no Brasil, somos reconhecidos por isso, e a grande maioria dessas florestas está no Sul e Sudeste. Nossa cadeia de fornecedores está aqui, é superescalável.”
O engenheiro ambiental Luiz Guilherme Grein Vieira lembra que os novos sistemas construtivos podem ter um papel econômico importante na complementaridade da indústria ligada à construção civil. “Esse tipo de construção ajuda a reduzir a geração de resíduos, pois conta com obras mais planejadas. Nos processos construtivos mais antigos era preciso cortar, quebrar muito tijolo, para adaptar uma parede a um determinado tamanho. Hoje, você tem diversas formas de planejar, evitando não só a geração de resíduos, mas o desperdício. Quando você vê uma caçamba cheia, não é só o custo do transporte, da destinação final do material, mas um desperdício de matéria-prima por falta de planejamento”, completa.



Tendo como objetivo a implantação de USINAS DE RECICLAGEM DE RESÍDUOS DA CONSTRUÇÃO CIVIL E DEMOLIÇÃO nas cidades onde houver a possibilidade da Administração Municipal estabelecer parcerias com o setor privado para a implementação do empreendimento, apresentamos os seguintes argumentos para conhecimento e análise:
Incentivos para empresas investidoras em Usinas de Reciclagem de Resíduos da Construção Civil e Demolição:
– Prefeituras : Sancionar lei que institua o Programa de Reciclagem de Resíduos de Construção Civil e Demolição no Município com o objetivo de incentivar o reaproveitamento de resíduos da construção civil reciclados em construções sustentáveis na cidade, incluindo o uso de material agregado reciclado nas obras do Município. Ceder área de terreno em regime de comodato para instalação da usina e adotar Sistema Eletrônico de Gestão de Resíduos no Município.
– Estado : Isentar do ICMS operações relativas à circulação, comercialização de mercadorias e prestação de serviços de transporte interestadual e intermunicipal de produtos derivados de reciclados da construção civil, tendo como modelo o Decreto Lei Nº3344/2010 (Alerj).
Benefícios para os Municípios que incentivarem a implantação de Usinas de Reciclagem de RCCD em parceria com o setor privado:
– Adoção de Sistema Eletrônico de Gestão de Resíduos no Município;
– Regularização da atividade de empresas locadoras de caçambas de entulho;
– Combate ao descarte clandestino;
– Aumento do repasse do ICMS do Estado ao Município (ICMS VERDE);
– Aumento na arrecadação de ISS , taxas de alvarás, taxas de regularização de obras , IPTU, etc.;
– Eliminação de custos com limpeza de terrenos baldios, rios e canais por parte da Administração Municipal;
– Redução de alagamentos causados por “bocas de lobo” entupidas com restos de materiais de construção descartados nas ruas;
– Diminuição de gastos dos recursos da Secretaria Municipal de Saúde no combate à dengue;
– Geração de emprego e renda.