Brasil: a recessão do novo coronavírus
Os indicadores produzidos pelo Sistema de Contas Nacionais Trimestrais (SCNT), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), conferem a dimensão recessiva provocada essencialmente pela entrada e avanço do Novo Coronavírus no território nacional, em fase com o que vem acontecendo em praticamente todos os espaços geográficos do planeta, à exceção da economia chinesa.
A rigor, depois de acusar pronunciado encolhimento entre dezembro de 2019 e fevereiro de 2020, por conta das rigorosas quarentenas impostas aos segmentos produtivos e população em geral, a base de negócios do gigante asiático vem esboçando sinais de recuperação consistente, ainda que discreta, desde meados de março do corrente ano, puxada pelo desempenho da indústria.
Por aqui, o Produto Interno Bruto (PIB) decresceu -2,5% e -9,7%, no 1º e 2º trimestre de 2020, respectivamente, em comparação com os três meses imediatamente antecedentes. Quando o cotejo é realizado em relação ao mesmo trimestre do ano anterior, as quedas foram de -0,3% e -11,4%, respectivamente, resultando em recuo semestral de -5,9% e anual de -2,2%.
Considerando que os números captam a performance negativa verificada entre a 2ª quinzena de março, por ocasião das determinações oficiais iniciais de restrições à circulação de pessoas e isolamento social, e o intervalo de tempo compreendido entre abril e junho de 2020, trata-se da maior depressão da história econômica do país, equivalente, por enquanto, a três meses e meio.
Por isso, as estatísticas do 2º trimestre permitem uma avaliação mais precisa da magnitude dos danos provocados diretamente pela pandemia e os, não poucos, equívocos cometidos por autoridades federais e subnacionais nas ações de controle da evolução dos casos de infecção e mortes ocasionados pela doença. Os erros abarcaram desde o desprezo à gravidade da situação até o fechamento e abertura das atividades econômicas, amparadas em critérios destoantes, na maioria das vezes, das recomendações técnico-científicas emanadas de profissionais das áreas de infectologia, imunologia e virologia.
O que importa reter é que afora as atividades extrativas e agropecuárias, que cresceram 6,8% e 1,2%, respectivamente, graças ao avanço da produção de petróleo e ganhos de produtividade e competitividade exportadora do segmento rural, a retração foi generalizada no 2º trimestre, atingido de maneira mais intensa a indústria de transformação (-20,0%), o comércio (-14,1%), e os serviços (-11,2%).
Pela ótica da demanda agregada, enquanto as exportações subiram 0,5%, os gastos públicos, o consumo das famílias, as importações e a formação bruta de capital fixo, acusaram diminuição de -8,6%, -13,5%, -14,9% e -15,2%, respectivamente. Com isso, a taxa de investimento desceu de 15,3% do PIB, entre abril e junho de 2019, para 15% do PIB, no 2º trimestre de 2020, denotando compressão do potencial de expansão de longo prazo do país.
O conjunto de resultados adversos é consequência das heterogêneas deliberações de isolamento social e proibições de funcionamento de várias atividades produtivas, nos diferentes lugares da nação, magnificadas por incontáveis deslizes de avaliações oficiais, com destaque para a morosidade e insuficiência das iniciativas destinadas à salvação de vidas, empregos e empresas.
O tombo só não foi maior – e as imagens de julho e agosto, que ainda não aparecem no sumário de dados, são melhores – em razão do surpreendente empenho do parlamento na concepção e aprovação do auxílio emergencial mais encorpado para famílias vulneráveis; do orçamento extraordinário, ou de guerra, um anteparo legal à emissão de endividamento público para enfrentamento da crise sanitária; e da ajuda financeira a estados e municípios.
Curiosamente, esse exitoso intervencionismo brotado do legislativo oportunizou visível recuperação da aprovação do executivo, junto à população, e precipitou uma autêntica retirada da maquiagem liberal do atual, um belo disfarce utilizado durante o episódio eleitoral de 2018.
Mais que isso, o relativo sucesso dos elementos de segurada, e de esperança de reversão, da catástrofe ensejaram repentina adesão do mandatário da nação ao populismo redistributivista, prevalecente em administrações anteriores, ancorada na prorrogação do apoio expresso no “corona voucher”, a par do desenrolar das discussões ligadas à criação do Renda Brasil, substituto mais abrangente do Bolsa Família.
Porém, é conveniente não “dourar a pílula”. O Brasil só conseguirá sair do buraco para o qual os governantes o empurraram, na presente década, com ampla negociação coletiva, construção e implantação das modificações institucionais capazes de resgatar o sistema operacional do estado e a eficiência da microeconômica. O resto é conversa mole para boi dormir.
O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço, que é economista, consultor e ex-presidente do Ipardes.








