Estagflação por aqui de novo

A economia brasileira está novamente sendo conduzida ao cenário de estagflação, termo criado por especialistas, no fim da 1ª e princípio da 2ª metade da década de 1970, para entender e explicar melhor os desdobramentos do I choque do petróleo, acontecido em 1973, materializado na quadruplicação dos preços do barril do óleo, deliberada pela Organização dos Países Produtores e Exportadores de Petróleo (Opep).

Trata-se de evento que, conceitualmente, reflete a combinação entre estagnação dos negócios e aceleração da inflação. Mas, a rigor, a definição pode ser aplicada a casos de convivência perversa entre processos recessivos, incluindo a impulsão do desemprego, e escalada inflacionária.

Ressalte-se que o estudioso pioneiro na identificação crônica do fenômeno foi o professor brasileiro Ignácio Rangel que, nos primórdios dos anos 1960, realizou ampla investigação ancorada em uma periodização estatística do conjunto das principais variáveis macroeconômicas do país, no intervalo 1870-1960, e constatou a relação inversa entre variação do produto interno bruto (PIB) e do nível geral de preços, “com a precisão dos ponteiros de um relógio”.

No ambiente brasileiro presente, os indicadores preliminares correntes e antecedentes vêm expressando uma preocupante interrupção da incipiente retomada econômica verificada entre julho e outubro de 2020, especialmente depois do desmanche do grupo de medidas de apoio à renda e ao emprego, criado no ano passado visando à mitigação dos impactos econômicos e sociais da pandemia do Novo Coronavírus.

Mais que isso, é fácil perceber a ausência de uma estratégia oficial, articulada e consistente, voltada, ao mesmo tempo, à priorização de ações sanitárias, abarcando o controle da evolução da Covid-19 e a vacinação em massa da população, e à inversão da deterioração da operação das firmas e do funcionamento do mercado de trabalho.

Com isso, os níveis de atividade indicam o desenho de novo curso depressivo, que pode ser atestado pelo acréscimo de apenas 0,8% da produção industrial e declínio -1,6% das vendas reais do comércio varejista, no trimestre móvel encerrado em janeiro de 2021, depois da recomposição de somente parte dos prejuízos amargados entre março e abril de 2020.

De acordo com pesquisa da Confederação Nacional da Indústria (CNI), a confiança do empresário do setor recuou de 59,5 pontos, em janeiro de 2021, para 54,4 pontos, em fevereiro, equivalendo a 3ª maior queda mensal da série histórica começada em 2011.

No terreno da inflação, o índice nacional de preços ao consumidor amplo (IPCA), medido pelo IBGE para famílias com rendimentos mensais entre um e quarenta salários mínimos, subiu 5,2% em doze meses findos em fevereiro de 2021, com ênfase para as altas observadas em alimentos (15%) e combustíveis (13,38%).

Com isso, o indicador se aproximou do teto da meta de 5,25%, fixada pelo Conselho Monetário Nacional (CMN), para o corrente exercício, tendo como centro 3,75% e piso 2,25%, e sinaliza, se cumpridos os protocolos do regime de metas, a provável majoração da taxa Selic, no encontro do Comitê de Política Monetária (Copom), do Banco Central (BC), que acontecerá em 17 de março.

A elevação dos juros, também decorrente da ineficácia governamental no encaminhamento e discussão legislativa das reformas estruturais capazes de assegurar a solvência do setor público em médio e longo prazo, será extremamente nociva ao funcionamento de um organismo econômico já bastante fragilizado pela estagnação cíclica, agravada pelo surto de Sars-Cov-2.

Em semelhante direção, o índice nacional de preços ao consumidor (INPC), que afere a dinâmica dos preços de uma cesta de produtos consumida por famílias que ganham entre um e cinco salários mínimos mensais, variou 6,22%, no mesmo intervalo, denotando que a disparada inflacionária serve para comprimir, de maneira mais acentuada, o poder de compra da população mais pobre.

Decerto que a curva de preços vem sendo fortemente afetada por choques de oferta, principalmente a impulsão das cotações dos alimentos no mercado global, puxada pelo enorme incremento da demanda chinesa, e a ascensão dos preços do petróleo, com a conjugação entre diminuição da produção e expansão da procura, motivada pela inflexão da marcha contracionista da economia internacional, aprofundada com as perspectivas de alargamento generalizado da imunização.

Só a título de exemplo, o índice de preços dos alimentos, levantado pela FAO, situa-se, em março de 2021, 18,3% e 9% acima da média de 2020 e da média histórica, respectivamente. Para as mesmas bases de comparação, a soja exibe aumento de 42,9% e 22,4% e o milho de 51,2% e 20,3%.

Especificamente no que se refere ao inferno dos combustíveis, a precificação baseada no comportamento das cotações externas e do dólar pode ser corrigida pela implantação de uma banda de flutuação das alíquotas de impostos incidentes sobre os valores nas bombas.

Ademais, a pronunciada depreciação da taxa de câmbio, explicada pela valorização do dólar no front mundial e o enfraquecimento do real, este por conta das incontáveis estripulias protagonizadas pelo governo Bolsonaro, em múltiplas áreas, tem colaborado para magnificar e impor rigidez à baixa da espiral de preços.

A desativação da bomba da estagflação brasileira requer imediatas e ousadas iniciativas do executivo federal no sentido de virar o jogo das incertezas que abala os agentes sociais quanto à agilização da vacinação e adoção de providências capazes de amainar as inevitáveis repercussões negativas da paralisação de atividades, derivada dos confinamentos decretados, em distintos momentos, por governadores e prefeitos, sobretudo em razão da recusa de coordenação nacional.

Dentre as medidas anticíclicas sobressai a transferência direta de renda para famílias vulneráveis, assoladas pelo desemprego, e o suprimento de capital de giro subsidiado para a sobrevivência de pequenos e médios empresários e, por consequência, do mercado de ocupações.

O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço, que é economista e ex-presidente do Ipardes.

Mirian Gasparin

Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná.Profissional com experiência de 50 anos na área de jornalismo, sendo 48 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social.Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Também é professora titular nos cursos de Jornalismo e Ciências Contábeis da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas paranaenses, de São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos.Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 16 anos de blog, mais de 35 mil matérias foram postadas.Ao longo de sua carreira recebeu 20 prêmios, com destaque para o VII Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º e 3º lugar na categoria webjornalismo em 2023); Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005).Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.

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