Brasil: PIB do primeiro trimestre de 2020 – o começo de uma nova recessão
Depois de encolher -8,6%, entre abril de 2014 e dezembro de 2016, permanecer estagnado, no 1º trimestre de 2017, e crescer apenas 3,6% entre abril de 2017 e dezembro de 2019, o produto interno bruto (PIB) brasileiro caiu -1,5%, entre janeiro e março de 2020, em comparação com o intervalo compreendido entre outubro e dezembro de 2019, e -0,3% em relação a igual período do ano passado, de acordo com estimativas do Sistema de Contas Nacionais Trimestrais (SCNT), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Os resultados negativos refletem, fundamentalmente, o desempenho verificado na 2ª metade do mês de março, início da adoção de providências de restrição à circulação de pessoas, fixação de quarentenas e paralisação de diversas atividades econômicas, em várias cidades médias e grandes, da maioria das unidades da federação, por conta da entrada e avassaladora evolução da pandemia do Novo Coronavírus, que, por falta de empenho e capacidade de coordenação e organização do governo federal, transformou o país, em pouco mais de dois meses, no epicentro mundial do surto.
Em ambas as bases de cotejo, o decréscimo foi determinado por indústria de transformação, comércio, serviços e construção civil, sendo amortecido pela variação positiva registrada pelas cadeias produtivas capitaneadas pelo agronegócio, em face da conjugação entre destacável poder competitivo do setor e operação plena durante a trajetória de subida da doença, por englobar as atividades essenciais.
No confronto trimestre contra trimestre imediatamente anterior, o declínio de -1,5% foi produzido, pela ótica setorial, por retração de -3,2 nas indústrias extrativas, -2,4%, na construção civil, -1,4%, nas unidades de transformação, -1,6%, nos serviços, e -0,8%, no comércio. A exceção coube à agropecuária, que registrou expansão de 0,6%, explicada pela impulsão da produtividade da soja.
Pela observação da demanda agregada, o consumo das famílias recuou -2,0%, em razão das barreiras impostas pelo confinamento, ascensão do desemprego e contração dos rendimentos, vinculada à parada súbita da produção e distribuição, e as exportações retraíram -0,9%, puxadas por máquinas e equipamentos, veículos e minério, denotando maior sensibilidade ao tombo ocorrido na demanda externa.
Já os gastos públicos exibiram incremento de 0,2%, as importações acusaram elevação de 2,8% e a formação bruta de capital fixo aumentou 3,1%, em virtude das compras externas de plataformas pela Petrobrás. Com isso, a taxa de investimento chegou a 15,8% do PIB, versus 15,0% do PIB, no 1º trimestre de 2019, o que, nesse caso, não exprime ampliação da capacidade produtiva do aparelho econômico.
Porém, trata-se do retrato do passado recente que, por sinal, já emitia sinais de fadiga desde o princípio de 2019, evidenciada por variações trimestrais desprezíveis da principal grandeza macroeconômica e a formação de um quadro anêmico, no 1º bimestre de 2020, corroborando as suspeitas levantadas pelo próprio ministro da Economia, Paulo Guedes.
A julgar pelas estatísticas correntes e antecedentes, disponíveis para os meses de abril e maio de 2020, período marcado pela disparada da Covid-19, por aqui, o ambiente acoplado à dinâmica da saúde, negócios, mercado de trabalho e rendimentos e confiança dos agentes, vem experimentando flagrante deterioração.
Só a título de ilustração, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD), do IBGE, a desocupação saltou de 11% da força de trabalho, em dezembro de 2019, para 12,6%, em abril de 2020, totalizando 12,8 milhões de brasileiros desempregados a procura de trabalho. Já a subutilização da mão de obra, atingiu o recorde de 25,6% da força, equivalendo a 28,7 milhões de pessoas.
Na mesma linha, levantamentos do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), apontam eliminação líquida de 1,101 milhão de postos de trabalho com carteira assinada, em março e abril de 2020, praticamente anulando a 73% da recuperação de vagas formais acontecida entre 2018 e fevereiro de 2020.
De seu turno, a Confederação Nacional do Comércio (CNC) constatou elevação do endividamento das famílias, de 63,4% do total, em maio de 2019, para 66,5%, em maio de 2020. Para as que mencionaram a ocorrência de atraso no pagamento das contas, em média de dias, a frequência passou de 24,1% para 25,1%.
Não por caso, é fácil notar ascensão do pessimismo. Sondagem da Confederação Nacional da Indústria (CNI) mostra que a intenção de investimento da indústria da construção despencou de 42,6 pontos (varia entre zero e cem, sinalizando otimismo quando superam os 50 pontos), em março, para 25,7 pontos, em abril, e 25,4 pontos, em maio de 2020, o menor patamar da série histórica apurada desde dezembro de 2009.
Essa conjuntura desfavorável permitiria qualificar um estado de recessão técnica, construído a partir do decréscimo do PIB por dois trimestres seguidos, consequência dos múltiplos e avassaladores desdobramentos da doença no conjunto da sociedade, em especial as pessoas mais pobres, cujo déficit de proteção pública torna-se mais latente em épocas de instabilidades que debilitam o mercado de trabalho.
O cenário torna-se mais desalentador diante dos inúmeros tropeços cometidos pelo executivo federal na gestão da tríplice crise, em praticamente todas as áreas, principalmente a negação da gravidade do problema, realização de verdadeira cruzada nacional contra o isolamento social, em contraposição às recomendações técnico-científicas internacionais, atraso na implantação do auxílio emergencial à população afetada com a perda de ocupação e renda, e incompetência no repasse do socorro creditício ao segmento empresarial atingindo pela depressão da oferta e demanda acoplada à pandemia.
Sem contar os desconfortos ensejados pelo despreparo e insensibilidade à ordem democrática do presidente, expressos em constantes atritos com outros poderes, organismos internacionais, academia, veículos de comunicação, correntes de esquerda e demais atores sociais que eventualmente venham a manifestar posições diferentes daquelas contidas na plataforma conservadora do governo.
Na verdade, não há como escapar da participação do contrato depressivo imposto à economia global pelo Sars–CoV–2. No entanto, no Brasil, a proliferação e potencialização de erros primários deve provocar o prosseguimento do evento em intensidade e por tempo indeterminados, dado o insuficiente suporte oficial a famílias em empresas.
Em um território caracterizado por apreciáveis contrastes regionais e acentuada disparidade social, alguns poucos estados, integrantes dos espaços mais ricos, vem revelando maior capacidade de administração do mapa de isolamento e, em consequência, de suporte do funcionamento do sistema de saúde, o que evidencia que o fim da primeira etapa da pandemia ainda parece distante.
Em vez da recuperação em formato V, profetizada por Guedes, ou em W, mais aplicável aos mercados avançados e emergentes, enquanto não se descobre a vacina eficaz, a retomada e o regresso à normalidade econômica nacional deverão ser demorados, no padrão de curva U, ocasionando substanciais danos econômicos e sociais, com ênfase para alargamento do desemprego e pobreza e fechamento de empresas.
O pior dos mundos seria o desenho em L, uma espécie de potencialização do caos, derivada da exponencial piora das contas públicas e da ociosidade das plantas fabris. Pesquisa do Datafolha, efetuada junto a 2.069 pessoas nos dias 25 e 26 de maio de 2020, indica que 68% delas creem que o Coronavírus deve prejudicar a economia nacional por bastante tempo.
O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço, que é economista, consultor, foi diretor presidente do IPARDES entre 2011 e 2014.


