A pandemia no Paraná e o papel do Ipardes
Em um momento em que o Brasil é considerado o epicentro da 2ª onda do Novo Coronavírus no mundo e o Paraná apresenta os piores indicadores, entre as unidades da federação, quanto ao limite técnico de utilização da capacidade do sistema de saúde, com cerca de mil pacientes à espera de leitos em enfermarias e UTIs, o governador do Estado, Ratinho Junior, protagonizou, em 05.03.21, uma cena no mínimo constrangedora.
O chefe do poder executivo regional conseguiu a proeza de, ao mesmo tempo, reconhecer a gravidade sem precedentes da situação sanitária no estado e, na sequência, desqualificar, ainda que de maneira velada, as posições assumidas pelo secretário da saúde, e anunciar, com flagrante desconforto, um elenco de regras mais frouxas.
Os novos critérios conduzirão a um sensível abrandamento, a partir das 5h do dia 10.03.2021, do decreto do lockdown meia boca, adotado desde o último final de semana de fevereiro, marcado por incontáveis casos de descumprimento e insucesso na obtenção de expressivo grau de isolamento social, em meio à circulação de novas variantes mais contagiosas e com enorme carga viral.
De fato, com a deliberação de reabertura do comércio e serviços e retorno das aulas em modelo híbrido, parece razoável argumentar que sua excelência preferiu abdicar da recomendável e imprescindível consulta aos especialistas em saúde pública, em especial infectologistas, epidemiologistas, virologistas e sanitaristas.
Ao contrário, a autoridade optou por, de um lado, atender aos pleitos corporativos por flexibilização das normais mais duras, e, de outro, seguir o Plano Nacional de Imunização que, na prática, não existe e, a fração que existe simplesmente vem marginalizando o Paraná.
É absolutamente correta a avaliação de que Ratinho Junior obedece ao roteiro detalhado pelas pouco responsáveis orientações emanadas do presidente da república, veiculadas pelo próprio ou por seu soldado universal, o perdido ministro da saúde, com vocabulário limitado e, inúmeras vezes, ofensivo.
O representante dos paranaenses mencionou ancorar suas escolhas em um modelo de previsão elaborado pelo Instituto Paranaense de Desenvolvimento Econômico e Social (Ipardes) que, segundo ele, seria o “departamento responsável pelas estatísticas da Covid”.
Em primeiro lugar, a assessoria do governador deveria informá-lo que, em vez de simples departamento, o Ipardes é uma autarquia ligada à Secretaria de Planejamento, que realiza estudos conjunturais e estruturais a respeito da dinâmica econômica, social e ambiental do Estado, há quase 48 anos, destinados a subsidiar o exercício decisório público e privado paranaense.
A entidade foi fundada em junho de 1973, pelo governador Pedro Viriato Parigot de Souza, ao sancionar projeto de lei aprovado pela Assembleia Legislativa, de autoria do deputado estadual, Nivaldo Krueger, que acolheu proposta formulada por Francisco de Borja Baptista de Magalhaes Filho e Ário Taborda Dergint de Rawicz, professores de Economia da Universidade Federal do Paraná (UFPR).
A sugestão dos técnicos consistia em transformar o braço de pesquisa do Banco de Desenvolvimento do Paraná (Badep), em um instituto capaz de propiciar uma melhor da compreensão das rápidas e profundas mudanças que aconteciam na base econômica e tecido social do Estado, no começo dos anos 1970. Tanto que, em seus dois primeiros anos, o Ipardes funcionou nas dependências da agência local de fomento.
Em segundo lugar, nas circunstâncias atuais, os trabalhos prospectivos preparados pelo Ipardes encaminhariam ao emprego de linha deliberativa diferente daquela implantada pelo governador. Isso porque, os três cenários efetuados pelo organismo de investigação (desejável, provável e pessimista), para o intervalo de tempo compreendido entre os dias 02 e 16 de março de 2021, apontam para uma escalada da pandemia no território estadual.
As inferências denotam que o Paraná deve registrar, no dia 16 de março, entre 710.015 e 748.772 confirmações de infecções por Sars-CoV-2, de acordo com as premissas otimista e pessimista, respectivamente, sendo que os cálculos prováveis sugerem o alcance de 729.318 contaminações. As três situações equivalem a acréscimos de 8,9% (otimista), 11,9% (tendencial), e 14,9%, em duas semanas, e 19,7%, 22,9% e 26,2%, respectivamente, em um mês.
Quando se leva em conta o total de 722.990 casos registrados até 08.03 e divulgados no Informe Epidemiológico, da Secretaria da Saúde, nota-se que a velocidade de expansão do surto está diretamente associada à curva pessimista, delineada pelo modelo de previsão concebido pela excelência técnica do Ipardes.
Esse quadro de evolução exponencial, resultado da conjugação entre fraca adesão social a determinações de confinamento, força das novas variantes, insuficiente e minguado ritmo de vacinação, e a subsequente saturação das retaguardas de saúde, impõem a intensificação das interrupções de atividades e quarentenas e não o relaxamento.
Para tanto, é indispensável que o governo conceda atenção redobrada aos esforços preditivos efetuados pelo Ipardes. A não ser que a autoridade esteja contaminada pelo entendimento de que a política serve prioritariamente ao atendimento de interesses e propósitos desvinculados da realidade e antagônicos ao receituário científico.
O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço, que é economista e ex-presidente do Ipardes.








