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Retomada econômica mundial e estado crítico do Brasil

Apesar das elevadas margens de erro embutidas na realização de projeções macroeconômicas, em especial nas circunstâncias atuais, com a presença de um conjunto de incertezas nada desprezível acerca das chances de reversão da evolução e eliminação da pandemia de Coronavírus, que assola o mundo desde o final de 2019 e já produziu cepas mais transmissíveis e letais, vários exercícios prospectivos vêm esboçando cenários de recuperação dos níveis de atividade para 2020 e 2021.

Tanto é assim que a qualificada equipe técnica do Fundo Monetário Internacional (FMI) tem sistematicamente revisado para cima suas previsões de expansão da economia global, em 2020 e 2021, a cada nova rodada de atualização, efetuada em periodicidade quadrimestral e publicada no documento World Economic Outlook.

No relatório preparado neste começo de abril de 2021, a entidade estimou incremento de 6% do produto interno bruto (PIB) do planeta, no corrente ano, e de 4,4%, em 2022, o que equivaleria à recomposição com sobras das perdas amargadas em 2020, quando a grandeza sofreu retração de -3,3%.

Mais do que indicadores de reerguimento do ciclo de negócios em escala internacional, depois do choque de oferta e demanda provocado pela maior crise sanitária da histórica, os números positivos refletem premissas que reúnem a combinação virtuosa de três elementos.

Mais precisamente, o evidente revigoramento econômico repousa em avanços científicos constatados na área da saúde – marcados pelo desenvolvimento em tempo recorde e elevados patamares de produção de imunizantes contra a Covid-19, que podem ser adaptados às variantes virais -, vultosos pacotes fiscais e monetários despejados por governos e bancos centrais, voltados à mitigação da deterioração do mercado de trabalho e sobrevivência das empresas, e aceleração do processo de vacinação da população, notadamente naquelas nações dotadas de autoridades dedicadas ao reparo dos estragos ocasionados pela patologia.

De acordo com estimativas do Fundo, depois de acusarem encolhimento de -4,7%, em 2020, as economias avançadas devem crescer 5,1% e 3,6%, respectivamente, em 2021 e 2022, puxadas pelos Estados Unidos (EUA), com variação de 6,4% e 3,5%, respectivamente.

Mesmo a economia da Zona do Euro, duramente castigada em 2020, com recuo de -6,6% do PIB, e que ainda expressa acentuada heterogeneidade na adesão coletiva e no ritmo da vacinação, deve registrar crescimento de 4,4% e 3,8%, respectivamente, no intervalo em tela.

De seu turno, os mercados emergentes, que experimentaram redução de -2,2% do PIB, em 2020, devem contabilizar impulsão de 8,6% e 6%, respectivamente. As locomotivas desse espaço serão a China (8,4% e 5,6%) e Índia (12,5% e 6,9%), sendo que a economia chinesa constituiu a honrosa exceção à situação depressiva de 2020, quando ainda conseguiu anotar acréscimo de 2,3%, desdobrado na recessão verificada no 1º trimestre e na evolução contínua a partir de abril.

É forçoso reconhecer que as instâncias políticas chinesas foram extremamente competentes na conjugação entre estratégias de imposição de rigorosos confinamentos da população, para neutralizar a curva ascendente do Sars-CoV-2, e derrame de elevadas somas de crédito subsidiado à iniciativa privada e impulsão dos gastos e investimentos públicos, na perspectiva de precipitar intenso empuxe na demanda agregada.

Não por acaso, o reduzido retardo da recuperação e a firme retomada do mercado chinês foram os principais responsáveis pela disparada das cotações das principais commodities minerais, metálicas e alimentares, o que explica o abrandamento do desequilíbrio das contas externas dos países produtores e, naqueles destituídos de orientações econômicas sólidas, o recrudescimento da inflação, também determinado pela depreciação da taxa de câmbio.

Apenas a título de ilustração a respeito da influência da procura adicional chinesa, o índice FAO de alimentos subiu 16,7%, em doze meses findos em março de 2021, catapultado por soja e milho, que exibiram altas de 56% e 45,7%, respectivamente. Já o barril de petróleo aumentou 25%, em igual intervalo.

Ademais, China e Índia, por sediarem grandes plantas fabricantes de insumos e imunizantes, deverão ser agraciadas pela necessidade de suprimento do extraordinário e não homogêneo volume de encomendas de vacinas, o que exigirá a multiplicação continuada dos níveis de produção.

 Por absurdo, parece que o Brasil abdicou da participação ativa no arranjo de renovação de forças expansivas, organizado no restante do mundo. Conforme o FMI, depois de contrair -4,1%, em 2020, o PIB nacional deve elevar-se apenas 3,7%, em 2021, e 2,6%, em 2022.

Pior, em sentido oposto daquele trilhado pelas nações centrais e em desenvolvimento, a gestão pública federal, “sem lenço e sem documento”, sob o comando do chefe de estado, tem preferido ignorar a existência do patógeno, ou sua escalada exponencial, e, em consequência, assistir passivamente a saturação da retaguarda de saúde.

A esmagadora maioria das providências adotadas, desde abril do ano passado, para combater os desdobramentos econômicos e sociais derivados do surto, revelaram-se atrasadas e insuficientes, ou até mesmo equivocadas.

Dentre os erros, sobressai a recusa de contratação de aquisição de 70 milhões de doses de vacinas, oferecidas pela empresa farmacêutica multinacional Pfizer, em setembro de 2020, e a não substituição do auxilio emergencial e do programa Bolsa Família por um mecanismo oficial permanente de renda mínima, em um estágio de agravamento da pobreza gerada por maior desemprego e aceleração da inflação de alimentos.

Aliás, com o fim do pagamento do amparo aos vulneráveis, em dezembro de 2020, as cadernetas de poupança acusaram saída líquida de recursos de R$ 27,5 bilhões, entre janeiro e março de 2021, a maior da série histórica levantada pelo Banco Central.

Pelo conjunto da obra, é fácil perceber que, enquanto o planeta discute o elenco de iniciativas imprescindíveis do pós-pandemia, o Brasil opta por se afundar na embriaguez e/ou pobreza política e gerencial e continuar a dançar a beira do precipício.

O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço, que é economista e ex-presidente do Ipardes.

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Mirian Gasparin
Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná. Profissional com experiência de 44 anos na área de jornalismo, sendo 42 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social. Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Também é professora titular nos cursos de Jornalismo e Ciências Contábeis da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas paranaenses, de São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos. Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 11 anos de blog, mais de 20 mil matérias foram postadas. Ao longo de sua carreira recebeu 18 prêmios, com destaque para Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005). Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.
https://www.miriangasparin.com.br

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