Pandemia e a desindustrialização brasileira

A retração dos negócios experimentada pela economia mundial em 2020, a maior desde a Grande Depressão dos anos 1930, atingiu, de forma abrupta, profunda e dramática, a esmagadora maioria dos ramos do setor de serviços, em especial aqueles mais sensíveis ao comportamento das variáveis emprego e rendimentos oriundos do trabalho formal e informal, em razão do surgimento e rápido alastramento do novo coronavírus pelo planeta.

O cenário adverso poupou apenas aquelas atividades menos dependentes do esforço presencial, ligadas à sustentação da tecnologia da informação e ao comércio eletrônico e/ou em regime drive thru, sendo estes voltados ao suprimento da demanda incremental engendrada pelas inúmeras quarentenas, definidas em momentos distintos pelos governantes nacionais e locais, com o objetivo de evitar o colapso dos sistemas de saúde, derivado da pronunciada evolução das infecções e hospitalizações associada à proliferação da enfermidade.

Isso é evidenciado pelo brutal encolhimento dos serviços. No caso brasileiro, a receita real do setor diminuiu -7,8%, em 2020, o que representou o pior performance da série histórica, pesquisada e apurada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), começada em dezembro de 2012.

Em semelhante tendência, apesar da recuperação apresentada entre maio e novembro de 2020, o volume de vendas do comércio varejista do país, aferido pelo IBGE, sofreu queda de -3,7% em dezembro, em relação ao mês anterior, e diminuiu -1,5%, no ano, fortemente afetado pelo comportamento negativo dos ramos de livros, jornais, revistas e papelaria (-30,6%), tecidos, vestuário e calçados (-22,7%), equipamentos e materiais para escritório, informática e comunicação (-16,2%), veículos e motos, partes e peças (-13,7%) e combustíveis e lubrificantes (-9,7%).

No entanto, os manuais de Ciências Econômicas sugerem que as recessões constituem fenômenos tipicamente industriais, ao derrubarem o dinamismo do pedaço do aparelho de produção dotado de capacidade de geração de efeitos irradiadores de maior envergadura, para frente e para trás, acoplada notadamente à incorporação e difusão de progresso técnico e, por extensão, multiplicação da produtividade, em múltiplas cadeias de valor.

Nesse contexto, parece oportuno o exame do curso conjuntural e das restrições estruturais enfrentadas pelo parque fabril brasileiro, apanhado pelos desdobramentos da pandemia em circunstâncias pouco confortáveis, bastante distante do cumprimento dos requisitos indispensáveis ao encaixe pleno na 4ª revolução industrial – ancorada em inteligência artificial e digitalização -, em velocidade acelerada em escala global, mesmo com a inflexão cíclica acontecida em 2018 e 2019, por conta, sobretudo, da guerra comercial ocorrida entre Estados Unidos (EUA) e China.

Pela ótica de curto prazo, uma observação cuidadosa dos parâmetros explicativos do desempenho setorial revela que mesmo com a expansão de quase 42%, medida entre maio e dezembro de 2020, e, por consequência, a restauração de mais de 27% dos estragos acumulados no intervalo de tempo compreendido entre março e abril de 2020, a produção industrial do país caiu -4,5%, no ano passado, situando-se -13,2% abaixo do pico, ocorrido em maio de 2011, de acordo com pesquisa mensal, realizada pelo IBGE.

Em idêntico sentido, os indicadores mensurados pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) denotam incremento de apenas 0,8% do faturamento real em 2020, o que provocou o retorno ao patamar crítico do final de 2018. Em paralelo, horas trabalhadas na produção, nível de emprego, massa de salários reais e salários reais médios declinaram -4,1%, -2,1%, -5,6% e -3,7%, respectivamente.

Com isso, a operação do parque industrial nacional amargou retrocesso a degraus anteriores ao período marcado pela maior recessão dos tempos republicanos, especificamente entre abril de 2014 e o final de 2016, quando horas trabalhadas e folha de salários recuaram -30% e -15%, respectivamente.

 A situação só não se tornou mais crítica graças à preservação do consumo de bens essenciais e da procura por insumos da construção civil, explicados pelos efeitos positivos da transferência direta de recursos públicos às famílias mais vulneráveis ao desastre sanitário, viabilizada pelo auxílio emergencial, que se espraiaram, ao longo do 2º semestre de 2020, e alcançaram algumas categorias de bens semiduráveis e duráveis, beneficiadas pela diminuição de determinadas modalidades de taxas de juros.

 Ainda assim, o ambiente de curto termo delineia-se pouco alentador, fortemente subordinado ao incerto regresso do socorro financeiro à população mais necessitada, em dimensões bastante tímidas se confrontadas com os haveres aportados entre abril e dezembro de 2020, e aos também imprevisíveis rumos, tamanho e ritmo do processo de vacinação das pessoas.

Apenas em caráter de ilustração, a extinção do bônus de ajuda aos carentes estaria na raiz da saída líquida de R$ 18,1 bilhões de recursos depositados em cadernetas de poupança, em janeiro de 2021, a maior contabilizada em 26 anos, conforme levantamentos do Banco Central (BC).

Não bastasse isso, no que se refere aos desafios de base, emerge a autêntica apatia oficial no que diz respeito à formulação e execução da agenda de desmanche dos aspectos prejudiciais à rentabilidade intertemporal dos empreendimentos industriais, com ênfase para câmbio, juros, tributos, infraestrutura, burocracia, ciência e tecnologia, dentre outros elementos integrantes do plantel de requisitos de competitividade sistêmica.

A rigor, na falta do estabelecimento, por parte do governo federal, de referências futuras para as escolhas estratégicas presentes dos agentes privados, a nação padece da intensificação do fenômeno conhecido como desindustrialização, expresso na drástica diminuição da contribuição da classe de transformação na composição do produto interno bruto (PIB), que desceu de 17,4%, em 2005, para 11,8%, em 2019, segundo o IBGE.

A julgar pelo andar da carruagem oficial, ao menos por enquanto, os atores industriais atuantes no país terão de se contentar com as bênçãos dos termos de troca favoráveis do mercado global de commodities e a subordinação exclusiva na eficiência do agronegócio exportador, o segmento mais competitivo da base econômica nacional.

Igualmente terão que aprender a tolerar a continuidade do processo de transformação de suas unidades físicas em verdadeiros depósitos de produtos acabados provenientes do exterior e/ou o desempenho do papel de meros importadores de peças, partes e componentes fabricados no resto do mundo, preponderantemente na China.

Infelizmente, a diminuta perspectiva de construção de um programa de desenvolvimento de longa maturação, acordado entre a aliança hegemônica de poder e a sociedade, com intermediação do poder legislativo, serve apenas para alargar o tempo de esperanças de confirmação do velho provérbio português: “não há mal que sempre dure, nem bem que nunca se acabe”.

O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço, que é economista, ex-presidente do IPARDES.

Mirian Gasparin

Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná.Profissional com experiência de 50 anos na área de jornalismo, sendo 48 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social.Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Também é professora titular nos cursos de Jornalismo e Ciências Contábeis da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas paranaenses, de São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos.Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 16 anos de blog, mais de 35 mil matérias foram postadas.Ao longo de sua carreira recebeu 20 prêmios, com destaque para o VII Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º e 3º lugar na categoria webjornalismo em 2023); Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005).Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.

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