O PIB da recessão pandêmica brasileira

A variação negativa de -4,1% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro em 2020, a maior em 24 anos, calculada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), reflete essencialmente os avassaladores impactos da pandemia de Covid-19 no país, que alcançou o território nacional em março do ano passado e continua causando recordes de casos de infecções, hospitalizações, ocupações de UTIs e equipamentos e mortes.

O órgão inferiu declínio de -3,5% da indústria e -4,5% dos serviços, setores drasticamente afetados pelos confinamentos heterogêneos, acontecidos em diferentes momentos nos estados e municípios, e pelas restrições à mobilidade de pessoas, impostas pelas autoridades.

Os tombos mais relevantes da classe fabril residiram na construção civil (-7%) e transformação (4,3%), enquanto que nos serviços as diminuições mais expressivas recaíram sobre outros serviços (-12,1%), transportes (-9,2%), saúde e educação (-4,7%) e comércio (-3,1%), tendo as atividades financeiras e mobiliárias, experimentado expansão de 4% e 2%, respectivamente.

Com isso, a participação dos serviços no PIB desceu de 73,5%, em 2019, para 72,8%, em 2020, e a agropecuária apontou elevação de 5,1% para 6,8%. A indústria também exibiu redução de 21,4% para 20,4%, sendo que a contribuição da categoria de transformação diminuiu de 11,8% para 11,3%, a menor da série histórica, corroborando a intensificação do fenômeno de desindustrialização.

Parece oportuno esclarecer que a recessão não se mostrou ainda mais acentuada em virtude do incremento de 2% registrado pela agropecuária, graças à combinação entre o crescimento do consumo de alimentos nas residências, associado às quarentenas, e ao arranque das exportações das cadeias do agronegócio, as mais competitivas do país, estimulado pela soma da depreciação cambial, do aumento da demanda chinesa e da disparada das cotações globais.

Pela ótica da demanda agregada, todos os componentes contabilizaram decréscimos, com ênfase para importações (-10%), consumo das famílias (-5,5%), em função do aumento do desemprego, recuo dos rendimentos e isolamento social, e dispêndios do governo (-4,7%), apesar dos substancias requerimentos de recursos para combate ao alastramento da patologia. Houve também decréscimo de -1,8% das exportações e -0,8% da formação bruta de capital fixo.

O episódio contracionista só não foi maior também em razão da rápida mobilização do Congresso Nacional, quase que à revelia do poder executivo, ao organizar a aprovação do auxílio emergencial aos vulneráveis, do orçamento extraordinário, paralelo ao convencional, para o suporte dos enormes gastos diretos e indiretos exigidos para enfrentamento da crise sanitária, do apoio financeiro aos estados e municípios e de porções de crédito subsidiado, na forma de capital de giro, para assegurar a sobrevivência de pequenos e médios negócios.

O pior é que a economia nacional foi apanhada pelo Novo Coronavírus em um estágio de estagnação cíclica, marcado por crescimento médio anual de 1,3% ao ano, entre 2017 e 2019, depois da mais longa profunda recessão da história republicana, amargada no período compreendido entre abril de 2014 e dezembro de 2016, quando a principal grandeza macroeconômica encolheu -8,5%.

A recuperação registrada, predominantemente no 3º trimestre de 2020, foi incapaz de promover uma recomposição mais robusta dos estragos provocados pelo Sars-CoV-2 e, mais grave, passou a emitir nítidos sinais de descontinuidade a partir do mês de novembro.

A inflexão na retomada derivou da multiplicação das incertezas dos agentes, por conta das dúvidas quanto à eficácia do programa de vacinação, do prematuro desmonte do arsenal de amparo a famílias e empresas e da percepção da ausência de compromisso oficial com as reformas institucionais imprescindíveis para devolver funcionalidade ao aparelho de estado e multiplicar a eficiência microeconômica.

Infelizmente, as perspectivas de reversão do movimento cadente da economia brasileira, visível a olho nu, neste 1º trimestre de 2021, em curto e médio prazo, não são nada animadoras, em contraste com o cenário de gradativa normalização no ambiente internacional, motivado pela aceleração da vacinação e a provável adaptação ao surgimento das novas cepas do vírus.

Por aqui, o que se vê é o alargamento do cenário de insegurança, caracterizado pelo avanço das contaminações e mortes, fortemente influenciado pelo descontrole com as ditas variantes, em simultâneo à omissão federal, sintetizada na postura do chefe de estado de preferir viver em seu próprio mundo. O retrato prospectivo torna-se ainda mais dramático quando se recorda a expressão do Barão de Itararé: “de onde menos se espera, daí é que não sai nada”.

O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço, que é economista e ex-presidente do Ipardes.

Mirian Gasparin

Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná.Profissional com experiência de 50 anos na área de jornalismo, sendo 48 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social.Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Também é professora titular nos cursos de Jornalismo e Ciências Contábeis da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas paranaenses, de São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos.Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 16 anos de blog, mais de 35 mil matérias foram postadas.Ao longo de sua carreira recebeu 20 prêmios, com destaque para o VII Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º e 3º lugar na categoria webjornalismo em 2023); Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005).Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.

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