Fragilidade da indústria: culpa de Brumadinho?
Uma onda de otimismo invadiu o ambiente formado por Palácio do Planalto, alguns formadores de opinião e determinados espaços dos mercados, com a inequívoca sinalização de reversão da curva de subida da desconfiança dos atores sociais.
A conformação do alento ocorreu a partir da aprovação da reforma da previdência, pela Câmara dos Deputados, e da inclinação heterodoxa do executivo, marcada pelo regresso da estratégia de corte dos juros, pelo Comitê de Política Monetária (Copom), do Banco Central, e implantação de um pacote de bondades oficial, sustentado na autorização de saques de parte dos saldos das contas ativas e inativas do FGTS e do PIS/PASEP.
Também colaborou para a instauração do clima de renovação de ânimo a negação de iminência de recessão técnica, traduzida pela evolução de 1,0% do produto interno bruto (PIB), entre abril e junho de 2019, em cotejo com análogo lapso de tempo de 2018, conforme cálculos do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Em contraposição à atmosfera virtuosa, os primeiros indicadores correntes relativos ao terceiro trimestre de 2019, ao reiterarem a situação apática da economia brasileira, despejaram não poucos “baldes de água fria” na direção das manifestações e mensagens triunfalistas que, inclusive, haviam escancarado posturas de desprezo às evidências de fraqueza da demanda doméstica e tensões e adversidades globais, especialmente o colapso da Argentina, 3º maior parceiro comercial do país.
No detalhe, a produção industrial nacional registrou a terceira queda seguida, em julho de 2019, recuando -0,3% em relação a junho, o que correspondeu ao pior desempenho para o mês em quatro anos, de acordo com a Pesquisa Industrial Mensal – Produção Física (PIM-PF), realizada pelo IBGE. O declínio foi de -2,5%, no confronto com o mesmo mês de 2018, e -1,7% entre janeiro e julho, em cotejo com igual período do ano anterior.
Nessa última base de comparação, o retrocesso foi concentrado em bens intermediários (-3,0%), dado que foi observado incremento nas outras três categorias de uso, precisamente bens de consumo duráveis (1,7%) bens de capital (1,5%) e bens de consumo semiduráveis e não duráveis (0,4%).
Partindo do pressuposto de influência da combinação virtuosa entre discreta recuperação da confiança, moderada diminuição dos juros e igualmente modesta retração dos patamares de desemprego, esta explicada em grande medida pelo avanço das atividades informais, na performance daquelas três classes fabris, a culpa pelo desempenho negativo recairia quase que exclusivamente sobre o grupo de intermediários.
E mais, no interior deste, a responsabilidade pelos resultados ruins poderia ser imputada às atividades extrativas, mais especificamente mineração de ferro, em razão dos impactos do rompimento de uma barragem de rejeitos de mineração na região de Brumadinho, em Minas Gerais, em janeiro deste ano, que afetou os negócios da companhia Vale e demais mineradoras, especialmente a partir da intensificação da fiscalização do funcionamento deste tipo de empreendimento por parte de entidades públicas e privadas ligadas ao desenvolvimento sustentável.
Tal argumentação encontraria respaldo na elevada participação relativa da seção de extração mineral no conjunto do setor secundário, chegando a 21,0% quando computadas as divisões extrativa, transformação, serviços de utilidade pública e construção, ou 14,0% quando restrita ao subgrupo constituído por extração e transformação.
No entanto, mesmo com apreciáveis variações experimentadas por produtos de metal (5,7%), bebidas (3,9%), veículos automotores, reboques e carrocerias (3,5%), produtos de minerais não metálicos (2,5%) e máquinas e equipamentos (1,4%), a investigação do IBGE identificou diminuição de produção em 14 dos 26 ramos, 43 dos 79 grupos e 53,3% dos 805 produtos acompanhados.
Os comportamentos mais desfavoráveis foram apresentados por segmentos atrelados a cadeias produtivas com dinâmicas divorciadas do complexo mineral, em especial outros equipamentos de transporte (-11,4%), manutenção, reparação e instalação de máquinas e equipamentos (-9,8%), produtos de madeira (-5,5%), equipamentos de informática, produtos eletrônicos e ópticos (-4,7%), celulose, papel e produtos de papel (-2,5%), produtos de borracha e de material plástico (-1,9%), e coque, produtos derivados do petróleo e biocombustíveis (-1,4%).
Em idêntico sentido, o levantamento “Indicadores Industriais”, da Confederação Nacional da Indústria (CNI), apurou redução em todas as variáveis investigadas, entre janeiro e julho de 2019, com ênfase para massa de salários reais (-1,9%), rendimento médio real (-1,7%) e faturamento real (-0,9%).
De seu turno, o motor do comércio externo brasileiro também vem acusando falhas. As exportações caíram -5,2%, entre janeiro e agosto de 2019, puxadas por manufaturados (-9,5%), com preponderância de plataformas para extração de petróleo (-68,2%), veículos de carga (-41,5%), automóveis de passageiros (-34,2%), laminados planos de ferro/aço (-20,5%), aviões (-17,0%), autopeças (-15,9%), e suco de laranja não congelado (-7,2%). As vendas para a Argentina diminuíram -39,7%.
Pelo ângulo das importações, verificou-se recuo de -2,8%, no mesmo intervalo, notadamente em bens de capital (-16,5%), bens de consumo (-5,5%), combustíveis e lubrificantes (-3,7%), devido, fundamentalmente, à situação de estagnação do mercado doméstico.
Portanto, é fácil notar que a apatia da indústria operante no país não está limitada ao episódio de Brumadinho. O retrato adverso é bastante amplo e pode ser explicado por múltiplos fatores derivados da ausência de um programa de desenvolvimento capaz de definir não apenas prioridades e instrumentos de política industrial, mas ganhadores e perdedores diretos de um novo ciclo expansivo.
O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço, que é economista, consultor, professor da FAE Business School e ex-presidente do Ipardes.








