Tombo da indústria brasileira: o pior é que é só o começo
De acordo com a Pesquisa Industrial Mensal – Produção Física (PIM-PF), realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), um dos melhores e mais abrangentes acompanhamentos conjunturais da atividade fabril realizado no mundo, as consequências do isolamento social, determinado pela pandemia de Covid-19, já se fizeram sentir na segunda quinzena de março de 2020.
Frise-se que avaliações das entidades planetárias ligadas à saúde revelam que as medidas de confinamento da população são as únicas eficazes no combate à escalada exponencial da doença, na inexistência de vacinas ou remédios adequados ao tratamento.
O volume de produção do parque manufatureiro operante no país registrou queda de -9,1%, em confronto com fevereiro, o que representa o pior resultado para o mês desde 2002, patamar 24,0% inferior ao recorde, atingido em maio de 2011, e retorno aos níveis de agosto de 2003.
Quando a base de cotejo é o mesmo mês de 2019, identifica-se diminuição de -3,8%, configurando a quinta performance negativa consecutiva, o que permite inferir que a indústria brasileira já atravessa momentos difíceis desde o fim do ano passado, em face primordialmente da ineficácia da orientação macroeconômica na construção de condições objetivas à ocorrência de uma recuperação mais consistente e generalizada.
Aliás, o revigoramento dos níveis de atividade permanecia amparado quase que exclusivamente no dinamismo estrutural do agronegócio exportador e no comportamento virtuoso e combinado de algumas variáveis de estabilização, expressas na rota cadente da inflação e dos juros, delineada a partir de 2016, por meio do emprego de instrumentos ortodoxos para a reversão da espiral de preços.
Embora tenha se reproduzido em todas as categorias de uso, o desempenho desfavorável, aferido em março, em relação a idêntico mês do ano anterior, alcançou, de maneira mais acentuada, os ramos de bens de consumo duráveis (-9,7%) e semiduráveis e não duráveis (-7,1%), que possuem demanda comandada por mecanismos de crédito, emprego e salários, que amargaram rápida e dramática deterioração.
O segmento de bens de capital, ou de investimento, dedicado à produção de máquinas e equipamentos, contabilizou decréscimo de -3,9%, evidenciando flagrante perturbação do potencial de expansão econômica em longo prazo. Ainda conforme o IBGE houve retração em 21 dos 26 ramos, 48 dos 79 grupos e 59,3% dos 805 produtos investigados, apesar da interferência positiva exercida pelo calendário, marcada por três dias úteis a mais, em março de 2020, em comparação com março de 2019, ou 22 versus 19.
Na mesma linha, a Sondagem Industrial, efetuada pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), constatou que o índice de evolução da produção assinalou 33,3 pontos, em março deste ano, 16,7 pontos inferior aos 50 pontos que configuram a separação entre contração e expansão, sendo a menor dimensão mensal anotada desde 1998, quando começou a série histórica.
O mais preocupante, no entanto, é que o estágio de princípio de descida da ladeira, indiscutivelmente acelerado em abril e maio, época de disseminação regional e multiplicação da intensidade das quarentenas, ainda não captado pelos indicadores levantados pelos organismos públicos e instâncias privadas, denota larga distância do fundo poço.
A propósito disso, a mesma Sondagem apurou, em abril de 2020, a mais expressiva redução da intenção de investir dos empresários, já estimada, em consequência da fragilização financeira e da confiança e exacerbação das incertezas. O índice de intenção de investimento (ICI), que varia entre zero e cem pontos, despencou de 58,3 pontos em março, para 36,7 pontos em abril.
Não por acaso, as projeções mais realistas apontam queda de -3% e -4% do produto interno bruto (PIB) industrial e total da nação no corrente ano. Caso tais previsões se confirmem, será o menor crescimento médio do país em um decênio desde 1900, resumido em variação de 0,2% ao ano do PIB, contra, por exemplo, 1,6% a.a., nos anos considerados perdidos de 1980.
Em uma incursão teórica, o evento depressivo do complexo industrial serve para aprofundar o processo de desindustrialização, começado com a valorização cambial de apoio ao Real, na década de 1990, e maximizado com o desprezo oficial à necessidade de alinhamento dos elementos de competitividade sistêmica (câmbio, juros, tributos, burocracia, educação, ciência, tecnologia e inovação) ao padrão global, nos anos 2000 e 2010.
Na verdade, a necessidade de sustentação de projetos políticos populistas, atrelados à satisfação de interesses imediatistas, subordinados ao sucesso de estratégias de inclusão social baseadas na hipótese da natureza infinita dos recursos públicos que as bancavam, definiu o sacrifício da elaboração e implantação de programas de longa maturação, capazes de promover a minimização e até eliminação do retardo fabril brasileiro vis a vis a revolução 4.0 acontecida na fronteira internacional.
O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço, que é economista, consultor, foi diretor presidente do IPARDES entre 2011 e 2014.








