Recessão global e o caos brasileiro: ótica do Banco Mundial

As projeções do Banco Mundial para o desempenho da economia global em 2020, divulgadas em 08 de junho, no documento “Global Economic Prospects”, contém maior grau de dramaticidade do que as previsões feitas no mês de abril, pelo Fundo Monetário Internacional (FMI).

Enquanto o Fundo prospectou declínio de -3,0% do produto interno bruto (PIB) mundial, para este exercício, o Banco calculou variação negativa de -5,2%, resultado do substancial choque de oferta e demanda provocado pela pandemia do Novo Coronavírus no planeta, materializado em pronunciada diminuição e até interrupção dos fluxos de produção e comércio, em distintos momentos e regiões.

Se confirmadas, tais inferências deverão traduzir a contração econômica de maior magnitude observada desde a 2ª Guerra Mundial, atingindo o maior número de países desde 1870. De acordo com o estudo, mais de 90% das 183 economias acompanhadas devem registrar retração do agregado macroeconômico, superior às que foram afetadas pela Grande Depressão dos anos 1930, ocasião em que 85% dos países contabilizaram decréscimo do PIB, implicando expressiva ampliação dos níveis de pobreza.

A título de exemplo, a produção industrial alemã caiu -25,3% e -17,9%, em abril de 2020, em confronto, com o mesmo mês de 2019, e março de 2020, respectivamente, conforme levantamento do Departamento Federal de Estatísticas da Alemanha (Destatis). Isso configura a pior performance desde 1991, puxada pelo ramo automotivo, que apresentou compressão de -74,6%.

Segundo os técnicos do Banco Mundial, os danos devem ser mais acentuados naquelas nações mais castigadas pela doença e bastante dependentes das correntes de comércio, financeiras e de turismo global. Apesar de a dimensão dos estragos exprimir discrepâncias espaciais, parece correta a interpretação de maior vulnerabilidade dos mercados emergentes, a mais esse fator de desequilíbrio exógeno, em face da enorme informalidade exibida pela dinâmica de ocupações e os paupérrimos indicadores sociais, antecedentes à chegada e exponencial avanço da Covid-19.

Sem contar que o bloqueio do funcionamento presencial das redes escolares, substituído, em razoável parte dos casos, nestes países, por verdadeiras gambiarras disfarçadas de ensino remoto, e o aprofundamento da precariedade da oferta de serviços básicos de saúde à população menos favorecida, pode vir a comprometer, irremediavelmente, a formação de capital humano, variável crucial à restauração do potencial de retomada econômica em médio e longo termo.

Daí a necessidade de aumento da densidade de esforços no tratamento adequado do quadro de emergência mundial, de ordem sanitária e econômica, e na coordenação de ações visando à obtenção de vigorosa reativação do ciclo de transações, de modo a mitigar os impactos nefastos do surto nos patamares de emprego e distribuição de renda.

Partindo do pressuposto de diminuição da velocidade de evolução da patologia, essencial para a gradativa suspensão das providências restritivas, em paralelo as expectativas de descoberta e disponibilização da vacina salvadora, a partir de meados do 2º semestre deste ano, com subsequente alívio nos rearranjos dos portfólios do ambiente financeiro, o Banco prevê expansão de 4,2% do PIB mundial para 2021, demarcando parcial restauração dos prejuízos econômicos derivados da Sars-CoV-2.

Porém, a instituição descarta a linearidade da reação, que deverá abranger inicialmente as economias centrais e, posteriormente, se espraiar para a periferia, por conta das fortes chances de ocorrência de exacerbação de práticas protecionistas e conflitos de natureza geopolítica, com inevitáveis desdobramentos no encurtamento de diversas cadeias de valor e desmobilização de plantas fabris.

O Banco também adverte para a atmosfera de maximização das incertezas, com tendência econômica descendente, por meio do aceite de apostas de alongamento temporal da pandemia e, em consequência, elevação da volatilidade dos ativos de risco e recuo do comércio. Por essa construção pessimista, o PIB cairia -8%, em 2020, e cresceria apenas 1% no ano que vem.

Para os emergentes com disponibilidade de margem fiscal e creditícia, o relatório da agência multilateral sugere a ativação de estímulos incrementais, em situação de persistência das repercussões caóticas da doença, seguida de iniciativas de montagem da sustentabilidade fiscal potencial, em especial a reengenharia na peça orçamentária, incluindo maior racionalização e transparência na gestão dos haveres tributários, apropriados para utilização com despesas correntes, investimentos e encargos financeiros incidentes sobre a dívida pública.

Essa postura é considerada crucial para assegurar a atração de poupança externa destinada à cobertura financeira de projetos estratégicos, com ênfase para aqueles ligados ao alinhamento dos componentes de competitividade sistêmica, particularmente infraestrutura econômica e social.

E o Brasil? O Banco Mundial cravou descida de -8% do PIB do país, em 2020, um recorde republicano, e expansão de apenas 2,2%, em 2021, em contraste com as expectativas de mercado, elaboradas semanalmente pelo Banco Central, a partir de consulta a cerca de 150 bancos e consultorias, que denotam queda de -6,36%, neste ano, e incremento de 3,45%, em 2021.

Na mesma balada menos pessimista, o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), entidade ligada ao ministério da Economia, avaliou que a economia nacional teria batido no fundo do poço em abril e que o PIB deve recuar -6%, em 2020, e subir 3,6%, em 2021.

Rigorosamente, os motivos da maior apreensão externa em relação ao país repousam na combinação entre deterioração do comportamento conjuntural do aparelho de negócios e inoperância do governo na escolha, encaminhamento e execução de soluções, ainda que paliativas, para a tríplice crise.

De um lado, pesquisa da Confederação Nacional da Indústria (CNI) denota intensa e generalizada fragilização das variáveis determinantes da trajetória do segmento fabril, em abril de 2020. Em qualquer referência de cotejo, houve substancial decréscimo do faturamento real, horas trabalhadas, pessoal ocupado e massa salarial e rendimento médio real, sendo que a utilização média da capacidade instalada situou-se em 69,6%, contra 77,8% e 76,2%, em abril de 2019 e março de 2020, respectivamente. Esses números compõem a cesta mais negativa da série histórica apurada desde 1992.

 O retrato é igualmente desanimador no mercado laboral. Informações da Secretaria de Trabalho, da pasta da Economia, mostram que o volume de solicitações de seguro-desemprego totalizou 960,2 mil, em maio de 2020, correspondendo a um salto de 53%, diante de maio de 2019, e de 28,3%, frente a abril (748,5 mil). Os pedidos acumulados desde a 2ª quinzena de março perfazem 1,94 milhão, suplantando em 26% a soma de igual período do ano passado (1,54 milhão).

No terreno da saúde das empresas, depois de diminuírem -10,7%, em 2019, as solicitações de recuperação judicial dispararam depois do surgimento da doença, experimentando acréscimo de 68,6% em maio, em comparação com abril, captado pelo birô de crédito Boa Vista. Em idêntico intervalo de tempo, os requerimentos de falência saltaram 30%.

De outro extremo, as posições diametralmente opostas às recomendações científicas, internacionais e internas, assumidas e conduzidas pelo Palácio do Planalto, no gerenciamento das consequências do surto – inclusive na aferição do número de mortes -, engrossadas por atitudes destituídas de inclinações democráticas, tomadas pelo chefe de estado, precipitaram um estado de permanente pânico e fragmentação social, amainado pelas medidas compensatórias, nos campos econômico, social e federativo, aprovadas pelo parlamento.

O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço, que é economista, consultor, foi diretor presidente do IPARDES entre 2011 e 2014.

Mirian Gasparin

Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná. Profissional com experiência de 50 anos na área de jornalismo, sendo 48 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social. Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Também é professora titular nos cursos de Jornalismo e Ciências Contábeis da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas paranaenses, de São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos. Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 16 anos de blog, mais de 35 mil matérias foram postadas. Ao longo de sua carreira recebeu 20 prêmios, com destaque para o VII Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º e 3º lugar na categoria webjornalismo em 2023); Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005). Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.

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