A influência da vacinação na recuperação econômica global e os fiascos brasileiros
Os meios especializados vêm redobrando apostas, neste começo de 2021, na ocorrência de uma recuperação mais consistente da economia global, em especial no transcorrer do 2º semestre do ano, ainda que sem a recomposição plena das perdas amargadas em 2020, em função da pandemia do novo coronavírus, e disforme geograficamente.
A restauração de parte do fôlego será determinada decisivamente pelo êxito na proteção de parcela nada desprezível da população, proporcionado pelo ganho de vigor do processo de imunização, assentado na descoberta, apresentação, aprovação e aplicação de não poucas vacinas, capazes, inclusive, de atacar as novas cepas do vírus.
Esse é o requisito imprescindível para a otimização dos efeitos das políticas monetárias ativas, adotadas por quase todos os bancos centrais das nações avançadas e emergentes e, principalmente, dos vultosos pacotes fiscais anunciados pelos governos das grandes potências, capitaneados pelo novo presidente dos Estados Unidos (EUA), Joe Biden, cuja eleição conferiu reforço a uma maior previsibilidade, em escala planetária.
As expectativas favoráveis estão atreladas à postura moderada e negociadora do novo chefe americano, comprometida, sobretudo, com bandeiras ligadas ao ressurgimento do multilateralismo e ao intransigente ataque aos flagelos ambientais e sociais, particularmente a desigualdade na apropriação da renda.
Até porque, conforme relatório da Organização Não Governamental OXFAM Internacional, o caráter avassalador da patologia serviu para escancarar e ampliar a desigualdade funcional de rendimentos em quase todas as nações, o que jamais aconteceu em mais de um século de medições dessa variável.
É assustador observar que enquanto as mil pessoas mais abastadas conseguiram recompor as perdas de renda na pandemia em apenas nove meses – contra cinco anos após o default financeiro de 2008 -, os mais pobres levarão pelo menos 14 anos para regressar ao estágio de rendimentos anterior ao surto.
De fato, não soa descabido admitir a verificação de significativa reativação dos níveis de produção, emprego e negócios, em geral, a despeito das enormes chances de aferição de contração da atividade, no 1º trimestre de 2021. Com isso, a previsão da saída do quadro de instabilidade em formato V daria lugar a conformação do comportamento em W, o que, nessas alturas, não significaria o pior dos mundos.
A retração calculada para o intervalo janeiro-março estaria vinculada a dois elementos de perturbação. O primeiro deles reside na inércia expressa nos desdobramentos do imbróglio político subjacente ao verdadeiro inferno criado no apagar das luzes da gestão de Donald Trump, magnificado com a incitação popular à viabilização de um golpe, materializado na invasão do Capitólio por fiéis e raivosos devotos do ex-presidente, sob o argumento de fraude nas eleições, suficientemente rechaçado nas diferentes esferas legais e políticas.
O segundo elemento contracionista do princípio de 2021 reúne os impactos das várias quarentenas decretadas por autoridades, notadamente na Europa, derivadas do agravamento da 2ª onda de identificação de novas infecções, internações, utilização de tratamentos de terapia intensiva (unidades, equipamentos e medicamentos) e óbitos por Covid-19, engrossada pela descoberta de variantes do vírus dotadas de maior poder de propagação.
O reaparecimento do curso exponencial das contaminações e mortes naquele continente é explicado essencialmente pela combinação entre o afrouxamento das restrições à circulação e aglomeração de pessoas e o comportamento displicente de parcela apreciável da população, como se os riscos pandêmicos houvessem desaparecido como por encanto ou vontade coletiva.
Logo, com retardo temporal de mais de nove meses em relação à Ásia (exceto Índia), cujos países encararam com seriedade o potencial destrutivo do furor sanitário e, por isso, com o protagonismo chinês, vem exibindo sinais evidentes de reativação econômica desde o 2º trimestre de 2020, Europa e América do Norte devem experimentar um empuxe motivador das linhas industriais, fluxos de comércio e prestação de serviços, em linha com o acréscimo da amplitude da vacinação.
Infelizmente, não é difícil perceber que a reprodução dessa atmosfera virtuosa, marcada por alargamento da liquidez mundial, deve alcançar apenas marginalmente o ambiente brasileiro, em razão da conjugação de algumas restrições produzidas pela equivocada orientação política, sanitária e econômica do país.
Pela órbita política é destacável, depois de dois anos de gestão do poder executivo, a absoluta ausência de qualquer aceno estratégico de longo prazo para a nação, algo crucial à obtenção de um arranjo definidor de ganhadores e perdedores diretos do encaixe competitivo do Brasil na dinâmica econômica e nas agendas de sustentabilidade e minimização das disparidades sociais, em âmbito global.
Em outros termos, destituído de qualquer habilidade de articulação e negociação com o legislativo, voltada ao encaminhamento, discussão e aprovação de projetos prioritários e/ou de interesse social, incluindo as reformas institucionais, o governo, até aqui, ou mesmo antes da pandemia, “não disse a que veio”.
A não ser o flerte com agremiações fisiológicas e clientelistas com assento no legislativo nacional, visando assegurar a rejeição de eventuais pedidos de instauração de impeachment contra o presidente, por crimes de responsabilidade, e bloquear investigações em curso e blindar membros do clã do mandatário, constituído por familiares e amigos.
Por isso, a operação de controle do avanço do novo coronavírus tem se revelado um autêntico desastre em todas as frentes que demandam ações federais, por conta da perene irresponsabilidade e insanidade do chefe de estado, que representa fonte contínua de inquietação social, em função de afirmações estapafúrdias diárias, desmentidas mais adiante pelo próprio e resgatadas e reafirmadas em momentos subsequentes.
O elenco de atitudes disparatadas do presidente é vasto. Abrange a negação da patologia e consequente minimização de sua dimensão e prejuízos sociais e econômicos, desprezo à ciência e ao esforço de desenvolvimento de vacinas, defesa de tratamentos e uso de medicamentos desprovidos de eficácia comprovada e incentivo a desobediência civil às medidas de isolamento e distanciamento social, estabelecidas pelas instâncias subnacionais.
Igualmente reprovável foi a abdicação da coordenação nacional no enfrentamento à escalada do surto, sob a falsa justificativa de impedimento pelo Supremo Tribunal Federal, o embarque na contenda política do tsunami sanitário e a determinação de atuação meramente burocrática e protocolar da pasta da saúde, cuja omissão, dentre outras aberrações, foi responsável direta pela instauração do caos sanitário no estado do Amazonas, com o desabastecimento de oxigênio para doentes graves.
Sem contar os fiascos nas tratativas diplomáticas para a liberação da entrega dos imunizantes (AstraZeneca/Oxford) fabricados na Índia, destinados à Fiocruz, e dos insumos procedentes da China para a vacina Coronavac (Sinovac/Butantan), somados às demonstrações de desapego ao planejamento logístico, sintetizadas no déficit na oferta de agulhas e seringas.
Não menos dolorosas foram as limitações no campo da economia, reflexo da resistência e/ou lenta velocidade de mutação da retórica oficial liberal, predominante desde o calendário eleitoral de 2018, em favor de uma intervenção estatal contra cíclica em tempos de catástrofe na saúde.
A rigor, o staff do Palácio do Planalto pouco fez para o abrandamento do encadeamento de repercussões negativas do abalo sanitário, embora tenha colhido acentuada elevação de popularidade, por meio do lançamento do pacote de providências concebido pelo Congresso Nacional, especificamente o apoio emergencial à população vulnerável, o socorro aos estados, o orçamento extra, o crédito subsidiado aos segmentos mais afetados e a autorização para flexibilização de jornadas de trabalho.
O mais preocupante, no entanto, é que, nas circunstâncias atuais, surgem enormes barreiras domésticas à ocorrência de um reerguimento econômico em fase com o provável caminho virtuoso a ser percorrido por nações ricas e em desenvolvimento.
Dentre elas sobressai a multiplicação das incertezas quando ao ritmo e intensidade do programa de imunização, em meio do engate da 1ª na 2ª etapa de contágios, com curto interregno de abrandamento do desconforto, em consequência de escolhas erradas feitas ainda em 2020.
As maiores falhas foram a recusa, em abril, em participar da Aliança Mundial de Vacinas (Covax Facility) – composta por 165 países -, que oportunizaria 200 milhões de doses ao Brasil, e a não resposta à oferta da Pfizer, em agosto do ano passado, para suprimento de 70 milhões de doses, ainda no mês de dezembro de 2020.
Tardiamente, no final de 2020, o governo editou Medida Provisória (MP) que autoriza a adesão do país ao consórcio mundial e o aporte de recursos para a aquisição de vacinas que assegurem a imunização de apenas 10% da população (a opção era de até 50%), até o encerramento do exercício de 2021. A MP foi aprovada na Câmara dos Deputados e será debatida no Senado, somente no mês de fevereiro deste ano.
No que se refere aos obstáculos econômicos, cumpre sublinhar a iminente condição de falência fiscal do setor público, o repique da inflação – ancorado em alimentos, com a ascensão das cotações internacionais, impulsionada pelo incremento da demanda chinesa, na valorização do dólar, nos preços administrados e na natureza dessincronizada da recuperação do aparelho de produção, constatada a partir do 3º trimestre de 2020 – e a ainda elevada ociosidade dos fatores de produção (capital e mão de obra).
Por essa perspectiva, não surpreende o brusco declínio da aprovação popular ao governo. Segundo pesquisa do Datafolha, a soma dos conceitos “ótimo e bom”, conferidos pela população à condução da gestão federal, caiu de 37%, nos inquéritos de agosto e dezembro de 2020, para 31%, em janeiro de 2021. De outro extremo, depois de diminuir de 34% para 32%, entre agosto e dezembro de 2020, a frequência do selo “ruim e péssimo” subiu para 40%, em janeiro de 2021.
O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço, que é economista, ex-presidente do IPARDES.








