O esperado espetáculo da retomada econômica brasileira em 2020

É quase consensual o diagnóstico reinante nos meios especializados de que a economia brasileira fechará as cortinas do espetáculo de 2019 em situação melhor do que a exibida no encerramento de 2018 e pior daquilo que esboçavam as expectativas iniciais para o corrente exercício, ancoradas especialmente nos novos contornos e rumos delineados pela orientação ortodoxa-liberal do novo governo.

A postura de restauração do otimismo dos agentes manteve-se até o começo do 2º trimestre, quando foi revertida em razão da percepção de falta de um projeto de desenvolvimento consistente, da priorização de uma única reforma estrutural, a da previdência, e da frágil articulação política estabelecida entre executivo e legislativo.

A aprovação das modificações no aparato previdenciário, mais por esforço do congresso do que do Palácio do Planalto, ainda que bastante enfraquecida vis a vis a proposta original, serviu de elemento sinalizador de abrandamento do desequilíbrio crônico das finanças públicas, em longo termo.

Isso, ao lado de algumas iniciativas heterodoxas, absolutamente fora dos planos iniciais da equipe de Paulo Guedes, como autorização de resgate de parte dos saldos das contas ativas e inativas do FGTS e cotas do PIS/PASEP, e deflagração de novas rodadas de diminuição dos juros primários, em linha com inflação inferior ao centro da meta anual de 4,25%, fixada pelo Conselho Monetário Nacional (CMN), promoveu uma espécie de devolução cautelosa do ânimo dos empresários e consumidores, aspecto atestado por praticamente todas as sondagens qualitativas, realizadas pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) e entidades de classe, como a Confederação Nacional da Indústria (CNI) e Confederação Nacional do Comércio (CNC).

Aliás, a passagem das novas regras de aposentadorias e pensões no parlamento e a manobra dos juros propiciou o rompimento de uma tradição brasileira, marcada por comportamento inverso entre curva do mercado acionário e moeda americana, consideradas modalidades de aplicação de risco, evidenciado pelos recordes registrados no índice Bovespa e na cotação do dólar no mercado doméstico.

Embora alguns eventos de bruscas oscilações daquelas variáveis possam ser imputados a manifestações afoitas e/ou equivocadas do staff econômico, abarcando o próprio ministro, e até do presidente da república, a valorização do dólar e das ações no país constitui sinal e direção perenes, extremamente benéficas ao ambiente de negócios, atrelados essencialmente ao curso dos juros básicos, coincidentemente em fase com o padrão global.

Além de favorecer substancial diminuição das despesas de rolagem da dívida pública e, por extensão, da atratividade dos bônus financeiros convencionais, a contração dos juros inibe a entrada líquida de recursos especulativos no país, e incita a busca de alternativas de garimpagem de haveres de terceiros no front interno e o deslocamento do campo de observação dos investidores para carteiras de papéis diretamente associadas à produção de bens e prestação de serviços.

No entanto, há apreciável chão pela frente até o alcance da retomada expansiva em bases sólidas. Isso porque, em 2019, o desemprego continuou em moderada marcha decrescente, o mercado de ocupações prosseguiu com quase 50% informalidade da mão de obra ocupada e pouco menos de ¼ da força de trabalho amarga incômoda condição de subutilização (desocupação aberta, jornadas insuficientes e desalento).

Na mesma balada, o endividamento e inadimplência das famílias brasileiras situam-se em escalas recordes, o parque fabril opera com enormes margens de capacidade ociosa e os componentes da corrente de comércio externo (exportações e importações) vêm sofrendo retração, em um estágio de intensificação do modus operandi da quarta revolução industrial no mundo.

Rigorosamente, apenas o volume de vendas do comércio varejista e dos serviços prestados reuniram elementos de reação, ainda que amparados nos segmentos portadores de elevada concentração de renda, caso da comercialização de bens duráveis (cadeias automotiva e de eletrodomésticos) e tecnologia da informação.        

Por tais razões, a despeito de ter deixado da UTI recessiva, na qual ficou entre abril de 2014 e dezembro de 2016, o organismo econômico nacional termina o terceiro ano seguido em estado de internamento na enfermaria da estagnação, com recuperação de menos de 40,0% da saúde perdida nos tempos de depressão.

Mesmo que a cura da doença seja morosa, a liberação hospitalar pode acontecer em 2020. Basta o paciente prometer à equipe médica a adoção de posturas racionais, expressas, ainda que em clima de exacerbação dos interesses acoplados às eleições municipais, a intensificação de esforços no sentido da viabilização da ampliação da concorrência bancária, mirando o barateamento do custo do crédito aos tomadores finais (para inversões, giro e consumo), do abrandamento do sistema de cobrança de impostos e da implantação de um crível e transparente programa de privatizações e concessões.

Por certo, as repostas dos atores serão tão boas que poderão causar a falsa impressão de que nada mais é necessário para o embarque do país na locomotiva do crescimento global e efetiva participação e representação do papel de protagonista no show. Feliz 2020.

O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço, que é economista, consultor e ex- diretor presidente do IPARDES.

Mirian Gasparin

Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná.Profissional com experiência de 50 anos na área de jornalismo, sendo 48 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social.Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Também é professora titular nos cursos de Jornalismo e Ciências Contábeis da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas paranaenses, de São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos.Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 16 anos de blog, mais de 35 mil matérias foram postadas.Ao longo de sua carreira recebeu 20 prêmios, com destaque para o VII Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º e 3º lugar na categoria webjornalismo em 2023); Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005).Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.

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