Brasil: como escapar de nova recessão
Os economistas costumam esperar a constatação da retração do Produto Interno Bruto (PIB) por dois trimestres seguidos para decretar o estado de recessão técnica de um país, estado por região.
Porém, outros sinais vitais podem ser observados e/ou antecipados para uma avaliação prévia da intensidade dos estragos, tempo de duração e, principalmente, recomendação e escolha política das terapias mais adequadas destinadas ao alívio do desastre nos níveis de atividade.
Nessa perspectiva, há uma cesta razoável de indicadores correntes e antecedentes a sinalizar que a economia brasileira estaria mergulhada em uma trajetória cadente desde o último trimestre de 2020, quando coincidentemente, houve a retirada do arsenal de medidas anticíclicas, gestadas e autorizadas pelo Congresso Nacional, em abril de 2020, e a disparada da 2ª onda de Covid-19, em território, acompanhada do surgimento da variante de Manaus, mais contagiosa e letal.
É curioso notar que o desenho contracionista e a ampliação da crise sanitária aconteceram em simultâneo às declarações de membros do ministério da Economia, ressaltando a ocorrência da retomada dos negócios em formato V, um exemplo para o resto do mundo, e o enfraquecimento do Sars-CoV-2 por aqui, com potencial de eliminação com um programa de imunização, igualmente referência global.
Na verdade, não há a menor necessidade de apoio em dados quantitativos e sondagens opinativas para derrubar os argumentos triunfalistas esboçados por entes do governo. Basta “olhar para fora” dos gabinetes da esplanada dos ministérios e confirmar o desastre sanitário e econômico ocasionado por posturas oficiais negligentes, adotadas durante mais de um ano, na contramão das complexas e ousadas iniciativas levadas a cabo por outras nações.
O resultado é catastrófico. O Brasil vivencia um absoluto descontrole da pandemia, com recordes diários de infecções e mortes por Covid-19, colapso do sistema de saúde, lentidão na vacinação da população e enormes dificuldades para a realização de compras externas de imunizantes.
A propósito dessa última anomalia, ressalta a insuficiência do produto e a priorização das entregas pelos laboratórios fabricantes, em obediência à fila cronológica dos pedidos. Sintomaticamente, a Organização Mundial da Saúde (OMS) e algumas lideranças globais abdicaram da presença e participação brasileira em um Fórum Internacional pós Pandemia, que expressaria uma união mundial contra futuras perturbações na área da saúde.
No terreno das variáveis correntes, a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD), do IBGE, identificou taxa de desemprego de 14,2% da força de trabalho, no trimestre móvel encerrado em janeiro de 2021, contra 11,2%, em igual intervalo de 2020, compreendendo 14,3 milhões de pessoas sem ocupação a procura de trabalho.
Não por acaso, Inquérito da Supedigital, fintech do grupo Santander, revela que o consumo das classes C e D despencou -28%, no 1º trimestre de 2021, afetado pela impulsão da inflação e do desemprego e ao notável encolhimento do fluxo de rendimentos das famílias.
Pela ótica dos sinalizadores antecedentes, o retrato sugere tempos difíceis. O índice de confiança do empresário industrial, mensurado pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), recuou de 59,2 pontos, em fevereiro de 2021, para 54,4 pontos, em março.
Trata-se do 3º decréscimo mensal seguido e o 3º maior da série, que começou em 1998, perdendo apenas para as experimentadas em junho de 2018, derivada da greve dos transportadores rodoviários de cargas, no final de maio daquele ano, paralisação dos caminhoneiros, e abril de 2020, justamente por causa da pandemia.
De acordo com pesquisa efetuada pela Confederação Nacional do Comércio (CNC), o índice de confiança do empresário do setor registrou 103,6 pontos em março de 2021, sendo que varia entre zero e duzentos pontos, sendo cem pontos, a linha divisória entre otimismo e pessimismo. O indicador está em queda livre por três meses consecutivos, partindo de 108,7 pontos, em dezembro de 2020, representando o maior decréscimo desde 2012.
Outra investigação da CNC mostra que a intenção de consumo das famílias situa-se nos piores níveis da série histórica, iniciada em 2010, alcançado 73,8 pontos (também possui faixa entre zero e duzentos pontos), em março de 2021, contra 96,9 pontos, no mesmo mês do ano anterior.
Na mesma linha desfavorável, a CNC também identificou elevados patamares de endividamento das famílias brasileiras. Segundo inquérito da entidade, 67,3% dos entrevistados mencionou ter dívidas, em março de 2021, 24,4% estão com as contas atrasadas, em média 62 dias, e 10,5% revelaram não dispor de condições financeiras para a regularização dos débitos.
O mais preocupante é que 80,3% informou possuir passivos no cartão de crédito que cobrava, em fevereiro de 2021, taxa de 326,7% ao ano, versus 322,6% a.a., em fevereiro de 2020, na média das instituições financeiras apurada pelo Banco Central (BC).
Como se vê, um novo buraco depressivo vem sendo cavado pela falta visão estratégica do governo que, dia após dia, demonstra crescente desinteresse de compreensão dos graves problemas que afligem os agentes sociais e econômicos, o que dificulta sobremaneira a formulação e execução das providências de reparação e eliminação.
Os atuais ocupantes do Palácio do Planalto, contaminados com a patologia do autoritarismo, ainda não foram convencidos de que a superação do quadro caótico requer sintonia entre aceleração do processo de imunização da população e o derrame de vultosas somas de recursos fiscais direcionados à recuperação da capacidade de operação da saúde e proteção social.
Os comandantes da nação também não perceberam a relevância da reativação do bloco de incentivos creditícios, na forma de linhas especiais subsidiadas, à sobrevivência das empresas pequenas e médias e, por extensão, à gradativa recomposição dos patamares de emprego.
Não seria ocioso repetir a receita da engenharia financeira de amparo: emissão de dívida pública, assegurada pelo Tesouro Nacional, e utilização de fração do apreciável estoque de reservas internacionais, em poder da autoridade monetária.
O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço, que é economista e ex-presidente do Ipardes.








