Esforços de destruição do debate econômico

Uma observação atenta do ambiente interpretativo da evolução da conjuntura econômica e social do país permite perceber apreciável perda de qualidade e rigor dos princípios científicos utilizados, o que vem prejudicando a montagem de cenários consistentes e a proposição de alternativas de intervenções públicas e corporativas para consolidação ou negação das tendências identificadas nas análises.

Tal fenômeno reflete ao menos três anomalias. A primeira delas reúne a propagação da radicalização ideológica – bastante presente nas eleições de 2014, passando pelo impeachment de Dilma Rousseff, em 2016, e alcançando o ápice desde o evento político de 2018 – para redutos tradicionais dedicados a estudos de conteúdo eminentemente técnico e até entidades de classe (empresários e trabalhadores), magnificada nas mídias sociais e referendada, em várias ocasiões circunstanciais, pela imprensa em geral, presa a uma suposta neutralidade e carregada de superficialidade.

As exceções abarcam determinados grupos plurais, hospedados na Internet, incitadores do confronto de ideias e o cotejo de opiniões, no afã da arregimentação de soluções para abrandamento, ou até eliminação, das incontáveis mazelas que afligem o cotidiano nacional. Dentre eles sobressai: “Index Econômico”, “Conjuntura Macroeconômica”, “Economistas” e “Economistas Brasileiros”.

A segunda falha na produção de elementos relevantes à feitura de diagnósticos e prescrição de terapias para a instauração de climas virtuosos aos negócios pode ser imputada à proliferação de posturas passivas, incluindo atitudes de retrocesso, tomadas por organizações classistas, entes de governo e agentes privados.

Apenas sublinhando algumas ocorrências regionais, o sistema FIEP enterrou o esforço de geração de indicadores industriais, sustentado em pesquisas mensais feitas junto ao empresariado fabril, desde os anos 1980, itens cruciais para o exercício de tomada de decisões das companhias.

Em linha análoga, o Instituto Paranaense de Desenvolvimento Econômico e Social (IPARDES), surgido como braço de investigação socioeconômica do Banco de Desenvolvimento do Paraná (BADEP), em 1973, abdicou do cálculo do índice de preços ao consumidor (IPC) do município de Curitiba, que possuía periodicidade mensal desde a criação da entidade e amparava acordos e dissídios conduzidos por alguns sindicatos.

O órgão de pesquisa também fechou sua Biblioteca (física e virtual) e interrompeu a veiculação do Boletim “Análise Conjuntural” (AC), produzido desde 1979 com o propósito de entender e explicar as flutuações cíclicas das atividades produtivas regionais vis a vis os movimentos da economia internacional e nacional. Os números do AC anteriores a janeiro-fevereiro de 2019, quando a publicação foi descontinuada, até 2010, podem ser acessados em meio digital.

Do ângulo das escolas de Economia mais famosas, a FAE Centro Universitário enviou ao paredão de fuzilamento a revista eletrônica mensal “Vitrine da Conjuntura”, elaborada desde 2008, em substituição ao periódico “FAE Intelligentia”, e que visava estimular o debate propositivo de assuntos relacionados à atmosfera econômica global, brasileira e local, com participação da comunidade acadêmica e empresarial.

O conjunto histórico da Vitrine, constituído por 120 edições veiculadas entre março de 2008 e dezembro de 2019, foi simplesmente suprimido do site da instituição, o que constitui cerceamento a eventuais consultas dos usuários aos temas tratados e artigos preparados, no transcorrer de doze anos, alguns dos quais oportunizaram a disponibilização de material para eventos internos de produção científica.

O terceiro eixo determinante da rota cadente do debate econômico diz respeito ao enfraquecimento das atividades de ensino, pesquisa e extensão, nos espaços de formação de terceiro grau, transbordado para o terreno dos mestrados e doutorados, derivado essencialmente de crescentes restrições orçamentárias, o que tem deixado universidades públicas à mingua.

No entanto, a patologia tem se estendido à educação superior privada que, apoiada, em praticamente uma década e meia, em haveres oficiais subsidiados – via PROUNI e Fies, principalmente -, desprezou a preparação e oferta de matrizes curriculares compatíveis com as rápidas e permanentes transformações verificadas no mercado de ocupações e de empreendedorismo.

Em consequência, o segmento acusou fortemente a drástica diminuição dos aportes indiretos de recursos orçamentários governamentais e do número de estudantes matriculados, inconvenientes acoplados a mais longa e profunda recessão e estagnação experimentada na história da república nacional, registrada de abril de 2014 até os dias de hoje.

Não bastasse essa adversidade, não poucas instituições, carentes de visão e planejamento de longo termo, realizaram, nos intervalos das vacas gordas alimentadas pelo Estado, a opção estratégica pelo endividamento para erguimento de novas unidades físicas, em contraposição ao exponencial avanço das ações docentes e discentes à distância, em sua maioria de excelente nível, por sinal.

Os desdobramentos das escolhas erradas englobaram o retorno do protagonismo dos dirigentes “cabeças de planilha”, empenhados exclusivamente em viabilizar a faxina na “boca do caixa” em detrimento de incursões estruturais capazes de restaurar projetos de formação acadêmica aderentes às contemporâneas e mutantes exigências do reduto absorvedor dos profissionais ofertados.

Logo, constatou-se flagrante deterioração dos padrões de ensino, flexibilização das regras de aprendizado e critérios de aprovação e minimização da adoção dos itens disciplinares dos regimentos internos, com o interior de muitas salas de aula configurando lócus privilegiado de espera dos orgasmos proporcionados pelo Google for Education e troca de inoportunas mensagens de WhatsApp entre os estudantes.

Certos palcos foram marcados pelo aparecimento do “aluno de confiança” dos coordenadores, verdadeiro fiscal de professores, contrastando com os infiltrados dos tempos de ditadura militar, encarregados de redobrada atenção às “palavras, atos e omissões” dos colegas. Daí a onda sem precedentes de operações de incorporações patrimoniais, o que intensificou a natureza oligopolista do setor.

Sem dúvida, os três vetores de deliberações destrutivas servem para debilitar a produção de informações e formulação de conhecimentos dirigidos à ampliação da cesta de elementos úteis à organização do arcabouço decisório privado e à concepção e implantação de programas de desenvolvimento, nas três esferas de administração pública, factíveis a partir de reflexões e negociações maduras e acordos transparentes e estáveis entre governo e representantes da sociedade civil organizada (empresários, trabalhadores, Ongs, dentre outros).

A brecada no empobrecimento da discussão econômica depende, inevitavelmente, do firme ingresso dos organismos de representação de classe nesse duro certame. Nele, as lacunas deverão ser ocupadas menos com a apreciação do varejo das relações coletivas, como conselhos e dicas acerca de finanças pessoais, e mais com o levantamento de questões cruciais à superação da crise brasileira e da federação.

Só assim, aquelas entidades poderão transformar-se em efetivos portadores de fatores de ajuste negociado entre os diferentes estratos sociais afetados, com seus respectivos anseios e interesses.

O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço (foto), que é economista, consultor, foi diretor-presidente do IPARDES entre 2011 e 2014.

Mirian Gasparin

Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná.Profissional com experiência de 50 anos na área de jornalismo, sendo 48 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social.Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Também é professora titular nos cursos de Jornalismo e Ciências Contábeis da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas paranaenses, de São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos.Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 16 anos de blog, mais de 35 mil matérias foram postadas.Ao longo de sua carreira recebeu 20 prêmios, com destaque para o VII Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º e 3º lugar na categoria webjornalismo em 2023); Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005).Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.

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