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Desidratação do apoio popular ao governo Bolsonaro

A primorosa e abrangente sondagem realizada pelo Datafolha, em 11 e 12 de maio de 2021, amparada em entrevistas junto a 2.071 pessoas, em 146 municípios brasileiros, permitiu a construção de alguns indicadores que facilitam sobremaneira o pleno entendimento do cenário político brasileiro.

O principal movimento capturado pela pesquisa compreendeu a flagrante desidratação da popularidade do supremo mandatário da nação, mensurada pela aprovação do governo, obtida a partir da agregação dos conceitos ótimo e bom, conferido pelos consultados, que vem despencando desde o final de 2020, quando estava em 37%, até chegar a 24%, em maio, o que equivale ao pior nível de satisfação desde o início da gestão de Bolsonaro.

O instituto também apurou que menos da metade daqueles que sufragaram o presidente, no 2º turno das eleições de 2018, estariam dispostos a repetir a atitude no 1º turno da peleja de 2022.

A contínua derrocada da avaliação de desempenho do comando do país decorre essencialmente da permanente aversão oficial ao modus operandi do poder executivo em ambientes democráticos, que exige complexas negociações com as demais instâncias de poder, sobretudo com o parlamento em regime de presidencialismo de coalizão, e aceite e tolerância do livre funcionamento das demais instituições de Estado, abarcando também imprensa, sindicatos e demais entidades representativas das comunidades.

Portador de um retrospecto fraco e/ou apagado como deputado federal, restrito à defesa de bandeiras das corporações militares, em quatro mandatos seguidos, Bolsonaro tirou proveito da sintonia fina entre três elementos de tensão, acusados pelos agentes econômicos e sociais, para o lançamento e viabilização de uma plataforma vencedora na corrida eleitoral de 2018.

Aqueles componentes de instabilidade repousaram no clima de repugnância ao jeito tradicional de se fazer política por aqui, desencadeado com as manifestações de rua de 2013, o desnudamento das ações de corrupção, apuradas no âmbito da Operação Lava Jato, e o desejo majoritário de afastamento da aliança hegemônica, instalada no palácio do planalto entre 2003 e maio de 2015 – quando foi instaurado o impeachment contra a presidente Dilma Rousseff – associada aos escândalos de malversação de recursos públicos do Mensalão e Petrolão.

Sem contar a influência decisiva exercida pela discreta e fracionada participação das agremiações partidárias localizadas no centro do espectro ideológico, o que favoreceu a polarização da contenda entre aquilo que se convencionou denominar de conjuntos da extrema direita – então em moda no mundo, inclusive nos Estados Unidos – e da esquerda, esta enfraquecida principalmente por conta de sua identificação com os episódios recentes de corrupção.

Porém, desde o começo da hospedagem como titular do governo, Bolsonaro revelou-se um autêntico desastre, traduzido na montagem de uma equipe homogeneamente precária e que enfeixava múltiplos, contraditórios e escusos interesses.

As marcas da gestão englobam a presença de inclinações liberais e intervencionistas, o lançamento de iniciativas voltadas ao incitamento do armamento da população e de práticas de conservadorismo educacional e religioso, a ausência de compromissos mínimos com a sustentabilidade ambiental, a constituição e utilização de estrutura paralela à máquina pública, inclusive o gabinete do ódio, e a disseminação de ideias e objetivos estapafúrdios, ancorados em princípios preparados por um mago do presidente, residente no exterior, possuidor de desprezível reputação intelectual.

Na órbita política, o chefe de estado priorizou a postura de distanciamento do legislativo e, o que é pior, de não formação de uma base parlamentar, baseado na premissa de enormes chances de atropelo dos membros da casa de leis, com o acionamento de uma espécie de locomotiva de projetos, concebidos no âmbito do executivo, sustentada em suposta ampla simpatia e adesão da população à pauta oferecida.

Em paralelo, Bolsonaro fez prevalecer postura de candidato à reeleição, expressa na recusa de desembarque dos palanques eleitorais e feitura do protocolar gesto de convivência pacífica com as correntes de oposição, em contraste com a mais importante regra não escrita das democracias.

Por fim, no campo da economia, o proeminente ministro Paulo Guedes, chamado de Posto Ipiranga durante a campanha, apenas observou a rápida destruição do mirabolante bloco de propostas pró-mercado, em consequência das hesitações e desautorizações, por parte do chefe de Estado, e excesso de arrogância do próprio time, especialmente nas tratativas de tramitação da agenda de reformas e outros itens considerados essenciais, junto ao Congresso Nacional.

A solitária aprovação relevante foi a da reforma da previdência, em 2019, que, por sinal, só avançou a partir do momento em que o presidente da Câmara, deputado Rodrigo Maia, encampou os trâmites e conversações, o que resultou em um produto final dotado de efeito de ajuste fiscal 40% inferior ao contido na sugestão encaminhada pela área econômica.

O despejo da pá de cal sobre o governo aconteceu com a evolução descontrolada da pandemia do Novo Coronavírus no Brasil. Quase um ano e três meses depois da identificação da 1ª infecção por Covid-19 no país, o gerenciamento do terremoto sanitário prossegue precário em múltiplos aspectos, com ênfase para a escassez de imunizantes, não encomendados na ocasião em que foram ofertados por grandes laboratórios mundiais, e a inserção tardia no consórcio global de vacinas, coordenado pela OMS.

Mais do que isso, o presidente da república, autorizado por sua engajada militância digital e rueira, escolheu defender fervorosamente o vírus e contribuir para a escalada da patologia, por meio de sabotagem às recomendações de restrições à mobilidade, feitas por governadores e prefeitos e da deplorável insistência no chamado tratamento precoce, apoiado no uso de medicamentos comprovadamente ineficazes contra a patologia.

Foram comuns expressões proferidas por Bolsonaro com objetivo explícito de esconder o tamanho da encrenca, desqualificar a importância do isolamento social, negligenciar o episódio de déficit de oxigênio em Manaus e desprezar o elevado número de óbitos, com destaque para “quando muito, seria acometido de uma ‘gripezinha’ ou ‘resfriadinho”, e daí?”, “não sou coveiro”, “chega de frescura”, “vai ficar chorando até quando” e “tem alguns idiotas que até hoje ficam em casa”.

Igualmente constatou-se incompetência impar oficial quando do desmanche das medidas anticíclicas de diminuição dos impactos da endemia na renda das famílias e no fluxo de caixa das empresas, aprovadas pelo legislativo e aplicadas entre abril e dezembro de 2020, baseado nas equivocadas premissas, ou mesmo miragens, expressas na proximidade do fim do surto, perspectiva de vacinação em massa e sólida retomada econômica em estilo V.

Tanto que a pasta da Economia simplesmente abandonou o esforço de formulação e implantação do programa Renda Brasil que, reuniria os principais mecanismos de transferência de renda e configuraria um instrumento contemporâneo de perene inclusão social e diminuição das desigualdades e da pobreza.

Não por acidente, o país mergulhou na 3ª onda de contaminações, hospitalizações e mortes por Sars-CoV-2 e amarga nova retração dos níveis de atividade econômica e impulsão do desemprego, desprovido da retaguarda de proteção social disponibilizada no ano passado.

No final das contas, o desligamento ou cancelamento antecipado de Bolsonaro só não se concretizou em função do contrato de arrendamento dos serviços do grupo legislativo denominado de Centrão que, por enquanto, o tem preservado dos incômodos inerentes à instauração do processo de impeachment, reivindicada por 49% da população, contra 43% de rejeição, ainda conforme o Datafolha, e que vem obtendo densidade jurídica.

No entanto, a evolução dos trabalhos da CPI da Pandemia, instalada pelo Senado da República, por determinação do Supremo Tribunal Federal (STF), pode constatar novas verdades estarrecedoras, ocasionar desdobramentos desconfortáveis ao clã Bolsonaro e promover a virada, antes do apito final em outubro de 2022, de um jogo que não interessa nem ao atual presidente nem a seu principal adversário.

O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço, que é economista e ex-presidente do Ipardes.

Mirian Gasparin
Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná. Profissional com experiência de 44 anos na área de jornalismo, sendo 42 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social. Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Também é professora titular nos cursos de Jornalismo e Ciências Contábeis da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas paranaenses, de São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos. Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 11 anos de blog, mais de 20 mil matérias foram postadas. Ao longo de sua carreira recebeu 18 prêmios, com destaque para Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005). Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.
https://www.miriangasparin.com.br

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