Recuperação global: em V, U, W ou L

Um dos principais ensinamentos da Ciência Econômica sugere que os sistemas de produção, comercialização, consumo, investimento e ações públicas são intrinsicamente instáveis, emblemáticos da natureza finita dos períodos de prosperidade e decadência.

Mais precisamente, etapas de expansão podem ser sucedidas por estágios de recessão e depressão que, depois de derrubadas as barreiras de distúrbios, podem dar lugar a eventos de recuperação e crescimento, com chances de ocorrência de episódios de estagnação, durante os momentos de consertos das fraturas, como o que ocorreu no Brasil entre 2017 e 2019, após a superação do ciclo recessivo de 2014 e 2016.

O tsunami econômico provocado pelo Coronavírus, no corrente ano, empurrou a economia global ao maior abismo da história, conjugando choque de oferta e demanda reprimida, comparável ao da Grande Depressão dos anos 1930, por conta do colapso do consumo derivado das medidas de distanciamento social, em maior ou menor grau e diferentes momentos, conforme o ingresso da pandemia nos vários países, interrompendo ou diminuindo drasticamente os fluxos de produção e distribuição.

A adoção de ações audaciosas, na maior parte dos casos, por governos e bancos centrais, nos fronts fiscal e monetário, respectivamente, com apreciável grau de sincronização, com ênfase à transferência de renda para trabalhadores informais, concessão de linhas de crédito subsidiadas para empresas e promoção de renúncias tributárias, vem servindo para mitigar os efeitos danosos da Covid-19 nas áreas de saúde, econômica e social.

Considerando que se trata de situação dramática, que deverá ser vencida em duras batalhas, soa pertinente a discussão acerca do timing e formato de remoção do entulho recessivo e restauração das bases de reativação duradoura do círculo virtuoso dos negócios.

Por enquanto, os estudiosos em flutuações cíclicas delinearam quatro cenários alternativos ou trajetórias de retomada do organismo econômico mundial, profundamente atingido pelo surto, precipitado na China, em dezembro de 2019. As identificações ou desenhos assumem as letras V, U, W ou L, bastante conhecidas para expressar movimentos pendulares, sendo um o esperado pela torcida, outro menos otimista, mas factível, e os outros dois pouco animadores.

O ponto de origem das quatro modalidades repousa na constatação de que a epidemia teria bloqueado o curso ascendente vivido pela economia mundial desde 2010, pós-destruição da turbulência engendrada pela falência do segmento hipotecário de 2ª categoria dos Estados Unidos (EUA).

Na verdade, notava-se acentuada diminuição da velocidade expansiva, a partir do 2º semestre de 2018, em razão das apreensões geradas com os inevitáveis desdobramentos negativos da deflagração do conflito de tarifas, protagonizado entre os presidentes Trump e Xi Jinping, que exibia inclinação de solução gradual e não traumática.

A sonhada retomada em V contempla retumbante pancada inicial, ensejada pela mistura entre susto, disparada de contágio e volume de mortes, breve sensação de impotência, fixação das quarentenas (econômica e social) e multiplicação da feitura de testes na população.

O controle da evolução do vírus, ou a quase zeragem da transmissão local, oportunizaria o relaxamento das políticas de achatamento da curva e regresso gradativo à normalidade, abarcando inclusive uma arrancada, facilitada pela preservação da vitalidade dos principais mercados, lideres da dinâmica pretérita, apesar da desaceleração do comércio, intensificação do protecionismo e recuo das cotações das commodities.

Isso teria acontecido na Ásia, em especial na China, marcada por pronunciada recessão no 1º bimestre de 2020, e constituição de um embrião de reativação, a partir de março, com chances de repetição em outras nações. Esse seria o retrato desejável, levantado pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), demarcando depressão no 1º semestre de 2020, ensaio de reerguimento no 2º e resgate da normalidade em 2021.  Ainda assim, no final do próximo ano, a renda per capita será menor que a registrada em dezembro de 2019.

A tendência tida como mais lógica, em U, demonstraria longevidade do incômodo, caracterizado por abrupto declínio, seguido por prolongado intervalo de paralisação das atividades, com operações limitadas aquelas tidas como essenciais, ligadas à saúde, alimentação e transportes de mercadorias, em função dos riscos de descontrole sanitário, atrelados ao abrandamento das providências de confinamento, na falta de resultados concretos na identificação de remédios e vacinas para controle e eliminação da patologia.

Ainda que haja adequação do quadro sanitário, os agentes econômicos (famílias e empresas) poderão permanecer em modo de retranca, em vez de recobrarem padrões de consumo e desengavetarem projetos de investimentos. Sem contar as chances de acirramento dos embates geopolíticos e reduzida cooperação internacional.

Já, o modelo em W contempla a ideia de verificação de ondas de interrupções e suavizações, determinadas por subidas e descidas do número de pessoas contaminadas e de mortes, em ambiente de progressos científicos pífios na produção de soluções temporárias ou definitivas. Daí a relevância de análises criteriosas que venham a desautorizar o levantamento prematuro das limitações à mobilidade e aglomeração de população.

Por fim, a derradeira imagem, compreendida em L, enfeixa o caráter perverso de prostração da matriz econômica e perpetuação na posição de prostração no fundo do poço, com enormes dificuldades de empuxe, em função da supressão de programação de inversões, falência de companhias saudáveis, retrocesso de estilos de consumo, deterioração patrimonial, explosão do desemprego e fragilização da força fiscal e financeira do Estado, o verdadeiro anteparo de catástrofes.

Serão as sequelas perenes do surto, expressas em desorganização do funcionamento de inúmeras cadeias de valor, crescente deterioração das condições de produção e qualidade de vida das pessoas e, sobretudo, escassez de perspectivas diante de constantes insucessos científicos na obtenção de medicamentos eficazes ou vacinas.

A despeito da vontade generalizada de confirmação do ambiente em V, formulado e defendido pelo FMI, e a razoabilidade de efetivação da moldura em U, a sintonia entre o modus operandi econômico, a forma de tratamento da emergência sanitária, a necessidade de garantia de empregos, renda e sobrevivência de empresas e de construção de saídas menos morosas para a morte do vírus, permite apostar número mais expressivos de fichas na concretização do W, o que não é nada animador.

Contudo, como a dimensão e extensão do Sars-CoV-19 constitui evento fortuito à logica econômica tradicional, parece evidente que nações que lograrem êxito na gestão da doença e arranjo ordenado da suspensão do isolamento social e estabelecerem nexos entre providências assistenciais e edificação da subsequente reação da economia, afetarão decisivamente os contornos da recuperação e poderão assumir a dianteira no processo de revitalização da economia mundial depois da pandemia.

É claro que tal hipótese não deve se aplicar a países destituídos de planejamento e abrangente e firme coordenação geral do enfrentamento do surto e reorganização econômica, notabilizados por cotidianas declarações de guerra do poder executivo central ao parlamento, instâncias subnacionais e meios de comunicação.

O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço, que é economista, consultor, foi diretor presidente do IPARDES entre 2011 e 2014.

Mirian Gasparin

Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná.Profissional com experiência de 50 anos na área de jornalismo, sendo 48 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social.Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Também é professora titular nos cursos de Jornalismo e Ciências Contábeis da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas paranaenses, de São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos.Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 16 anos de blog, mais de 35 mil matérias foram postadas.Ao longo de sua carreira recebeu 20 prêmios, com destaque para o VII Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º e 3º lugar na categoria webjornalismo em 2023); Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005).Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.

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