You are here
Home > Artigos > Por um país além de Bolsonaro e Lula

Por um país além de Bolsonaro e Lula

O conjunto de resultados da sondagem de opinião realizada pela empresa Inteligência em Pesquisa e Consultoria (IPEC), sucedânea do Ibope Inteligência, entre os dias 17 e 21 de junho de 2021, junto a 2.002 pessoas, em 141 municípios brasileiros, permite a identificação de três vertentes conjugadas de constatações acerca das ações governamentais e do ambiente político nacional.

O primeiro eixo de indicações diz respeito à erosão da aprovação popular ao governo e da mitificação do chefe de Estado. Conforme o inquérito, a validação da forma do presidente governar declinou de 38%, em fevereiro de 2021, para 30%, em junho de 2021. Já a reprovação ao modo de governar subiu de 58% para 66%, no mesmo intervalo de quatro meses.

Enquanto isso, a chancela às ações efetivas na condução do país, denotada na concessão dos conceitos ótimo e bom pelos entrevistados, caiu de 28%, em fevereiro, para 24%, em junho. Em idêntico sentido, a reprovação, englobada pela atribuição dos rótulos de ruim e péssimo, subiu de 39% para 49%. A apreciação regular desceu de 31% para 26%.

Em igual referência de cotejo, o sentimento de confiança no presidente diminuiu de 36% para 30%, ao passo que o descrédito no titular da Alvorada saltou de 61% para 68%.

O segundo vetor de conclusões das incursões qualitativas empreendidas pelo IPEC repousa na consolidação da provável candidatura do ex-presidente Lula, ao pleito presidencial de 2022, ancorada, de um lado, nas incansáveis ações do atual presidente no sentido da ressurreição do adversário – em vez de governar, Bolsonaro optou por não desembarcar dos palanques eleitorais -, e, de outro, a autêntica reviravolta no arcabouço interpretativo das condenações de Lula, por parte do poder judiciário.

É desnecessário lembrar que a recente conduta deliberativa de membros isolados e do próprio plenário do Supremo Tribunal Federal (STF) tem sido marcada pela restauração da elegibilidade de Lula, em especial com a invalidação dos julgamentos dos crimes pelos quais é acusado, efetuados pela primeira instância de Curitiba.

Houve também as definições de suspeição ampla dos correspondentes atos praticados pelo ex-Juiz, Sérgio Moro, e a subsequente anulação das investigações e respectivas provas, levantadas ao longo dos processos instaurados contra o mandatário do país, entre 2003 e 2010.

Nessa perspectiva, de acordo com a mesma pesquisa, com 49% das intenções de voto, contra 23%, de Jair Bolsonaro, e 15%, de outros três postulantes agrupados (Ciro Gomes, PDT, João Doria, PSDB, e Luiz Henrique Mandetta, DEM), Lula teria 56% das assinalações válidas e levaria a contenda ainda no 1º turno.

A fatia de informantes que disseram que poderiam votar ou votariam com certeza em Lula passou de 50% para 61%, entre fevereiro e junho, enquanto que o pedaço dos que não o escolheriam de jeito nenhum encolheu de 44% para 36%.

Com respeito ao comportamento dos gostos por Bolsonaro, o panorama é oposto. A parte daqueles que dizem que votariam ou poderiam votar nele recuou de 38% para 33% e a dos que afirmam que não sufragariam o presidente de nenhum modo saltou de 56% para 62%, no período de quatro meses.

Como se vê, o movimento das pesquisas sugere rápida ampliação da massa de potenciais eleitores que avaliam que o fenômeno da volta de Lula seria menos nocivo ao futuro do país do que o prosseguimento do descalabro administrativo de Bolsonaro, na mais benevolente das apreciações.

A terceira linha ou hipótese de percepções denota a manutenção e/ou exacerbação das dificuldades de a fração da sociedade hospedada nas correntes políticas de centro vir a edificar uma alternativa eleitoral aos extremos, portadora de chances concretas de êxito durante o ciclo do ano que vêm.

A propósito disso, por ora, seria necessária a aglutinação das três tendências explicitadas (Ciro, Doria e Mandetta) e a conquista do contingente de 13%, que manifestaram o desejo de cravar branco ou nulo (10%), ou preferiram não emitir opinião (3%), para, ao mesmo tempo, conseguir desbancar a opção Bolsonaro e ensejar a ocorrência de um 2º turno da disputa, o que, à primeira vista, parece pouco provável.

No entanto, soa oportuno aventar a premissa de que, em algum momento, acontecerá o desalojamento de Lula da espécie de “zona de conforto” propiciada pela combinação entre a posição favorável do STF e a intensificação da deterioração da administração Bolsonaro.

Isso porque, há a incômoda permanência, no raciocínio da esmagadora maioria das pessoas detentoras de poder e influência de voto e veto, de apreciáveis lacunas a respeito dos eventos de escancarada malversação de recursos públicos, verificados no transcorrer dos mandados de Lula e sua sucessora, Dilma Rousseff, por meio de articulação promíscua entre membros do executivo, legislativo e grandes empresas privadas.

Caberá ao ex-presidente justificar, de maneira convincente, o suposto desconhecimento e/ou não participação em operações de corrupção que contribuíram para o aprofundamento do desequilíbrio das finanças públicas e capacidade de investimentos das empresas pertencentes ao Estado.

Em outras palavras, a dinâmica dos episódios de assaltos ao Orçamento Federal, enfeixados pelo Mensalão, na década de 2000, e aparelhamento partidário e enfraquecimento da gestão e do caixa das companhias estatais, abarcados pelo Petrolão, nos anos 2010, ainda carece da apresentação de sólidos elementos explicativos para submissão às instituições de investigação e juízo e ao conjunto da sociedade.

Também parece lícito admitir a pressuposição de acentuação da desidratação da capacidade e visão estratégica – se é que existiram, em algum momento – dos atuais ocupantes do planalto. Na prática, trata-se de uma colcha de retalhos destituída de inclinações direcionadas ao planejamento de longo prazo e habilidades para enfrentamento de apreciáveis instabilidades repentinas, como a pandemia de Covid-19.

Mais que isso, o Brasil possui um governo desprovido de liderança, dominado pela parcela fisiológica do Congresso, conhecida como Centrão, e que tem servido como referência ao mundo de como desorganizar a macroeconomia, destruir o sistema educacional, desmontar os mecanismos de sustentabilidade ambiental, promover o isolamento nas relações externas, negligenciar e abdicar do firme combate à crise sanitária, dentre outros exemplos de falhas de uma equipe extremamente heterogênea, porém, homogeneamente deficiente, formada por autênticos ventríloquos do chefe.

Por essa ordem de ideias, caberá aos segmentos do tecido social não necessariamente alinhados a predileções extremas, ou até cansados das mesmas, a descoberta e viabilização de saídas que favoreçam o escape dos prejuízos derivados da polarização até então prevalecente.

Só assim será possível a não validação, por vias essencialmente democráticas, de plataformas e programas de soluções populistas e demagógicas ou autoritárias e truculentas, bastante conhecidas, travestidas de santidades ou comodamente escondidas atrás de montes de cadáveres.

O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço, que é economista e ex-presidente do Ipardes.

Mirian Gasparin
Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná. Profissional com experiência de 44 anos na área de jornalismo, sendo 42 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social. Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Também é professora titular nos cursos de Jornalismo e Ciências Contábeis da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas paranaenses, de São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos. Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 11 anos de blog, mais de 20 mil matérias foram postadas. Ao longo de sua carreira recebeu 18 prêmios, com destaque para Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005). Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.
https://www.miriangasparin.com.br

Deixe uma resposta

Top