Cai superávit da balança comercial em 2019

Cai superávit da balança comercial em 2019
Rio de Janeiro - Fotos do porto do Rio de Janeiro

Em 25 de janeiro de 2018, o Relatório de Mercado Focus do Banco Central projetava para 2019 um superávit na balança comercial de US﹩ 52 bilhões. No Relatório de 16 de dezembro, o superávit caiu para US﹩ 43 bilhões, um resultado próximo ao saldo acumulado até novembro divulgado pela Secretaria de Comércio Exterior que foi de US﹩ 41 bilhões.

A piora da balança comercial no acumulado até novembro está associada a uma queda de 6,4% nas exportações e um aumento nas importações de 2,1%. Observa-se que a queda no valor exportado foi puxada principalmente pela retração dos preços (-4,8%), embora o volume também registre queda (-2,0%). No caso das importações, o aumento em valor é explicado pelo volume (+2,3%), pois os preços recuaram (-4,2%).

Na comparação dos meses de novembro, entretanto, tanto o volume exportado como o importado recuaram ao redor de 11%, enquanto os preços registraram quedas similares em cerca de 5%.

O que explica a piora no desempenho exportador?

As commodities explicam cerca de 60% do valor exportado pelo Brasil e cresceram 1,8 %, em termos de volume, e seus preços caíram 4,6% na comparação do acumulado do ano até novembro. As exportações de não commodities recuaram 7,0% (volume) e 5,3% (preços) nesse mesmo período. Em novembro, todos os dois grupos registraram piora no desempenho em termos de volume e preços.

Ressalta-se que o resultado para o volume das não commodities é influenciado pela Argentina, um dos principais compradores desses bens do Brasil. Como mostra o Gráfico 3, as exportações em volume para a Argentina recuaram em 34,0% entre os acumulados do ano até novembro. O grupo “Demais da América do Sul” que como a Argentina é um dos principais compradores das não commodities, registrou recuo de 9,0%.

Além dos países da América do Sul, as exportações caíram na União Europeia (-8,9%) e na China (-2,4%), ambos compradores de commodities brasileiras. Nos dois casos, o menor crescimento econômico em relação a 2018 contribuiu para esse resultado.

Ressalta-se, porém, o aumento de 13,8% no volume exportado para os Estados Unidos, onde os dois principais produtos exportados pelo Brasil (petróleo bruto e semimanufaturas de ferro e aço) são commodities, o que ajuda a explicar o aumento do volume exportado das commodities, embora modesto (1,8%).

É preciso, entretanto, acompanhar o efeito do recente acordo entre os Estados Unidos e a China que incorpora preferências para compras de produtos agrícolas dos Estados Unidos. A soja é o principal produto de exportação do Brasil para a China e os Estados Unidos disputam esse mercado no comércio mundial. Além disso, o acordo pode inibir o aumento das exportações de carne bovina do Brasil para a China, que aumentaram 60% em valor entre janeiro-novembro de 2018/2019. Não há expectativas de aumentos nos preços das commodities agrícolas (exceto a carne por razões da peste suína na China)

A piora das não commodities não é explicada apenas pela recessão na Argentina. O Brasil enfrenta o desafio de melhorar o seu desempenho exportador das não commodities para os mercados asiáticos, que são os que têm registrado taxas de crescimento mais elevadas em comparação com as outras regiões na economia mundial. No caso das commodities o comportamento pode ser atribuído a fatores conjunturais (demanda mundial, safras, barreiras).

O que explica os resultados de aumento em volume das importações?

A variação no volume importado dos bens de capital que integram a FBCF (formação bruta de capital fixo), que recuou 6,3% na comparação do acumulado do ano até novembro. O resultado de novembro (queda de 50,5%) foi influenciada pela incorporação de compras de plataformas de petróleo em novembro de 2018) Os bens intermediários utilizados pela indústria mostram variação positiva nas duas bases de comparação e aumentaram 6,5% em novembro, e os bens intermediários da agricultura mostram variação positiva na comparação do acumulado, mas negativa na comparação mensal (questões de safras).

Melhora no nível de atividade da indústria do segundo semestre seria o principal fator. A desvalorização cambial em 2019 (Gráfico 5) e expectativas de uma queda no câmbio em 2020 em tese contribuiriam para retardar as compras, mas não é o que se observa.

Num cenário de incertezas, que se reflete na instabilidade cambial, os momentos de desvalorização cambial não têm impulsionado as exportações ou retraído as importações. Sabe-se que os efeitos das mudanças cambiais demoram a se fazer presentes, mas no incerto cenário atual mundial e do Brasil, essa demora se estende por um tempo mais longo.

Enfim, a história mostra que projeções da balança comercial realizadas no início do ano tendem a ser constantemente alteradas. Nesse caso, mais importante que acertar a projeção é entender o que ocorreu.

Dados por setores

Os resultados dos volumes exportados e importados por tipo de indústria. A atividade de agropecuária é a única que apresenta resultados com variações positivas nos volumes exportados seja na comparação mensal ou no acumulado.

Nas importações, a agropecuária registrou aumentos nas duas bases de comparação. A extrativa mostrou um aumento de 25,6% na comparação mensal (petróleo e seus derivados) e queda no acumulado do ano. A indústria de transformação uma queda de 13,7% na comparação mensal (o que seria esperado com a desvalorização cambial), mas um aumento na comparação do ano até novembro (2,6%).

Observa-se, portanto, que o efeito de defasagem do câmbio sobre os volumes de comércio estaria começando a se fazer presente nas compras de produtos da indústria de transformação. No entanto, com a expectativa de maior crescimento do PIB para 2020 e queda na taxa de câmbio, o resultado de novembro poderá não se repetir.

A variação no volume entre o acumulado do ano de 2018/2019 das categorias de uso da indústria de transformação. Chama atenção a queda dos bens de capital e dos bens duráveis de consumo nas exportações e das mesmas categorias nas importações. O que sugere recuo no comércio intra-indústria, em especial com a Argentina.

Por último, o comércio exterior terá um efeito positivo sobre a economia brasileira nesse ano?

Em termos de contribuição para o PIB foi observado que o volume importado cresceu mais que o exportado. E, em relação a um efeito renda associado aos termos de troca, depois de uma melhora atribuída ao minério de ferro no primeiro semestre de 2019, as projeções para os preços das commodities são de estabilidade e/ou queda.

Mirian Gasparin

Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná. Profissional com experiência de 50 anos na área de jornalismo, sendo 48 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social. Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Também é professora titular nos cursos de Jornalismo e Ciências Contábeis da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas paranaenses, de São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos. Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 16 anos de blog, mais de 35 mil matérias foram postadas. Ao longo de sua carreira recebeu 20 prêmios, com destaque para o VII Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º e 3º lugar na categoria webjornalismo em 2023); Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005). Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.

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