Brasil: eixo fiscal e monetário de gestão da crise econômica

Em circunstâncias de pronunciada e persistente instabilidade econômica, como a provocada pela pandemia do Novo Coronavírus no mundo, cabe às instâncias fiscais das diversas nações a responsabilidade por pronta concepção, viabilização e execução de repasses diretos de renda aos segmentos mais afetados. De outra parte, compete às autoridades monetárias, especificamente os Bancos Centrais (BCs), a incumbência de evitar insuficiência, ou o fenômeno conhecido como “empoçamento”, de liquidez.

No caso brasileiro, a trincheira fiscal de combate aos efeitos do Sars-CoV-2 reúne as três parcelas mensais de R$ 600 do auxílio emergencial aos trabalhadores informais e autônomos, que ficaram à míngua com a paralisação e/ou depressão do ciclo de negócios, que, ao que tudo indica, deve ser prolongando enquanto os patamares de atividade não recobrarem o fôlego, com as esperadas bênçãos e interferências do parlamento.

Até aqui, a equipe econômica anunciou três pagamentos mensais sucessivos de R$ 500, R$ 400 e R$ 300, o presidente da Câmara dos Deputados sugeriu duas vezes de R$ 600 e o senado insinua a necessidade de manutenção ao menos até o final do corrente ano, período previsto para reestruturação da matriz econômica e social.

A propósito disso, pesquisa efetuada pelo Datafolha, apresentada em 01.07.2020, apurou elevada reprovação popular ao gerenciamento da crise pelo presidente da República. 49% da população que solicitou (ou já recebeu a 1ª parcela) o benefício avaliam como ruim ou péssimo o comportamento (atitudes e ações) do chefe de estado desde o princípio da pandemia.

Outra tarefa especifica, a cargo do grupo das finanças governamentais, com apoio da mão pesada do Congresso Nacional, repousa no pacote de compensação à perda de arrecadação dos entes federados, durante o episódio de bloqueio ou diminuição do ritmo da produção, vendas e prestação de serviços, motivado pelo avanço exponencial do surto, englobando a suspensão da quitação dos respectivos serviços da dívida junto à União.

Ainda na faixa exclusiva do Palácio do Planalto, mesmo que formulada e aprovada no âmbito do legislativo, emerge o orçamento extraordinário, ou de guerra, que faculta a feitura de dispêndios paralelos ao fluxo convencional, atrelados diretamente à cobertura das necessidades abertas pelos danos provocados pela doença, com desobrigação de cumprimento da Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF) e regra de ouro.

Mesmo que marcado por avanços e recuos, não poucos desentendimentos públicos entre alguns membros dos poderes constituídos, absolutamente prejudiciais à diminuição ou eliminação dos fatores de perturbação gerados pela entrada e alastramento da patologia território nacional, esse pedaço do novo e transitório arranjo macroeconômico comportou-se com razoável desenvoltura, resultando em desembolsos ou renúncias do Tesouro da ordem de 5% do produto interno bruto (PIB), em pouco mais de três meses, semelhante aos incentivos acionados por diversos países avançados e emergentes.

Em simultâneo, de acordo com que o que já foi aventado anteriormente, em ambientes de abruptos e acentuados desequilíbrios no terreno dos negócios, com desdobramento no mercado de ocupações, cabe aos BCs a defesa e garantia da continuidade das operações de empréstimos e financiamentos bancários ou, em outros, a perseguição de rápido retorno à normalidade dos montantes de liquidez do sistema, de modo a reverter, ou minimizar, as chances de verificação de quebradeiras generalizadas de firmas e o aprofundamento e prolongamento do colapso recessivo.

A esse respeito, apesar da acertada estratégia de promoção de sucessivos cortes na taxa básica de juros da nação – em linha com o declínio consistente da inflação, explicado, em grande medida, pelo cenário de estagnação que se transformou em nova contração -, o BC brasileiro tem tido pouco sucesso na organização, estímulo e conferência da provisão de cifras de socorro às frações corporativas fragilizadas, particularmente as micro, pequenas e médias empresas (MPMEs).

Segundo o próprio BC, depois de crescer 29%, em março de 2020, os desembolsos de crédito destinados às pessoas jurídicas declinaram -22% e -6%, em abril e maio, respectivamente, em consequência da subordinação dos canais de concessões à escolha voluntária dos bancos, amparada por elevado poder de oligopólio, evidenciado por cinco marcas, duas públicas e três privadas, dominarem mais de 90% da comercialização de ativos.

Rigorosamente, o conjunto de bondades apresentados pela autoridade monetária no mês de março – sobretudo a diminuição dos compulsórios a prazo (R$ 68 bilhões, acrescidos aos R$ 135 bilhões do começo do ano) -, dimensionado em potencial de ampliação da abrangência do crédito de até R$ 1,16 trilhão (15,8% do PIB), não abrandou a carência dos tomadores finais. A multiplicação das garantias incitou as instituições a permanecerem encostadas em balcões de compra e venda de papéis públicos e privados.

O pior foi a constatação de flagrante disparidade na alocação das concessões, absorvidas, em maior proporção, por companhias de grande porte, que também recorrem à captação no mercado de capitais e possuem linhas de financiamento abertas junto às instituições financeiras. Mais precisamente, os desembolsos cresceram 11%, para as grandes empresas, e 2%, para as MPMEs, entre fevereiro e maio deste ano.

Mais que isso, a canalização de recursos de terceiros aos segmentos menos aquinhoados, nesta primeira fase da pandemia, representou um verdadeiro vexame, o que pode ser comprovado, por exemplo, pela contratação de apenas ¼ dos R$ 40 bilhões disponibilizados para assegurar haveres para bancar a folha de salários dos trabalhadores.

Não por acidente, conforme a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a taxa de desemprego saltou de 11,6% da força de trabalho para 12,9%, entre os trimestres móveis encerrados em fevereiro e maio de 2020, perfazendo 12,7 milhões de pessoas sem ocupação à procura de trabalho. Já a subutilização alcançou, em março-maio, o recorde de 27,5% da força, ou 30,4 milhões de pessoas.

A premência de reversão do quadro de barreiras erguidas pelos bancos ao fornecimento de crédito aos pequenos impeliu o BC a divulgar, no final de junho, medidas de que reforçam o potencial de oferta de crédito em R$ 272 bilhões, ou 3,8% do PIB. Dentre elas, destaca-se o suporte ao capital de giro das MPMEs, com amortização em três anos e carência de seis meses (R$ 127 bilhões).

Em perspectiva análoga, surge a possibilidade dos bancos emprestarem massa proveniente da terça parte dos depósitos compulsórios das cadernetas de poupança, para suprimento das carências de empresas com receita anual de até R$ 50 milhões, que exibe espaço de liberação de R$ 55,8 bilhões.

Opcionalmente, as entidades financeiras poderão empregar os recursos na compra de depósitos a prazo com garantia especial (DPGE), emitidos por instituições de menor porte, e escapar das agruras da inadimplência nas alocações às MPMEs. Porém, em fazendo isso, os bancos abdicarão da remuneração derivada dos compulsórios, equivalente a da poupança.

O BC também manifestou o prosseguimento da extensão de liquidez do sistema e firmas, mediante aquisições de bônus privados no mercado secundário, permitidas pelo Congresso, o que traduz uma postura tímida se for considerado que, em épocas de insegurança em alta rotação, urge o estabelecimento de conexão fina entre Tesouro e autoridade monetária no sentido da neutralização das perdas privadas.

O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço, que é economista, consultor, foi diretor presidente do IPARDES entre 2011 e 2014.

Mirian Gasparin

Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná.Profissional com experiência de 50 anos na área de jornalismo, sendo 48 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social.Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Também é professora titular nos cursos de Jornalismo e Ciências Contábeis da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas paranaenses, de São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos.Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 16 anos de blog, mais de 35 mil matérias foram postadas.Ao longo de sua carreira recebeu 20 prêmios, com destaque para o VII Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º e 3º lugar na categoria webjornalismo em 2023); Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005).Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.

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