Terra de gente que trabalha: slogan do Governo do Paraná
Em propaganda institucional plantada nos principais veículos de comunicação em setembro de 2019, o governo do Paraná vem ressaltando, de forma efusiva, os resultados de evolução da produção industrial do estado em 2019, apurados por pesquisa mensal realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
De acordo com o organismo nacional, enquanto o volume de produção fabril do país caiu -1,7% entre janeiro e julho do corrente ano, em comparação com o mesmo período do exercício antecedente, a paranaense subiu 7,2%, assumindo a liderança no cenário nacional, formado por quatorze unidades federadas acompanhadas, e representando o melhor resultado desde 2010, época do ápice do surto de consumo acontecido no final do governo Lula, quando houve acréscimo de 22,3%.
De pronto, o executivo procurou contabilizar dividendos políticos com a performance favorável e imputá-la a supostos esforços na direção da implantação de ajustes na administração pública e geração de empregos com carteira assinada, que estariam transformando o ambiente de negócios regional em uma espécie de oásis no deserto da crise nacional, ou um verdadeiro campeão no certame inter-regional de atração de investimentos estrangeiros, sintetizada na frase emblemática “terra de gente que trabalha”.
Nada poderia ser mais exagerado, parcial, equivocado e, para piorar, preconceituoso. Na verdade, uma rápida incursão sobre os números mais detalhados da investigação do IBGE permite constatar que a expressiva expansão do complexo industrial local esteve apoiada no comportamento positivo das atividades de veículos automotores, reboques e carrocerias (automóveis e caminhão-trator para reboques e semirreboques), produtos alimentícios (carnes e miudezas de aves congeladas, rações e carnes de bovinos congeladas) e máquinas e equipamentos (para colheita).
Trata-se de ramos intimamente associados à dinâmica do agronegócio, o segmento mais competitivo do aparelho de produção nacional e local, inserido em complexas e diversificadas cadeias de valor, em escala global, qualidades que foram arduamente conquistadas devido a empreitadas desenvolvidas, por mais de quatro décadas, pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), reforçadas por instâncias locais que, por sinal, convivem com flagrante processo de enfraquecimento, conduzido de maneira deliberada e indisfarçável pelas próprias autoridades.
Em paralelo, papel crucial foi exercido pela iniciativa privada, especialmente a estrutura cooperativista que, ao fazer a lição de casa da globalização, expressa em elevação das escalas técnicas e financeiras, por meio de fusões e incorporações, e escape das amarras impostas pela insuficiente competência e o desmedido intervencionismo dos poderes públicos – incapazes de prover sequer as economias externas requeridas ao funcionamento adequado do segmento, com ênfase para a desobstrução dos gargalos infraestruturais e diminuição do custo Brasil -, logrou êxito na construção de capacidade de penetração em múltiplos mercados.
Por esse diagnóstico, a primeira vista, a mensagem transmitida pelo executivo à sociedade paranaense, bancada com recursos tributários, poderia ser considerada apenas decorrência de avaliação descuidada e, por consequência, errada da marcha recente da matriz industrial regional.
No entanto, o pobre arcabouço explicativo reúne informações divorciadas da realidade, em tempo e espaço. Por exemplo, a designação do estado como protagonista na garimpagem de inversões multinacionais conflita com o “Ranking de Competitividade dos Estados de 2018”, efetuado pelo Centro de Liderança Pública (CLP), em parceria com a empresa Tendências Consultoria Integrada e The Economist Intelligence (EIU), divisão de pesquisa e análise da The Economist Group, pertencente à Revista britânica The Economist, criada em 1946.
Segundo o CLP, o Paraná seria somente o 4º estado mais competitivo do país, atrás de São Paulo, Santa Catarina e Distrito Federal (DF), tendo perdido o 3º posto para o DF justamente em 2018.
Decerto que por trás das estatísticas extraordinariamente positivas da indústria emerge o efeito de estratégias consistentes de caça a capitais produtivos, aplicadas por administrações anteriores, direcionadas à montagem de mecanismos capazes de engendrar modificações qualitativas na base econômica do Paraná, com ênfase para os períodos de Lerner (1995-2000) e Richa (2011-2014).
O primeiro foi caracterizado pela viabilização do ciclo das montadoras e respectivos supridores estrangeiros, da verticalização da agroindústria, das plantas de MDF e de papel e celulose e dos insumos da construção civil. O segundo, amparado no Programa Paraná Competitivo, arregimentou mais de R$ 40 bilhões, em projetos industriais privados, nacionais e multinacionais, para o território estadual, cuja maturação foi parcialmente bloqueada pela combinação entre a permanente discriminação política, por parte do governo federal, e a praticamente ausência de crescimento econômico no país, resumida na variação de 0,6% ao ano do produto interno bruto (PIB), entre 2011 e 2019.
O senso de oportunismo levou o marketing oficial a omitir que, no intervalo compreendido entre janeiro e julho de 2019, também segundo o IBGE, o volume de vendas do comércio varejista regional cresceu apenas 2,3%, 16º entre as 27 unidades, contra 3,8% da média nacional. Na mesma linha, a quantidade de serviços prestados encolheu -2,2% no estado, o 9º pior entre os negativos, contra incremento de 0,8% da média brasileira.
No fundo, o exame criterioso dos indicadores e, sobretudo, o imprescindível cotejo com os fatos, deveria estimular o desarme de posturas arrogantes e observações genéricas que podem transmitir a “falsa impressão” de menosprezo dos paranaenses ao esforço laboral exercido pelos residentes em outros espaços geográficos brasileiros.
Até porque, por assumirem no passado posições semelhantes a respeito da natureza de virtuosismo exclusivo do Paraná (Aqui Se Trabalha, nos anos 1960; Ilha De Prosperidade, na década de 1980; O Brasil Que Dá Certo, no decênio de 1990; dentre outros slogans triunfalistas), políticos de respeitável envergadura “caíram do cavalo”.
O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço (foto), que é economista, consultor, professor da FAE Busimess School e ex-presidente do Ipardes.








