Escalada do vírus e economia
Apesar da Organização Mundial de Saúde (OMS) avaliar o Brasil como atual epicentro da pandemia de Coronavírus no planeta, o intervalo de tempo compreendido entre invasão, evolução, pico, reversão e subsequente diminuição dos casos de contágios e mortes provocados pela doença deve ser mais longo do que o episódio vivenciado nos demais países atingidos.
Os números recordes de aparecimento da Covid-19 e letalidade resultam da carência de abrangente testagem de sintomas e contaminação da população, imprescindíveis à identificação da enfermidade e feitura de tratamentos em fase precoce, e retaguarda médico-hospitalar, especificamente leitos em unidades de terapia intensiva, respiradores e pessoal especializado, adequada ao atendimento de demandas diferenciadas nos vários espaços geográficos do país.
Há também a interferência decisiva exercida pelo reduzido grau de mobilização social, expressa na resistência, por vezes intransigente, da população, fortemente incentivada pela postura pouco responsável e insensível do presidente da república, no cumprimento das recomendações de distanciamento e isolamento social e observação de cuidados mais rígidos com a higiene, disseminadas pelos meios de comunicação e impostas por certas autoridades subnacionais.
O escape da barreira da quarentena está diretamente ligado à irradiação do surto em direção às comunidades mais vulneráveis, situadas abaixo da linha de pobreza e marcadas por precárias condições de vida – em especial em itens como habitação, saneamento e renda -, agravadas pela maior dimensão média das famílias.
Pesquisa do IBGE assinalou contingente de 52,5 milhões de pessoas, o que corresponde a 25,3% do total de habitantes, vivendo abaixo da linha de pobreza (menos de US$ 5,50 por dia), no Brasil, sendo que 13,5 milhões (6,5%), estão na extrema pobreza (US$ 1,90 por dia).
Ainda que o Brasil ocupe o 2º lugar no mundo em quantidade de mortos, ficando atrás apenas dos Estados Unidos (EUA), a apuração de 4,1 óbitos por milhão de habitantes no território nacional coloca o país na metade da escada global, ainda distante do ápice alcançado por outras nações, na primeira onda de importação e alastramento comunitário, como EUA (5,5), Reino Unido (8) Espanha (18) e Bélgica (25).
Em vez de alentadora, tal constatação pode ser interpretada como razoável espaço em relação ao cume, que, nesse particular, deverá registrar comportamentos díspares, de acordo com as especificidades regionais, caracterizada por volume de população, renda e estrutura de saúde, amparada em operação descentralizada do Sistema Único de Saúde (SUS).
A situação do estado do Amazonas, que possui UTIs apenas na capital Manaus, em meio ao rápido deslocamento da expansão da epidemia para o interior, e o pré-colapso dos sistemas do Rio de Janeiro e São Paulo, permitem supor a verificação de inúmeros picos e a magnificação das deficiências de realização de diagnósticos adequados e gestão da crise, por governadores e prefeitos, que, diga-se de passagem, não suportarão aguardar, por tempo indeterminado, o atingimento do ápice, seguido por inversão da marcha.
Frise-se que os agentes federados trabalham em estado de permanente pressão decorrente da disparada da pandemia e insistência dos segmentos empresariais para redução, ou até suspensão, dos confinamentos e reabertura ampla do comércio e dos serviços, cujo funcionamento presentemente está quase que restrito às atividades de supermercados e farmácias.
É importante sublinhar que a propalada assistência financeira proveniente do executivo, na forma de concessão de crédito subsidiado, principalmente para capital de giro e folha de salários, não alcançou a esmagadora maioria de potenciais tomadores, devido à multiplicação das exigências de garantias pelos bancos e cobrança de taxas de juros proibitivas, incompatíveis com as agruras de períodos de forte contração da demanda, vinculada aos danos diretos e indiretos da SARs-CoV-19.
Até porque, as principais estatísticas correntes comprovam que a economia nacional prosseguia no curso de estagnação, iniciado ainda no governo Temer, depois que a orientação “feijão com arroz”, implantada pela equipe de Henrique Meirelles, ensejou a continuidade do declínio estrutural da inflação e dos juros e, por extensão, a superação da recessão vivida entre 2014 e 2016.
Nesse contexto, a necessidade de convivência com o vírus e liberação controlada dos fluxos de produção e comercialização, seguindo rigorosamente os protocolos de proteção individual e afastamento coletivo, aplicados conforme as peculiaridades locais, na ausência da descoberta de vacinas e remédios, exigirão esforços coordenados e cooperativos, liderados pelo governo federal, no terreno fiscal e monetário, destituídos de amarras e preconceitos ideológicos.
Não há como ignorar também a urgência de estruturação do prolongamento temporal do pacote de ajuda às famílias mais pobres, viabilizada por inevitável negociação entre executivo e legislativo visando à supressão de inciativas sociais pulverizadas e pouco eficientes, como abono salarial, salário família, auxílio defeso, dedução de dependentes no imposto de renda e farmácia popular, em troca da ampliação do programa Bolsa Família, já com foco no pós-pandemia. A não ser que o desejo seja perder a guerra.
O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço, que é economista, consultor, foi diretor presidente do IPARDES entre 2011 e 2014.








