Indústrias de refrigerantes se unem contra lobby de fábricas de concentrados

Indústrias de refrigerantes se unem contra lobby de fábricas de concentrados

Na Zona Franca de Manaus, no Estado do Amazonas, fábricas produzem ingredientes essenciais para a produção de refrigerantes, chamados xaropes ou concentrados. O valor desses produtos fabricados no PIM (Polo Industrial de Manaus) chega a ter seu preço superfaturado nas vendas em quase 2.000% se comparado ao dos produzidos em outros estados. A informação consta de levantamento publicado no livro Por Trás do Rótulo: créditos de IPI quebram setor de bebidas.

Os fabricantes de refrigerantes sofreram uma redução significativa de empresas em um intervalo de dez anos, acarretada pela concorrência desleal que vem das fábricas da Coca-Cola e Ambev, na Zona Franca. Segundo a Rais (Relação Anual de Informações Sociais), do Ministério da Economia, o número de empresas de refrigerantes passou de 339, em 2007, para 218, em 2017, o que representa uma queda de 64%.

Diretor da indústria de Refrigerantes Gold Schrin, que está localizada no Cia Norte, a cerca de 350 quilômetros de Curitiba, Paulo Pagani diz que a disputa injusta por parte das multinacionais instaladas na Zona Franca de Manaus afeta os planos futuros do negócio. “Se não houver uma mudança na parte tributária para para as grandes empresas que estão lá (em Manaus), não sei por quanto tempo as pequenas indústrias de bebidas irão sobreviver”, lamenta.

Pagani afirma que sua indústria produz a própria matéria prima, o que, segundo ele, significa um problema a menos. Ele diz que o lucro anual relacionado a vendas dos seus produtos não chega a 10% do dinheiro dos tributos pagos ao governo.

“Tem coisa mais sem noção?”, questiona o diretor da Gold Schrin. “O que ocorre lá em Manaus é uma discrepância muito grande que o governo tenta não ver. As empresas com benefícios têm o valor de produção baixa e ainda lucram por cima dos poucos impostos que lhes cabem. Elas fabricam e vendem por um preço muito alto. É um absurdo”, reclama Paulo.

O diretor acredita em uma mudança tributária que favoreça todas as empresas de bebidas para que o cenário nacional seja justo. “Estamos esperançosos. Nem tudo que é ruim dura pra sempre. Antes o nosso cenário era melhor e, nos últimos anos, está em um período difícil. Quero que seja uma fase perto de chegar ao fim para que voltemos a ter resultados melhores, não só para o setor de refrigerantes, mas para toda economia brasileira”, acrescenta.

O diretor da indústria Refrigerantes Rio Branco, que fica em Astorga, a 420 quilômetros de Curitiba, Odair Resquetti, conta que a forma que a empresa encontrou de disputar com multinacionais, como Coca-Cola, é investindo na qualidade dos sabores dos produtos. “Enquanto o favorecimento do governo na região da Zona Franca não terminar, a única maneira de disputar com essas grandes empresas é batendo de frente com um bom sabor dos refrigerantes”, afirma.

A ZFM foi criada em 1959, mas sua lei foi alterada em 1969. Mudanças que duram até hoje. Em função dos impostos quase nulos para as empresas lá instaladas, elas poderiam repassar a matéria-prima por um preço mais acessível às fábricas de refrigerantes. Porém, as indústrias de concentrados superfaturam o xarope. Elas acabam vendendo o xarope por preços bem a cima do mercado.

Odair é nascido em 1953 e trabalha na empresa desde os 11 anos de idade. Ele diz que o projeto inicial do governo em relação aos incentivos fiscais foi bem visto durante as décadas de 1960 e 1980. Mas, segundo ele, nos anos 1990, as indústrias instaladas no PIM começaram a incomodar por utilizar esses recursos concedidos para criar um esquema de superfaturamento.

“Naquele período, a Refrigerantes Rio Branco estudou uma possível compra da empresa Duas Rodas, que é a maior casa de aromas do Brasil, para transferir ao polo de Manaus. Decidimos não investir nesse negócio porque a Zona Franca era algo novo e poderia não dar certo. Então, optamos por seguir na produção de refrigerantes”, diz.

Mais de 100 empresas de bebidas são associadas da Afrebras (Associação dos Fabricantes de Refrigerantes do Brasil) e os diretores compartilham a esperança de melhorias do setor com a criação da Frente Parlamentar Mista Bebidas Brasil. Eles afirmam que a proximidade de um grande representante do setor de bebidas com o Planalto vai ser ótima para as pequenas e médias indústrias do setor.

O presidente da Afrebras, Fernando Rodrigues de Bairros, defende o fim dos créditos e incentivos fiscais da Zona Franca. “As indústrias instaladas em Manaus têm isenções de impostos pela aquisição dos insumos para produção. Assim, em uma esperteza exemplar, elas descobriram um jeito fácil de gerar bilhões em créditos e criaram o concentrado para refrigerantes”, critica.

Para Bairros, a principal luta das pequenas e médias fábricas de bebidas é pelo fim da farra tributária de empresas como Coca-Cola e Ambev. “Alguns podem achar que defendemos a saída delas da região, mas não. Exigimos apenas que essas manobras para multinacionais acabe. Assim, articulamos mudanças junto aos poderes Legislativo e Executivo e nos colocamos à disposição para que o debate tome corpo e espaço”, completa.

Mirian Gasparin

Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná.Profissional com experiência de 50 anos na área de jornalismo, sendo 48 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social.Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Também é professora titular nos cursos de Jornalismo e Ciências Contábeis da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas paranaenses, de São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos.Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 16 anos de blog, mais de 35 mil matérias foram postadas.Ao longo de sua carreira recebeu 20 prêmios, com destaque para o VII Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º e 3º lugar na categoria webjornalismo em 2023); Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005).Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.

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