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Brasil: pandemia em alta; governo e economia em baixa

O comércio varejista brasileiro apresentou comportamento positivo, no mês de fevereiro de 2021, de acordo com a Pesquisa Mensal do Comércio (PMC), realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O volume de vendas do setor cresceu 4,1%, em relação a janeiro, impulsionado por livros, jornais, revistas e itens de papelaria (15,4%), móveis e eletrodomésticos (9,3%), veículos e motos, partes e peças (8,8%) e tecidos, vestuário e calçados (7,8%).

O desempenho animador é relativizado ao se estabelecer o confronto com o mês de fevereiro de 2020, com a identificação de queda de -1,9%. Ainda piores são os indicadores do 1º bimestre de 2021, frente aos dois primeiros meses do ano anterior, e o acumulado em doze meses, que acusaram retração de -2,5% e -2,3%, respectivamente.

No entanto, na referência de cotejo mais relevante, para efeito de percepção de flutuações cíclicas da comercialização real do varejo, a média móvel trimestral, constatou-se declínio de -0,5%, em fevereiro de 2021. Isso confirma o estado de letargia do segmento, consequência do novo mergulho recessivo da economia brasileira, iniciado no final do ano passado.

Em sentido análogo, apesar de ter experimentado incremento de 3,7%, em fevereiro de 2021, frente ao mês antecedente, o 9º seguido, no confronto com fevereiro de 2020, amargou retração de -2,0%, a 12ª seguida. No acumulado em doze meses, identificou-se decréscimo de -8,6%, o maior da série histórica, iniciada em dezembro de 2012.

Tal fenômeno deriva essencialmente da supressão do conjunto de medidas de mitigação dos impactos da pandemia de Covid-19 sobre o fluxo de renda das famílias e de caixa das empresas, concebido e aprovado pelo parlamento e aplicado pelo executivo, com ênfase para o auxílio emergencial às famílias vulneráveis, o crédito subsidiado às firmas de pequeno e médio porte, o socorro financeiro aos estados, a cobertura de parcela da redução das jornadas de trabalho, e o orçamento extraordinário.

É interessante assinalar que a escolha pela retirada do arsenal de apoio, em fins de 2020, esteve amparada em premissas equivocadas, em especial a proximidade do fim do surto do Novo Coronavírus em território brasileiro e a ocorrência de vigorosa retomada em estilo V dos níveis de atividade econômica.

Por absurdo, baseada em estatísticas distorcidas do mercado de trabalho, obtidas a partir de modificações metodológicas introduzidas no Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), do Ministério da Economia, que desautorizam comparações intertemporais, no ano de lançamento, a equipe de Paulo Guedes não conseguiu perceber a pronunciada desaceleração econômica, edificada desde o último trimestre de 2020.

O staff da economia negligenciou o encolhimento dos patamares de consumo privado, notadamente com a redução pela metade (de R$ 600 para R$ 300 mensais), a partir de setembro, das alocações para saques destinadas a garantir a sobrevivência das famílias pobres desprovidas de renda durante a pandemia.

Em paralelo, o executivo preservou a postura de negação da dimensão do desastre sanitário, da necessidade de coordenação nacional dos esforços de contenção da evolução das infecções e mortes ocasionadas pela doença e de imunização em massa da população e, por extensão, feitura de encomendas de vacinas em quantidades compatíveis com o estágio demográfico nacional.

Ao contrário, o chefe de estado e suas milícias digitais preferiram prosseguir empenhados na participação em incursões autoritárias, expressas em permanentes ataques aos opositores, tratados como inimigos da pátria, à imprensa, a algumas nações parceiras e às instituições da república, em verdadeiras demonstrações de desprezo à convivência Democrática e em perfeita sintonia com as fracassadas investidas do ex-presidente, Donald Trump, derrotado nas eleições norte-americanas, em 2020.

Diante desse imbróglio de erros e omissões, não constituiu surpresa o rápido extravasamento para o restante do país do colapso registrado pelo sistema de saúde do Amazonas, entre dezembro de 2020 e fevereiro de 2021, com o agravante do aparecimento e disseminação da cepa brasileira, mais transmissível e dotada de maior carga viral.

Em face da ausência de comprometimento e envolvimento pleno das autoridades de Brasília, inúmeros gestores locais foram forçados a decretarem novas restrições à circulação de pessoas e ao funcionamento de atividades não essenciais, no afã de inverter, ou ao menos abrandar, o indesejável colapso da retaguarda de saúde.

Enquanto isso, o plano nacional de imunização, fortemente caracterizado por insuficiência de vacinas, por descaso e incompetência do governo federal, caminha a passos de cágado, e a nação vem assumindo um dos papéis destaque global em contabilização de casos de contaminações e óbitos pela patologia.

Em circunstâncias tão inóspitas, a decisão atrasada e isolada de promoção do retorno do pagamento do benefício emergencial, a partir de abril do corrente ano, deve produzir desdobramentos virtuosos incomparavelmente menores do que aqueles verificados em 2020, quando o montante transferido para amparo aos informais e/ou carentes equivaleu 4,4% do produto interno bruto (PIB).

Na verdade, enquanto as exportações do agronegócio, impulsionadas pela disparada das cotações das commodities, com a recuperação da economia chinesa, a depreciação do real, representaram o amortecedor da vulnerabilidade externa nacional, o chamado Corona Voucher, foi o principal responsável pela menor intensidade recessiva, no front doméstico.

Tanto é assim que, que PIB do país contraiu -4,1%, em 2020, versus projeção de recuo de -9,1%, efetuada pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), em junho do ano passado.

Desta feita, a combinação entre maior desemprego, endividamento e inadimplência dos consumidores, juros e inflação em ascensão, e ajuda transitória correspondente a apenas 0,6% do PIB, diluída em quatro meses, serve para corroborar as diminutas chances de resgate de condições propícias à recuperação econômica nacional e aprofundar a erosão da credibilidade de um governo inexistente ou, na melhor das hipóteses, homogeneamente fraco.

O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço, que é economista e ex-presidente do Ipardes.

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Mirian Gasparin
Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná. Profissional com experiência de 44 anos na área de jornalismo, sendo 42 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social. Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Também é professora titular nos cursos de Jornalismo e Ciências Contábeis da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas paranaenses, de São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos. Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 11 anos de blog, mais de 20 mil matérias foram postadas. Ao longo de sua carreira recebeu 18 prêmios, com destaque para Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005). Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.
https://www.miriangasparin.com.br

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