Nova ferramenta prevê perdas bilionárias no setor de carne

Um novo modelo financeiro vai ajudar os investidores a entender os impactos das mudanças climáticas nas companhias do setor de carnes. A Coller FAIRR Climate Risk Control, ferramenta de risco climático da FAIRR Initiative, oferece um modelo inovador, on-line, para quantificar os riscos e as oportunidades das empresas de proteínas em um cenário de 2°C de aquecimento global.
A FAIRR, rede de investidores institucionais com US$ 20 trilhões sob gestão, desenhou a ferramenta com base nas recomendações da Força-Tarefa sobre Divulgações Financeiras Relacionadas ao Clima (TCFD).
Cinco gigantes de alimentos foram submetidos à ferramenta de análise. O resultado: os prováveis impactos físicos das mudanças climáticas e o rápido crescimento de proteínas alternativas podem levar perdas bilionárias a empresas como Minerva, BRF e JBS.
O modelo identifica sete riscos principais para a lucratividade do setor de carnes no cenário do Painel Internacional sobre Mudanças Climáticas (IPCC), de temperatura global 2°C mais alta até 2050. Os riscos incluem alta da mortalidade animal devido a estresse térmico, rações mais caras devido ao baixo rendimento das plantações e aumento do custo da eletricidade devido ao preço do carbono.
Prevê ainda que “proteínas alternativas”, como hambúrgueres à base de plantas, abocanharão pelo menos 16% do mercado atual de carne, elevando a fatia para 62% com base em fatores como taxas de adoção de tecnologia, tendências do consumidor e um imposto sobre o carbono na carne.
Empresas com alta exposição à carne bovina, como a gigante brasileira JBS, enfrentam riscos sem uma estratégia clara de adaptação climática. É provável que o setor geral de carne bovina seja atingido com força _ uma perda de participação de mercado devido ao aumento da temperatura, resultando em mortalidade de gado e produtividade reduzida, além de maior exposição a novos impostos sobre os segmentos que mais consomem carbono.
Substituir “espécies com menor consumo de carbono”, como aves, é uma opção, mas existem contrapartidas, incluindo custos mais altos de eletricidade e energia (a produção de aves requer mais energia que a de carne bovina) e os custos voláteis de alimentação.
A Coller FAIRR Climate Risk Control identifica três caminhos que podem ser adotados pelas empresas. Esta escolha definirá a extensão de sua oportunidade positiva ou risco negativo:
Caminho regressivo ao clima: a empresa mantém a posição de mercado em 2020, sem participação de mercado em proteínas alternativas e com participação de mercado acima da média de espécies intensivas em carbono, como carne bovina, em 2050.
Caminho neutro de mercado: a empresa se desenvolve no mesmo ritmo da média do mercado e aumenta a participação de proteínas (convencionais e alternativas) em linha com a média do mercado em 2050.
Caminho progressivo climático: A empresa possui uma participação de mercado mais alta do que a média de proteínas alternativas e muda a mistura de ração e gado para culturas e espécies menos influenciadas pelo clima em 2050.
Em uma pesquisa junto a 44 das maiores empresas de carne listadas no mundo – listadas no Coller FAIRR Protein Producer Index – apenas uma (Tyson Foods) divulgou publicamente uma análise de cenário relacionada ao clima, apesar de tal análise ser recomendada pelo TCFD.
_ Como o setor de carnes e laticínios não planeja proativamente o risco climático, conforme sugerido pelo TCFD, não resta aos investidores outra opção a não ser tomar o assunto por conta própria e fazer a análise _ disse Jeremy Coller, fundador da FAIRR e diretor de investimentos da Coller Capital.
Cenário piloto
Para ilustrar o modelo, a FAIRR realizou uma análise do cenário piloto em cinco gigantes de proteína animal (BRF, JBS, Maple Leaf, Minerva e Tyson Foods), que, juntas, têm valor de mercado de US$ 50 bilhões (fevereiro de 2020).
Quaisquer resultados do modelo da FAIRR são altamente dependentes dos parâmetros de entrada, e o modelo enfatiza que todas as empresas têm o potencial de transformar o risco climático em oportunidade positiva, escolhendo um “caminho progressivo climático”. No cenário ilustrativo, que pressupõe altas taxas de crescimento alternativo de proteínas, o modelo constatou que a canadense Maple Leaf poderia ver o EBITDA crescer 77% em um caminho progressivo climático, em virtude de seus significativos investimentos em proteínas alternativas e sem exposição à carne bovina. Hoje, a Maple Leaf é o único produtor de carne que divulga detalhes sobre as vendas de proteínas vegetais.
Por outro lado, os gigantes brasileiros da carne JBS e BRF poderão ver o EBITDA cair em 45% e 30%, respectivamente, se não melhorarem a participação de mercado em proteínas alternativas e não reduzirem a exposição à carne bovina e de aves (ou seja, escolher uma via regressiva ao clima).
O cenário de 2°C com base em fontes de cenário climático estabelecidas, incluindo os relatórios do IPCC. O modelo inclui as proteínas animais mais amplamente produzidas e consumidas em todo o mundo (carne bovina, aves e suínos) e concentra-se em regiões com grandes produtores de carne: Brasil, Canadá e EUA. O objetivo é fornecer uma indicação da tendência no desempenho financeiro de uma empresa e não proclama prever previsões de desempenho exatas e precisas, pois os cenários prospectivos são inerentemente altamente incertos.
O modelo se apoia em uma ferramenta on-line interativa, disponível apenas para os membros investidores da FAIRR, na qual os usuários podem inserir dados para avaliar os impactos na empresa. Veja em: https://www.fairr.org/climate-risk-tool








