O Brasil em novo empuxe recessivo
O índice de atividade econômica do Banco Central (IBC-Br), uma espécie de variável antecedente do produto interno bruto (PIB) trimestral, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), relativo ao mês de junho de 2019, confirma o surpreendente retorno da recessão econômica ao país, depois da estagnação experimentada entre o segundo trimestre de 2017 e o final de 2018, na sequência da prolongada e profunda depressão, constatada no intervalo de tempo compreendido entre abril de 2014 e dezembro de 2016.
O indicador encolheu 1,75% em junho de 2019, em confronto com junho de 2018, e 0,2% e 0,13%, no primeiro e segundo trimestre do corrente ano, respectivamente, em comparação com iguais períodos do exercício anterior, om que caracteriza a situação contracionista.
Até porque, a esmagadora maioria dos segmentos produtivos, à exceção da agropecuária, vem amargando desempenho bastante desfavorável. De acordo com o IBGE, a quantidade colhida de grãos (cereais, leguminosas e oleaginosas), estimada em 239,7 milhões de toneladas, representará novo recorde em 2019, 5,8% superior ao volume de 2018 (226,5 milhões de toneladas).
Na fronteira internacional, as estatísticas não são portadoras de notícias animadoras. Exportações e importações recuaram 4,7% e 1,0%, respectivamente, entre janeiro e julho de 2019, por conta do esboço de desaceleração do crescimento da economia global, delineado pela intensificação da guerra comercial entre Estados Unidos (EUA) e China, e a drástica contração dos níveis de atividade no Brasil.
No plano interno, o retrato é igualmente dramático. A produção industrial fechou o mês de junho acumulando três declínios trimestrais seguidos, em face dos embaraços externos, agravados pela crise da argentina, e fraqueza da demanda doméstica, retratada na morosa retomada das vendas do comércio varejista (3,2% no primeiro semestre, conforme o IBGE), salva pela desova promocional de estoque das revendedoras de veículos e reduzida elasticidade-renda do ramo de produtos farmacêuticos, fruto dos ainda elevados patamares de desocupação, subutilização e desalento da mão de obra, acompanhados por decréscimo dos rendimentos e subida dos juros e endividamento e inadimplência das famílias.
Porém, a evolução de apenas 0,6% do volume dos serviços prestados, nos seis primeiros meses do ano, cuja aferição, também efetuada pelo IBGE, cobre atividades que contribuem com a geração de 40,0% do PIB, constitui o mais contundente sinalizador da viagem de regresso à recessão, expresso nas reduções contabilizadas por transporte aéreo (6,4%), armazenagem (4,5%) e transporte terrestre (1,4%), verdadeiros termômetros do ambiente de transações.
A abrupta descida da marcha inflacionária no varejo configura outro desdobramento da operação recessiva da matriz de produção nacional. O índice nacional de preços ao consumidor amplo (IPCA), que afere a variação média dos preços dos produtos e serviços consumidos por famílias detentoras de renda mensal entre um e quarenta salários mínimos, experimentou variação de 3,22%, em doze meses até julho de 2019, contra 4,49% nos doze meses imediatamente anteriores.
Aliás, a convicção de persistência da tendência de inflação e produção ladeira abaixo, reforçada pelo episódio de diminuição dos juros globais, puxado pelo Federal Reserve (Banco Central dos EUA), determinou a alteração da postura do Comitê de Política Monetária (Copom), do BC, e a deliberação de corte da taxa Selic de 6,5% ao ano, vigente desde março de 2018, para 6,0% a.a., no encontro de final de julho de 2019, com indicação da possibilidade de chegar a 5,5% a.a., no final do ano, o que precipitou a manifestação de instituições de grande porte na direção da redução do custo dos financiamentos para pessoas físicas e jurídicas.
Contudo, é interessante observar que o empuxe monetário, o princípio de construção do ajuste fiscal, com a aprovação da reforma da previdência na Câmara dos Deputados, e os estímulos à demanda ancorados na liberação de haveres dos saldos das contas ativas e inativas do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS), a partir de setembro, tem sido incapazes de mover para cima as previsões de expansão da economia brasileira para 2019 e 2020, empacadas em 0,87% e 2,22%, respectivamente.
Logo, parece oportuno argumentar acerca da natureza crucial de explicitação, negociação política e implantação de um projeto articulado de longo prazo para a superação da atual situação de letargia, que domina os atores sociais, e a restauração dos caminhos para o alcance de estágios virtuosos. Para tal, não bastam anúncios pontuais, ainda que veementes, apoiados em nobres propósitos de reforma tributária e privatizações.
O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço (foto), que é economista, sonsultor, professor da FAE Business School e ex-presidente do Ipardes.








