Covid-19 e o tamanho da crise econômica global
É praticamente generalizada a avaliação de dirigentes das principais nações e argutos analistas dos movimentos da economia internacional de que a indesejável, ainda que absolutamente normal em sistemas capitalistas interligados, etapa de desaceleração cíclica, iniciada em 2018, se transformará na maior Depressão de todos os tempos, em razão, exclusivamente, dos impactos sanitários, econômicos e, principalmente, sociais, da pandemia do Coronavírus que vem se alastrando, na forma de efeito cascata, com não poucas chances de reprodução em retorno.
Depois de hesitações e até manifestações de condutas de minimização do fenômeno pandêmico, a percepção “na carne” da intensidade de propagação e magnitude do fenômeno levou governos e bancos centrais a optarem pela abertura das comportas do gasto público e do crédito, respectivamente, expressa em pacotes de socorro dotados de cifras trilionárias, concebidos e executados para suprimento de liquidez e recursos fiscais às cadeias produtivas articuladas à saúde e à sobrevivência de empresas e empregos.
Trata-se de planejamento e estratégias semelhantes, aplicadas pelos diferentes países, a despeito das diferenças de inclinações ideológicas e dimensões dos blocos de estímulos anunciados pelos vários governantes. Ainda assim, é visível o déficit de coordenação global a respeito do isolamento social, o que pode vir a multiplicar os cenários de repetição do surto do vírus e, em consequência, impor novos confinamentos de pessoas e acentuar e prolongar o mergulho recessivo.
A propósito disso, a Organização Mundial do Comércio (OMC) estimou queda entre 13% e 32% no comércio mundial em 2020, sendo as áreas mais afetadas aquelas polarizadas por Estados Unidos (EUA) e Ásia. Conforme a entidade, a corrente de comércio de mercadorias e as exportações caíram -0,1% e -0,3%, respectivamente, em 2019, fortemente influenciadas pelas tensões comerciais entre EUA e China.
Na mesma linha, o Banco de Compensações Internacionais (BIS), efetuou uma investigação detalhada, focada nos reflexos da Covid-19 sobre a economia mundial, enfatizando a probabilidade de arraste do encolhimento do Produto Interno Bruto (PIB) por alguns trimestres.
Partindo do pressuposto de representar um brutal choque sanitário, de oferta e demanda jamais acontecido na história do planeta, marcado por extensas quarentenas paralisadoras dos fluxos de produção e distribuição por semanas e meses, o estudo fez algumas simulações que denotam declínio do PIB global entre -2,5% e -5,0%, no corrente exercício.
Mais que isso, a contração no modo “V”, caracterizada por rápido e agudo decréscimo dos níveis de atividade, seguida por recuperação em praticamente igual medida, parte da hipótese, bastante otimista, por sinal, de estragos na China restritos ao 1º trimestre de 2020. Já, os danos atingiram a Europa na primeira metade de 2020 e aproximadamente 75% da destruição nos EUA e outros emergentes acontecerá no 2º trimestre.
O relatório contempla previsões ainda mais sombrias, amparadas na ocorrência de nova onda da epidemia, por conta da não identificação de tratamento eficaz contra a doença, dado que o processo de descoberta de vacinas, seguido da feitura de testes, validação e aplicação em massa, revela-se mais demorado. Se, decorridos dois trimestres do 1º estágio, esse quadro adverso se confirmar, os desdobramentos do regresso de expedientes de isolamentos descoordenados pode resultar em recuo entre -8,5% e -11% do PIB mundial.
Por essa ordem de raciocínio, o curso pendular obedeceria ao formato W (reativação sucedida por retração) e o ambiente cadente persistiria até o começo de 2021, o que maximizaria a instabilidade e atrasaria, por um semestre, o reerguimento do organismo de transações, previsto no tipo V.
A negação e derrubada da alternativa portadora de maior dramaticidade, associada ao ressurgimento do vírus, exigirá firme sincronização global das providências dirigidas à imposição de barreiras sociais e recolhimentos totais, amplos no terreno regional, considerando a impossibilidade de êxito de controles locais de caráter exclusivo.
Igualmente relevante seria a busca de otimização dos empenhos macroeconômicos dos vários países, especialmente nos espaços continentais, por meio do emprego de medidas concatenadas em lugar de ações meramente unilaterais, na maioria das vezes atabalhoadas e insuficientes. Por certo, a complexidade e envergadura do problema permitirá a eclosão de soluções compartilhadas.
Nessa perspectiva, é curioso notar que dentre as raras exceções à regra de reconhecimento da gravidade da crise e necessidade de realização de vultosos esforços anticíclicos destaca-se o chefe de estado brasileiro, ancorado em legiões digitais desviadas da lógica elementar, o que vem atrapalhando a viabilização das imprescindíveis iniciativas intervencionistas na saúde, economia e tecido social e exacerbando as expectativas negativas demonstradas pelos mercados de risco (câmbio e dólar).
O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço (foto), que é economista, consultor, foi diretor presidente do IPARDES entre 2011 e 2014.








