Coronavírus, moléstia institucional e estagnação do PIB brasileiro

É praticamente consensual o diagnóstico de que o alastramento da doença provocada pelo Coronavírus, começando na China e se propagando para os demais continentes, deve aprofundar a situação de desaceleração da economia mundial, delineada ainda em 2019, a partir especialmente da deflagração e acentuação da guerra comercial entre as duas maiores potências.

Enquanto o lado real deve reproduzir a ruptura das interligadas cadeias de suprimento, preponderantemente de bens intermediários (matérias primas, peças e componentes), por conta do expressivo declínio do comércio, puxado pelo consumo das famílias, e turismo e paralisação e fechamento de unidades industriais, a órbita financeira tende a prosseguir registrando movimentos recordes de apreciação nominal do dólar e desvalorização das ações das companhias, além da fuga de capitais para os papéis do governo americano.

Tanto é assim que a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) reduziu a previsão de expansão do produto interno bruto (PIB) mundial, em 2020, de 2,9% para 2,4%, a menor desde 2009, período de começo da recuperação da turbulência causada pela quebra do segmento hipotecário de segunda linha dos Estados Unidos (EUA).

No documento “Coronavírus: a economia mundial em risco”, a entidade também recomendou a adição de estímulos fiscais aos monetários, que já vem sendo empregados, para a reversão do processo contracionista, como se as restrições à marcha da economia fossem de liquidez e não de demanda.

De pronto, o Federal Reserve (Fed), banco central dos EUA, decidiu, em encontro emergencial, reduzir a taxa básica de juros em 0,5 ponto percentual, fazendo-a recuar para a baixa entre 1,0% ao ano e 1,25% a.a. Em nota, o Comitê Federal de Mercado Aberto justificou a providência extraordinária – algo que não acontecia desde 2008 – como anteparo aos efeitos econômicos negativos do Coronavírus nos níveis de emprego e inflação daquele país.

No Brasil, os desdobramentos dos sinais cadentes dos mercados globais devem assumir contornos mais dramáticos em face da natureza imprevisível e a destacável capacidade de produção de fatores de instabilidade, por parte do comando político do país, com inestimável apoio dos membros da família, ministros de estado e milícias digitais, hospedadas inclusive no interior do Palácio do Planalto.

A mais recente incursão, avessa aos princípios democráticos elementares, repousa na convocação da população para a realização de protestos de rua dirigidos prioritariamente contra o Congresso Nacional e Supremo Tribunal Federal (STF), considerados verdadeiras barreiras institucionais à continuidade da recuperação do crescimento econômico e inclusão social da nação.

Há poucas dúvidas de que o atual legislativo preservou, de forma, irretocável as bases fisiológicas herdadas de seu predecessor, centradas na ferrenha busca de acertos orçamentários promíscuos com o executivo que, no “frigir dos ovos” servem apenas para lesar a coletividade supostamente representada.

O denominado “parlamentarismo branco”, traduzido na apropriação da agenda de reformas do governo pelo congresso, representa a esperança de vida eterna do ao “presidencialismo de cooptação”, resumido n o repúdio da casa de leis à resistência da gestão Bolsonaro no loteamento político dos ministérios e cessão de fatias adicionais da peça orçamentária acopladas a interesses cartoriais.

Na mesma linha, quanto ao poder judiciário, algumas inferências comparativas permitem apreender que, no Brasil, esse ente ocupa o topo da lista de campeões planetários em gastos, morosidade, arrogância, posturas contraditórias e/ou pouco compreensíveis e ineficiência, absorvendo cerca de 2,0% do PIB por ano, contra 0,2% do PIB nos EUA, por exemplo.

Essas flagrantes, preocupantes e crônicas anomalias impõe a feitura de pressões e empenho coletivo na direção da construção de radicais alterações no arcabouço político e judiciário do país, seguindo rigorosamente as prescrições contidas na Carta Constitucional.

A esse respeito, o saudoso Dr. Ulisses Guimarães, presidente do Congresso Constituinte de 1987/1988, defendia que, embora o texto constitucional devesse ser respeitado, a magnificação de ambientes democráticos pressupõe a ocorrência de manifestações de divergências do mesmo que, se avaliadas procedentes, devem gerar alterações por meio da apresentação, discussão e aprovação de projetos de emendas.

Por tudo isso, é dispensável o selo de arguto observador do clima conjuntural para inferir que parcela relevante da disparada da cotação da moeda americana e despencada dos preços dos ativos dos balcões acionários no Brasil pode ser imputada à ausência de uma agenda programática da aliança hegemônica de poder, depois de um ano e dois meses de mandato.

Ao contrário, a despeito das frequentes declarações de interesse na execução do bloco de modificações estruturais, o governo não vem escapando de negociações maduras, desprovidas de provocações ideológicas e/ou desprezo às agremiações partidárias, preferindo estabelecer linhas de comunicação diretas com seus fieis seguidores nas mídias sociais.

A moléstia de conduta nervosa, agressiva, deformada, inconsistente, irresponsável e desestabilizadora do presidente e staff serve para alimentar a onda de ressurgimento do pessimismo, acoplada ao quadro estagnação econômica doméstica e à generalização e multiplicação dos casos de Coronavírus no mundo, incitando o retorno de posições cautelosas dos agentes em relação às decisões de longo prazo, sobretudo quanto às inversões produtivas em território nacional.

A respeito da apatia da economia brasileira, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o PIB do país cresceu 1,1% em 2019, acumulando variação de 3,6% em três anos, o que recompõe apenas 42,0% das perdas de -8,6% amargadas no intervalo recessivo compreendido entre abril de 2014 e dezembro de 2016.

O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço (foto), que é economista, consultor e foi diretor presidente do IPARDES entre 2011 e 2014.

Mirian Gasparin

Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná.Profissional com experiência de 50 anos na área de jornalismo, sendo 48 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social.Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Também é professora titular nos cursos de Jornalismo e Ciências Contábeis da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas paranaenses, de São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos.Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 16 anos de blog, mais de 35 mil matérias foram postadas.Ao longo de sua carreira recebeu 20 prêmios, com destaque para o VII Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º e 3º lugar na categoria webjornalismo em 2023); Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005).Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.

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