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Óleos combustíveis sustentaram vendas externas da Petrobrás no primeiro trimestre

O relatório de produção e vendas do primeiro trimestre de 2020 divulgado pela Petrobrás nesta terça-feira (28/4) mostra que a companhia não sofreu significativamente os impactos da Covid-19 nos primeiros três meses deste ano. Entretanto, de acordo com a análise do Instituto de Estudos Estratégicos em Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (INEEP), tal situação não deve se repetir no trimestre atual, quando a pandemia está atingindo seu auge no Brasil e afetando drasticamente o consumo interno de combustíveis.

O INEEP aponta que  parte significativa dos resultados de janeiro a março deste ano foram garantidos pelas exportações de óleos combustíveis, produzidos em sua maioria nas refinarias da Região Nordeste que a Petrobrás mantém em seu plano de desinvestimento, bem como de petróleo cru principalmente para China, cuja demanda também deve sofrer nos próximos meses. 

Na produção, em relação ao primeiro trimestre de 2019, quando a extração de óleo foi relativamente mais baixa por conta de paradas programadas, a produção de óleo, LGN e gás natural cresceu 16,1% de janeiro a março deste ano, saltando de 2,46 milhões de barris por dia (mbpd) para 2,86 mbpd no primeiro de 2020. Em relação ao último trimestre de 2019, porém, houve queda de 2,8%. Todavia, por conta da Covid-19, a expectativa do mercado era de que os impactos seriam significativamente maiores.

A produção de derivados também cresceu, de 1,74 mbpd no 1T2019 para 1,84 no primeiro trimestre de 2020. Com isso, o fator de utilização das refinarias saltou de 75% para 79%.

Nesse ponto, o INEEP destaca o aumento da produção de óleos combustíveis (diesel, bunker, fuel oil etc.), que tem sido puxado pelas refinarias do Nordeste. No primeiro trimestre de 2019, a produção da Petrobrás foi de 13,4 milhões de barris, e, no 1T2020, foi de 18,8 milhões de barris, aumento de 39%. Grande parte desse crescimento foi sustentado por RLAM (Bahia), RNEST (Pernambuco), RPCC (Rio Grande do Norte) e Lubnor (Ceará), que, juntas, representaram 56% da produção de óleos combustíveis da empresa no primeiro trimestre deste ano.

A produção de óleos combustíveis das quatro refinarias, que integram o plano de desinvestimento da Petrobrás, cresceu 62% entre os primeiros trimestres de 2019 e 2020. E na atual conjuntura, onde as exportações de petróleo cru da Petrobrás estão caindo e devem seguir essa tendência, essas plantas parecem ter papel estratégico para a petrolífera brasileira, caso a opção seja se consolidar nas exportações de bunker.

Queda na demanda interna

Mesmo com a queda da demanda interna, em razão do isolamento social, não ter impactado de maneira intensa os resultados, a diminuição do consumo de derivados em março produziu uma redução das vendas da Petrobrás no primeiro trimestre de 2020.

O volume de vendas no mercado interno caiu 5,4%, saindo de 2,07 mbpd para 1,95 mbpd entre os primeiros trimestres de 2019 e de 2020. Todavia, em termos financeiros, essa queda foi mais do que compensada pelas exportações de petróleo cru e seus derivados, que subiram 55,3% no mesmo período (de 664 mil barris por dia para 1,03 mbpd). Com efeito, o volume de vendas da empresa, entre o primeiro tri de 2019 e o primeiro tri de 2020, aumentou 6,0%.

O INEEP destaca que a tendência é que a partir de abril o cenário piore significativamente. Dados já divulgados pela própria Petrobrás mostram uma queda impressionante do consumo de derivados, principalmente de querosene de aviação e gasolina. No caso do querosene de aviação, a queda foi superior a 80%. 

Além disso, em termos globais, estimativas de diferentes consultorias apontam uma retração enorme da demanda por petróleo, o que certamente afetará ainda mais para baixo as exportações de óleo cru da companhia brasileira. A Rystad Energy, por exemplo, projeta que, entre abril e maio, na média, tal retração será da ordem de 20 mbpd (cerca de 20% da demanda mundial).

Para lidar com esse cenário, a Petrobrás comunicou a redução da produção de óleo em abril para 2,07 MMbpd e o fator de utilização das refinarias para 60%, ao mesmo tempo em que reforçou a capacidade logística de exportação de petróleo cru, diesel e óleo combustível. Em suma, a companhia apresenta cerca de cinco diretrizes para lidar com a crise: redução na produção de petróleo; redução de custos operacionais; otimização das produção de derivados, em favor do GLP e dos produtos com demanda por exportação; exportação de petróleo cru para a Ásia e exportação de óleo combustível para diferentes mercados, com foco também na Ásia.

Com base nisso, o INEEP fez a seguinte análise:

Demanda de derivados no mercado interno

De fato, dada a queda abrupta pela demanda de derivados de petróleo, com exceção do GLP (cuja demanda cresceu cerca de 17,8% no período de isolamento social), a estratégia da Petrobras necessita minimizar o máximo possível a redução da fator de utilização de suas refinarias, visando atender esse aumento do consumo de GLP bem como à demanda externa por alguns derivados. 

Exportação de derivados 

Em fevereiro de 2020, a Petrobras atingiu seu recorde nas exportações de óleo combustível (238 mbpd) e, na média do primeiro trimestre de 2020, foram vendidos para exterior 174 mbpd, um valor 50,0% que as exportações do primeiro trimestre de 2020. Esse desempenho se deve principalmente às exportações de bunker (combustível marítimo) e óleo combustível com baixo teor de enxofre. Além disso, as exportações de outros derivados, como o diesel, também cresceram no período. 

Segundo dados da Secex, as exportações de óleos combustíveis (diesel, bunker, fuel-oil etc.) cresceram mais de 140% entre primeiro trimestre de 2019 e o primeiro de 2020, saltando de 10,6 milhões de barris para 25,5 milhões de barris. Em valores, as exportações desses produtores, o aumento foi de 168%, o que indica que o preço do barril do óleo combustível também cresceu (cerca de 12% no período).

A boa notícia é que as vendas desses produtos cresceram para a Ásia, principalmente Cingapura, Hong Kong e China, onde a Covid-19 vem afetando a economia local desde janeiro. Na média trimestral de 2019, o Brasil exportou US$ 196,3 milhões de óleos combustíveis e, no primeiro tri de 2020, as exportações desses produtos foram de US$ 885,8 milhões, um crescimento de 351%. Para Hong Kong e China, o crescimento foi menor mas também expressivo; 81%. Chama a atenção também o aumento das exportações para as Ilhas Marshall – localizada no Pacífico – e para a Europa, grande demandante de óleo diesel. 

Isso indica que há uma possibilidade que pode existir uma maior resiliência na demanda externa por derivados de óleos combustíveis. 

Gráfico 1 – Exportações trimestrais de óleos combustíveis segundo destino (2019-2020). Em US$      

Exportação de óleo combustível (diesel, fuel-oil, bunker etc.)

Taxa de crescimento

Países

1o tri 2020 (a)

2019 (b)

Média tri 2019 (e)

(a)/(b) (%)

(a)/(e) (%)

Cingapura

885.831.429

785.453.148

196.363.287

13%

351%

Europa

265.749.429

597.258.574

149.314.643

-56%

78%

EUA

200.565.606

942.543.778

235.635.944

-79%

-15%

Ilhas Marshall

53.484.162

113.105.253

28.276.313

-53%

89%

Panamá

51.812.782

141.381.567

35.345.392

-63%

47%

Libéria

43.455.881

116.247.066

29.061.766

-63%

50%

China

40.781.673

90.170.021

22.542.505

-55%

81%

Demais

129.699.092

355.653.186

88.913.296

-64%

46%

Total

1.671.380.054

3.141.812.593

785.453.148

 

 

Fonte: Secex. Elaboração Ineep.

Exportações de óleo cru:

Se as exportações de derivados parecem ser uma alternativa atrativa para a Petrobras, a venda de petróleo cru o cenário é mais nebuloso. Com a concentração de vendas das exportações estão nos mercados chinês e indiano, não há indícios que esses países conseguirão manter a demanda por petróleo muito elevada, ao menos no curto prazo. 

A China apesar de ter elevado suas importações de petróleo no mês de março em 4,5% fez esse movimento a fim de ampliar o estoque da commodity em suas reservas emergenciais e comerciais. As agências e empresas estatais chinesas tem coordenado um plano de abastecimento dos tanques nacionais em montantes equivalentes a 90 dias de importações líquidas, em um processo que pode ser estendido para um prazo de até 180 dias..

Todavia, esse processo se expansão dos estoques tem um limite físico segundo a evolução de demanda chinesa. Segundo dados de uma reportagem do Financial Times de fevereiro de 2020, a demanda chinesa deveria cair, a partir desse mês, por volta de 25%. Ou seja, a elevação das importações visa exclusivamente o aumento dos estoques e não o atendimento da demanda. 

“Caso a atividade econômica não retome rapidamente, é difícil crer que haja muito fôlego para as exportações, ainda mais num cenário de forte concorrência com outros mercados. Na Índia, também há uma queda importante de demanda, tendo em vista que o país do Sul da Ásia também tem se preocupado em ampliar seus estoques. Dessa forma, há um cenário de maior incerteza, para as exportações de petróleo cru”, concluiu Rodrigo Leão, coordenador do INEEP. 

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Mirian Gasparin
Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná. Profissional com experiência de 44 anos na área de jornalismo, sendo 42 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social. Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Também é professora titular nos cursos de Jornalismo e Ciências Contábeis da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas paranaenses, de São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos. Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 11 anos de blog, mais de 20 mil matérias foram postadas. Ao longo de sua carreira recebeu 18 prêmios, com destaque para Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005). Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.
https://www.miriangasparin.com.br

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